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Partido dos Trabalhadores vai usar discurso de perseguição a Lula para se fortalecer

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LULA
REUTERS/Fernando Donasci
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Os dirigentes do Partido dos Trabalhadores vão usar o discurso da espetacularização da denúncia de corrupção e lavagem de dinheiro contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para engrossar o coro do golpe e reinventar a legenda.

A ideia é tentar reverter a notícia negativa da denúncia em mais uma parte do enredo de que o ex-presidente é perseguido e de que há uma crucificação dos PT. A proposta do partido vai ser denunciar o que consideram uma "crônica de uma farsa anunciada”.

Para isso, o ex-presidente vai colocar o pé na estrada. De acordo com petistas ouvidos pelo HuffPost Brasil, já nos próximos dias, Lula vai aproveitar os palanques nos quais participará das eleições municipais para "condenar os ataques que vem sofrendo”.

O principal foco dele será a região Nordeste. Há no partido a avaliação de que os nordestinos “não compraram o impeachment" e "entenderam que a tiraram a ex-presidente Dilma Rousseff não cometeu nenhum crime”.

Nos próximos dias, Lula viaja para Bahia e Pernambuco. Vai fazer campanha para a candidata à Prefeitura de Salvador Alice Portugal (PCdoB) e para o candidato à Prefeitura de Recife, João Paulo (PT).

“No Nordeste, os petistas conseguiram reverter o quadro negativo. Há o entendimento de que a Dilma não cometeu crime e que não há provas concretas que incriminem o ex-presidente Lula. Além disso, as pessoas se lembram das melhorias que o partido promoveu enquanto esteve no poder”, analisa um petista.

Ao HuffPost Brasil, o ex-líder do PT na Câmara, o deputado Paulo Teixeira (SP) corroborou a tese de que a “perseguição” e “condenação do PT”. Para ele, a ação “estúpida” e “sem provas” do Ministério Público Federal exige uma resposta.

“Primeiro, é preciso engajar na luta do Fora, Temer; mas também é necessário defender o ex-presidente Lula e ir para a disputa municipal com muita força. Após as eleições, é essencial um período para oxigenação, para fazer um balanço e construir um programa para um novo ciclo”, explica.

O ex-líder do PT acredita ainda que os movimentos sociais vão se engajar na defesa do ex-presidente e ajudarão na reconstrução do partido. Segundo ele, a sigla está ao integrar movimentos como a Frente Brasil Popular e o Brasil Sem Medo, o partido volta às origens.

Entre as táticas de defesa do ex-presidente, o partido quer que os candidatos a prefeito leiam uma nota de apoio a Lula no programa eleitoral.

Outro petista ouvido pelo HuffPost Brasil ressalta que esse processo de reconstrução do partido já estava em andamento. “O próprio Lula tinha percebido que era preciso e que era uma questão de salvação da legenda”. A foco, então, foi direcionado para a comunicação, com uma “guerra nas ruas e nas redes”.

Há um entendimento na legenda de que é preciso fazer uma mea culpa e uma repactuação com a sociedade.

“Quando eu fui candidato em 2002, o PT era o partido mais querido de 12% do eleitorado brasileiro e o PSDB de 5%. Na minha melhor fase, chegou a 35%. O PSDB não saia de 6%. Hoje, o PT está com 8%, o PSDB com 5% e o PMDB com 2%, 3%. Isso significa que as pessoas se separam da gente porque estão putas com a cagada que a gente fez, mas elas não casaram com ninguém. Elas estão esperando que a gente conserte, limpe a sujeira, para casar com a gente de novo”, disse o ex-presidente em uma reunião no diretório do PT, em São Paulo.

Segundo o petista ouvido pelo HuffPost Brasil, na estratégia de reconquistar o eleitorado, o modo como a denúncia do MPF foi feita ajuda na construção do discurso. O PT vai internacionalizar o debate e puxar pelo desrespeito aos direitos humanos e cerceamento do direito de defesa, com a falta de provas. Um pouco do novo tom foi apresentado na nota de repúdio às denúncias do MPF, na qual diz que o procurador federal Deltan Dallagnol "desrespeita direitos e garantias constitucionais”.

Antecipar eleições internas

Além do apoio formal a Lula, a sigla também decidiu antecipar a troca do comando para maio, em vez de novembro do próximo ano. A ideia é fortalecer a direção da legenda com nomes de peso, como o de ex-ministros. Maior ícone do partido, Lula não deve entrar fazer parte do diretório do partido para não deixar a legenda vulnerável as denúncias contra ele nem parecer incoerente. A estratégia é renovar com nomes novos.

Acusação

Lula foi denunciado por ter recebido R$ 3,7 milhões de propina da OAS. O repasse foi feito por meio de upgrade em imóveis, reforma e decoração de um tríplex, além do armazenamento de bens do ex-presidente pela empreiteira.

Na apresentação da denúncia, o petista foi identificado como “comandante máximo do esquema de corrupção” e "verdadeiro maestro dessa orquestra criminosa", de acordo com o procurador da República Deltan Dallagnol. Ele afirmou ainda que Lula instituiu a propinocracia: uma governabilidade corrompida por meio da distribuição de propina.

A decisão dos procuradores foi embasada nas delações premiadas do ex-deputado do PP Pedro Correa, do ex-diretor de Internacional Nestor Cerveró e do senador cassado Delcídio do Amaral (ex-PT).

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