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Morte de Robin Williams é lembrada em texto comovente sobre depressão

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Williams faleceu aos 63 anos em sua casa, na Califórnia, em 11 de agosto de 2014

O lendário ator Robin Williams, que tirou a a própria vida depois de uma longa batalha contra a depressão, foi lembrado em um comovente texto publicado dois anos após sua morte.

O memorial foi escrito por Matt Haig — autor britânico que, entre outros livros, publicou Reasons To Stay Alive (Razões Para Viver, inédito no Brasil, mas publicado em Portugal) — e reflete sobre os “feios” argumentos sobre saúde mental feitos pelas pessoas na sequência do falecimento de Robin Williams.

Com o texto, o escritor quis educar os que sentem raiva pelo fato de que um ator privilegiado e bem-sucedido como Williams tenha se matado.

“O suicídio é um sintoma de uma doença. A doença se chama depressão”, escreveu. “As pessoas morrem de outras doenças, e isso não é chamado de egoísmo.”

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Haig disse que a morte de Williams ainda o “assombra”

O escritor, que estava editando o próprio livro sobre o período de recuperação da depressão e tendências suicidas quando Williams faleceu, fez um apelo para que as pessoas entendam que a doença mental pode afetar qualquer um — independentemente do saldo da conta bancária ou tamanho da casa.

“Acredito que, se pensarmos em qualquer coisa quando pensamos sobre o suicídio de Robin Williams, é que nunca devemos colocar limites para nossa empatia”, escreveu.

“É muito fácil, nesta época altamente tensa e politizada, ver as circunstâncias externas de alguém e presumir que tudo está bem por dentro.”

Leia a íntegra do texto abaixo:

Robin Williams faleceu há dois anos. Ele morreu quando eu estava editando meu livro sobre a recuperação da depressão e tendências suicidas. Acho que muitas pessoas que tiveram depressão ou pensamentos suicidas têm um ou dois suicídios famosos que as assombra. Eu tive três — Sylvia Plath, David Foster Wallace e Robin Williams. Lembro que a internet era um lugar feio no dia seguinte à sua morte.

As pessoas disseram que ele foi egoísta, já que tinha mulher, filhos. As pessoas ficaram irritadas que um homem privilegiado, que se encaixava na definição de qualquer pessoa sobre ser bem-sucedido, pudesse ser tão ingrato ao ponto de tirar a própria vida. Elas estavam, compreensivelmente, chateadas que um homem que poderia ser tão divertido como o alienígena Mork do seriado de TV e em todos seus papéis posteriores, não estava mais lá para diverti-las.

E é difícil. A vida é difícil. E se os palhaços — as pessoas que estão lá para lidar com o processo de existir — acham muito difícil, então qual é a esperança para o resto de nós? Mas é importante lembrar algumas coisas. É importante lembrar que o suicídio é um sintoma de uma doença.

A doença se chama depressão. As pessoas morrem de outras doenças, e isso não é chamado de egoísmo. Além disso, a depressão é uma daquelas doenças que não se importam com seu saldo bancário ou sua casa bacana ou o Oscar que você guarda no banheiro. A depressão não é um filme. Não é sempre ‘sobre’ algo.

É também algo que pode ser invisível. Um depressivo irá, muitas vezes, fingir ser outra coisa. É um tipo de versão psicológica das próteses da Senhora Doubtfire [personagem do filme Uma Babá Quase Perfeita, estrelado por Robin Williams], onde sorrimos e lutamos para manter nossos narizes de borracha metafóricos no lugar.

Acredito que, se pensarmos em qualquer coisa quando pensamos sobre o suicídio de Robin Williams, é que nunca devemos colocar limites para nossa empatia. É muito fácil, nesta época altamente tensa e politizada, ver as circunstâncias externas de alguém e presumir que tudo está bem por dentro.

Que os beneficiários do privilégio não precisam de simpatia porque as coisas estão piores em outros lugares. Não é uma questão de vida ou morte. Supere isso. Há problemas maiores em alto mar. Mas nunca sabemos. Nunca sabemos.

O texto de Haig foi publicado depois de o príncipe Harry ter falado sobre saúde mental, dizendo que não é fraqueza sofrer “desde que você fale sobre isso”.

Harry, o quinto na linha de sucessão ao trono da Inglaterra, disse que se arrepende por não ter falado sobre a morte da mãe, a princesa Diana, em uma campanha para que as pessoas falem sobre seus problemas mentais, lançada em julho deste ano.

Entre as crianças, no entanto, o tratamento para problemas mentais atingiu um ponto crítico no Reino Unido.

Dados de 15 centros de saúde mental, obtidos pela Lei de Liberdade da Informação e publicados pela revista britânica Pulse, revelaram que 6 a cada 10 crianças encaminhadas aos serviços de saúde mental por seus clínicos gerais não receberam tratamento.

A Pulse afirma que a situação dos jovens com problemas mentais parece estar piorando, com o número de encaminhamentos que resultam em tratamento tendo diminuído de 44% do total em 2013 para 39% em 2015.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV - Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é gratuito, sigiloso e não é preciso se identificar. O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar uma base de dados com redes de apoio disponíveis.

LEIA MAIS:

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