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'Star Trek': Como a franquia se tornou um ícone de diversidade na mídia

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Quando o primeiro episódio da série Star Trek foi exibido pela NBC, na quinta-feira de 8 de setembro de 1966, às 20h30, algo completamente novo surgiu na TV norte-americana.

O Sal da Terra mostrou um alienígena medonho que se alimentava do sal no corpo humano. Além disso, em meio aos personagens principais, havia dois que não eram homens brancos como os outros: uma negra, a oficial de comunicações Uhura (Nichelle Nichols), e um asiático, o tenente Sulu (George Takei). Ambos eram membros da tripulação da nave USS Enterprise, da Frota Estelar.

A partir daí, o catálogo de personagens multiculturais de Star Trek só se expandiu. Havia também um alienígena de orelhas pontudas, o vulcan Spock (Leonard Nimoy, 1931-2015), e um russo – em plena Guerra Fria –, Pavel Chekov (Walter Koenig). Também havia o médico caipira Leonard H. “Magro” McCoy (DeForest Kelley) e o engenheiro escocês Scotty (James Doohan).

Todos estavam em pé de igualdade, habitando o futuro otimista do século 23, no qual a humanidade havia trocado a truculência pela diplomacia e a marginalização de grupos pela diversidade como valor fundamental.

A franquia de Gene Roddenberry (1921-1991) tornou-se, então, um ícone de diversidade.

Star Trek é a primeira série de ficção científica voltada ao público adulto, que vende o gênero como um produto sofisticado para a televisão”, explica o jornalista Salvador Nogueira em entrevista ao HuffPost Brasil. Ele é coautor do livro Jornada nas Estrelas: O Guia da Saga (Editora LeYa/Omelete, 2016), com Susana Alexandria.

“Não só ela teve essa iniciativa que era inédita, como decidiu projetar um futuro em que a humanidade havia sobrevivido e superado suas agruras. É dissonante da ficção científica em geral, que tende a ir para um lado mais distópico.”

star trek

Com estrutura episódica, o que permite aos espectadores assistir à série sem precisar ver capítulos anteriores, Star Trek mostrava as aventuras dos tripulantes da Enterprise em uma missão de cinco anos, indo “onde nenhum homem jamais esteve”, liderados pelo Capitão James T. Kirk (William Shatner).

Seus membros, conta o trekker – apelido carinhoso dado aos seguidores fiéis da franquia –, representam a Terra com todas as suas diversidades, superando dificuldades e construindo um futuro melhor juntos.

Segundo Nogueira, a série retrata de maneira realista como a humanidade resolve problemas “desde que a ciência moderna foi inventada”. Na trama, inclusive, as crenças da sociedade se embasam mais na ciência, assim como os enredos que entretêm até hoje milhões de pessoas, do que em religiões.

Star Trek retrata o uso da ciência como instrumento de desbravamento”, conta.

“Estava muito adiante de seu tempo, colocando mulheres em posição de comando. Estava adiante até das minorias daquela época: quando Rodenberry fez testes de público, houve rejeição entre as próprias mulheres. O mesmo ocorreu com os negros.”

Entre os fãs famosos da série, estão Barack Obama, Martin Luther King Jr. (1929-1968) e Whoopi Goldberg. A atriz considera Uhura uma de suas principais inspirações para a carreira no cinema e na TV.

Em uma célebre fala, ela conta: “Eu tinha nova anos quando Star Trek estreou. Eu vi [a série] e saí gritando pela casa ‘Venham aqui, mamãe, todo mundo, venham rápido! Há uma mulher negra na televisão e ela não é a empregada!’. Eu soube bem ali que eu poderia ser qualquer coisa que eu quisesse”.

Bárbara Prince, editora dos livros da franquia na Aleph, lembra que Nichols e Shatner protagonizaram aquele que é considerado um dos primeiros beijos inter-raciais da TV dos Estados Unidos.

“A representatividade foi evoluindo ao longo do tempo, mas com alguns tropeços no caminho”, conta.

A trekker feminista explica que no seriado Star Trek: Voyager (1995-2001), um dos seis já lançados pela franquia, a personagem Sete de Nove (Jeri Ryan) era um tanto quanto problemática.

“Ela foi colocada na série para aumentar a audiência. A roupa dela era tão colada que a atriz passava mal. Era importante para a audiência, mas colocaram [no enredo] uma mulher muito sexualizada para atrair o público masculino.”

