Huffpost Brazil

Seth Cohen, o garoto judeu excêntrico e irreal

Publicado: Atualizado:
Imprimir

“Manic Pixie Dream Girl” é um termo que o crítico de cinema Nathan Rabin cunhou e do qual mais tarde se arrependeu (pode ser traduzido muito aproximadamente como Garota dos Sonhos Excêntrica e Irreal). Manic Pixie Jewish Boy (Garoto Judeu Excêntrico e Irreal) é algo que eu acabei de inventar.

Esse termo apareceu na minha cabeça quando eu estava aplicando batom freneticamente antes de correr ao trabalho para ver Adam Brody dando uma entrevista sobre o programa de TV em que vai aparecer.

Na realidade, porém, eu estava aplicando batom antes de correr ao trabalho para finalmente conhecer Seth Cohen, o adorável nerd de The O.C. e meu namorado judeu esdrúxulo desde que eu tinha 13 anos.

Enquanto eu retocava minha maquiagem, tentando fazer meu rosto ficar o mais parecido possível com o de Leighton Meester, a mulher de Brody na vida real, uma ideia perturbadora passou pela minha cabeça: o que é que eu sei realmente sobre meu namorado Seth Cohen? Sei que ele é judeu. Na realidade, sua mãe é gói, então tecnicamente acho que ele não é judeu, mas ele tem muito de judeu. Bom, passando adiante.

Ele adora o Death Cab for Cutie, The Cramps e várias outras bandas indie do início dos anos 2000. Ele é sarcástico, auto-irônico e obcecado por HQs. Ele é sexy, mas de um jeito nerd – ele nem sabe que sua estrutura óssea o faz parecer um cruzamento entre Bambi e um professor de filosofia bonitão cujas alunas dão em cima dele, apesar de ele se dedicar unicamente aos estudos.

Mas isso tudo são coisas que alguém poderia colocar em seu perfil no Tinder, mostrar num primeiro encontro ou durante um período romântico breve e ilusório em que uma pessoa fascina você completamente sem nunca ficar conhecendo você de verdade e sem que você o conheça de verdade.

Será possível que Seth Cohen não é o cara que eu pensava que conhecia, mas sim um mero invólucro sexy de homem? Um holograma hebraico? Um Manic Pixie Jewish Boy?

Uma Manic Pixie Dream Girl é uma personagem feminina pouco desenvolvida que, ao longo do filme, entra na vida de um sujeito sorumbático, transforma a vida dele por completo com sua excentricidade e alegria de viver e então faz o cara ficar de bem com a vida.

Ela é uma miragem com um penteado bonitinho e um gosto musical muito underground, que adora passar a noite em claro e pular num lago ou rio qualquer, simplesmente porque a vida é cheia de surpresas!

Basicamente, ela não é real. Ela existe unicamente para fazer o personagem masculino percorrer sua trajetória e parecer super bonitinha e despreocupada enquanto isso.

A Manic Pixie Dream Girl é uma figura que aparece sempre na cultura pop porque a maioria dos filmes é escrita por homens, e a maioria dos homens cria retratos superficiais de mulheres, sem se dar ao trabalho de ir mais fundo.

Será que Seth Cohen é o reverso dessa imagem sexista e tão conhecida? Examinemos as evidências.
A primeira vez em que os espectadores se depararam com Seth Cohen foi na primeira manhã de Ryan Atwood em Orange County.

Seth está usando calça de pijama xadrez e uma camiseta desenhada – vintage, com certeza. Está sentado de pernas cruzadas no chão da mansão de seus pais, jogando videogame, como se fosse um garotinho que mal consegue andar, só que bem maior e lindo.

À sua volta se espalham duas caixas de cereal matinal, Fruity Pebbles e Cheerios, além de uma caixa de suco de laranja e outra de limonada. Assim o público fica sabendo que Seth é o tipo de cara que mistura seus cereais e suas bebidas matinais.

Que diferente, que coisa de nicho, que adorável.

Esses tipos de detalhes superficiais revelam que ele não é como outros garotos, que ele é o equivalente masculino a uma garota que come junk food sem pensar duas vezes – supondo que ela também seja gostosa, é claro.

Próxima cena. Seth leva Ryan para um passeio em seu barco a vela, que ele batizou de “Summer Breeze” em homenagem à garota por quem está apaixonado desde sempre, Summer Roberts, que é popular e insuportável.