Ryan desmaiou em pleno set de filmagens em duas ocasiões por causa do traje, que dificultava sua circulação de sangue.

O contraditório, aponta a editora, é que logo no primeiro episódio, Voyager passa no Teste de Bechdel (avaliação criada pela quadrinista feminista Alison Bechdel, para verificar em uma obra de ficção se há pelo menos duas personagens mulheres que conversam entre si – e sobre um assunto que não seja homens).

Voyager tinha bastante representatividade feminina”, conta. “A engenheira-chefe da nave era uma mulher.”

Prince relembra outro caso problemático. No filme Star Trek: Nemesis (2002), Deanna Troi (Marina Sirtis), a conselheira do capitão da nave, é vítima de um ataque mental equivalente a um estupro. A mente dela é invadida pelo antagonista Shinzon (Tom Hardy).

“Depois, o capitão diz a Troi que ela não pode se deixar abalar”, diz a editora. Não é oferecida qualquer assistência à personagem – que foi violada em outras duas ocasiões, na série A Nova Geração (1987-1994).

star trek nemesis

Segundo Prince, entretanto, a franquia aprende com os erros. “A gente sempre pode confiar em Star Trek. A série está sempre à frente, antenada com os movimentos sociais”, diz.

Quase 30 anos após estrear na TV, a franquia continuou a dar passos avançados. A quarta temporada de Deep Spice Nine, exibida em 1995, mostra o que é considerado um dos primeiros beijos lésbicos exibidos pela TV. Deep Space Nine foi exibida entre 1993 e 1999.

O mundo é dos trekkers

O jornalista norte-americano Mark A. Altman conta no livro 50 Anos de Jornada nas Estrelas: A História Completa, Não Autorizada e sem Censura – Volume Um (Globo Livros, 2016), escrito com Edward Gross, que Star Trek, em seus melhores momentos, “é uma ópera espacial grandiosa com algo profundo para contar sobre a condição humana”.

Segundo a extensa pesquisa dos especialistas, o impacto cultural da franquia é gigantesco e vai além das exibições na TV. Vários fãs se inspiraram em Star Trek para se tornarem inventores, médicos, engenheiros e showrunners de outras séries de TV.

Os trekkers, inclusive, são parte vital da invenção de Roddenberry. Desde que a série foi mostrada a um público pela primeira vez, na Convenção Mundial de Ficção Científica de 1966, a plateia de 850 pessoas entrou em polvorosa – pediram bis e um segundo episódio foi exibido naquela ocasião.

A paixão dos trekkers é pulsante até hoje, mesmo depois de 13 filmes e centenas de livros, histórias em quadrinhos, video games e revistas mensais.

Vida longa e próspera

De fato, Star Trek continua tão viva quanto nunca. No último dia 1º estreou no Brasil Sem Fronteiras. Dirigido pelo descendente de asiáticos Justin Lin, o filme é o terceiro da retomada iniciada por J.J. Abrams em 2009, com Star Trek, e continuada em 2013, com Além da Escuridão (Abrams permanece como produtor).

Como seus antecessores, Sem Fronteiras é sucesso de crítica. Já arrecadou mais de US$ 290 milhões em bilheterias, e sua sequência já foi anunciada para 2019. O êxito da franquia foi interrompido pelas mortes de Nimoy em 2015 e do intérprete de Chekov, Anton Yelchin, morto em junho deste ano aos 27 anos.

Outro exemplo de como Star Trek segue a todo vapor é uma cena da nova aventura na qual Sulu (John Cho) tem um adorável reencontro com filha e marido – trata-se de uma homenagem a George Takei, ator que deu vida ao personagem na série original. Takei é homossexual e escondeu isso durante muitos anos por receio de que sua orientação sexual pudesse prejudicar sua carreira.

A Netflix anunciou em julho que, ainda neste ano, todos os mais de 700 episódios das seis séries integrarão seu catálogo mundial. No início de 2017, estreia um novo seriado da franquia, Discovery, sob comando de Bryan Fuller (Hannibal) e Alex Kurtzman (Fringe).

Discovery será protagonizada por uma mulher e terá um personagem gay. Também fará parte do catálogo da Netflix – nada mais moderno para a franquia do que estar em uma plataforma de streaming.

Para o jornalista Salvador Nogueira, Star Trek vive um momento de renascença. “A gente está na terceira grande era da franquia”, disse.

“Não está claro se ela está em sua força máxima, mas agora a série está voltando para a TV, um quarto filme foi anunciado. A perspectiva é positiva.”

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