Seth fala a Ryan de seu grande sonho de velejar até o Tahiti “para navegar no mar aberto e pegar peixes do lado do barco. No silêncio total, tranquilidade.”

“Você não vai sentir solidão?”, Ryan responde. “Bom, Summer vai estar comigo”, diz Seth.

Quando The O.C. começa, Seth está perdidamente apaixonado por uma mulher que nem sabe que ele existe.

Seus hobbies e interesses não são necessariamente apenas artimanhas para conquistar o afeto dela, mas perdem importância diante da simples possibilidade de Summer olhar em sua direção.

Embora ele atue como coadjuvante de Ryan, o protagonista, a narrativa de Seth sempre gira em torno de Summer.
Enquanto a série avança, Seth e Summer acabam falando. E se paqueram e brigam. E acabam se apaixonando.

Summer cresce com a experiência. Ela inicia o seriado como uma garota adolescente unidimensional, obcecada por festas, popularidade e a barriga tanquinho de endinheirados jogadores de polo aquático – a santíssima trindade da vida em O.C. Sua melhor amiga, Marissa Cooper, segue a mesma linha, mas está claro que o coração dela está em outro lugar, mais profundo.

Mas Summer é apenas sol, bebida e notas de dólar. Até conhecer Seth e aprender a ter compaixão, tolerância, vulnerabilidade. Ela acaba indo à Universidade Brown e virando ativista ambiental. É Summer quem evolui como personagem ao longo da série.

Seth, porém, continua a ser o mesmo Seth de sempre ao longo da história inteira. Adorando HQs. Fazendo piadas. Parecendo gostosinho demais. Você sempre pode contar com ele para citar alguma banda de rock indie ou para criticar sua posição social baixa, enquanto veste um suéter retro justinho.

De vez em quando ele aparece com ideias excêntricas tipo “Chrismukkah” – um cruzamento de Natal com Hanukkah! E fica claro que ele tem bom coração, cheio de amor por sua família, por Ryan e, sobretudo, por Summer.

Mas os aspectos mais complexos de seu interior não são mostrados, e ele permanece como apenas um misto nebuloso de características nerds e descoladas.

Na cena final de Seth, no último episódio de The O.C., ele finalmente se casa com seu amor da vida inteira. Não temos mais notícias dele. Em entrevista que Adam Brody deu à Nylon em 2014, perguntado onde ele imagina que Seth esteja agora, ele respondeu com alguma tristeza:

“Se eu tivesse que palpitar, diria que Seth Cohen está morto”. Talvez seja porque, depois de Seth se casar com Summer, não sobrou mais nada para ele realizar. Ou porque seu personagem foi traçado de modo tão indeterminado que mesmo o ator que lhe infundiu vida não conseguiu visualizar um futuro potencial. Ou talvez Brody estivesse apenas fazendo uma brincadeira, no estilo irônico clássico de Seth Cohen.

Vou amar Seth Cohen para sempre. Seu cabelo perfeito e despenteado, seu corpo desajeitado, o jeito divino que ele pronunciava a letra S. Mas nunca o conheci de verdade.

Numa cultura em que as mulheres são constantemente achatadas e fetichizadas para serem ao mesmo tempo mais que e menos que qualquer ser humano de verdade poderia ser, Seth Cohen é uma raridade: um artifício sexista colocado de ponta-cabeça.

Ele é um homem construído inteiramente de excentricidades, estilos, gestos e lindos olhos castanhos. Parece que todo seu objetivo na vida é ajudar uma mulher a encontrar seu caminho e adorá-la durante esse processo.
Ele é uma fantasia.

ESCLARECIMENTO: Este artigo foi atualizado depois de alguns leitores levantarem a preocupação de que algumas colocações poderiam ser interpretadas como ofensivas. Não foi essa a intenção da autora, ela própria judia. Lamentamos qualquer mal-entendido.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- Sucesso nos anos 2000, série 'The O.C.' chega em outubro à Netflix

- 'Narcos': Netflix anuncia terceira e quarta temporadas para a série (VÍDEO)

- Estes comentários sobre a atriz Mischa Barton é que são realmente um absurdo (FOTOS)

TAMBÉM NO HUFFPOST BRASIL:

Close
11 filmes previstos para 2016 com protagonistas negros
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção