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Quero seguir o exemplo de Michael Bloomberg em SP, diz Doria

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JOAO DORIA
Aaron Davidson via Getty Images
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Referindo-se apenas como “o João” e deixando de lado os ternos de grife com os quais é comumente visto em eventos sociais, João Doria Junior, candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo, montou uma força tarefa para mudar a imagem de multimilionário que não conhece a periferia. A EXAME.com, deu uma entrevista exclusiva de tênis, após uma manhã de caminhada em Guaianases.

A corrida para conquistar mais votos na periferia ocorre porque é exatamente nesses locais que seus principais adversários se sobressaem e também onde Doria tem a menor taxa de intenções de votos.

Ele diz que, se eleito, vai doar o salário público, seguindo o exemplo de Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York, que recebia um dólar por ano.

Candidato por um partido dividido desde as prévias tucanas, suas principais promessas de campanha envolvem projetos de privatização e parcerias com a iniciativa privada, o que o afasta das massas. Também não deixa claro se vai promover o aumento salarial de professores municipais e funcionários públicos, um ponto delicado em gestões anteriores.

Veja trechos da entrevista com o candidato:

EXAME.com: Já nas prévias dentro do PSDB houve uma divisão no partido. A legenda está rachada? Isso atrapalha a sua campanha?

João Dória: Primeiro, não houve divisão, houve competição. Legítima, aliás. Toda disputa gera acirramento de ânimos. Você vai disputar para ganhar o jogo. O PSDB não está dividido, o PSDB está unido. Infelizmente, teve um ex-governador da cidade de São Paulo, o Alberto Goldman, que ficou tão ressentido quanto o próprio Andrea Matarazzo, só que não teve a capacidade do que fez o Andrea, de sair do partido. Se você não está satisfeito, você não é obrigado a ficar no partido. Você pode sair e ser um crítico do partido.

O que diz sobre a denúncia do ex-governador Alberto Goldman e do também tucano José Aníbal ao Ministério Público Estadual, acusando o senhor de compra de votos nas prévias tucanas?

Não houve nada disso. Nós ganhamos no voto, foi na eleição. Nós ganhamos no primeiro turno e no segundo turno. E a representação que eles fizeram no partido, no diretório municipal, perderam por 54 votos a zero, como vão perder também na promotoria pública e no judiciário. Perderam e, ao invés de reconhecer a derrota como parte do jogo democrático, vem o ressentimento. E, política, eu aprendi com o doutor Ulysses Guimarães, você não faz com o fígado.

O senhor é um empresário, foi apresentador de TV. A sua imagem nunca esteve diretamente ligada ao povão. Acha que isso o atrapalha na campanha, especialmente nas periferias, onde o PT ainda tem uma elevada votação, além da Marta e da Erundina?

Esse cordão vermelho já não existe mais. Ele está bastante fragmentado. Ao contrário, essa minha imagem de alguém que já trabalhou na televisão e já atuou no setor privado vem sendo muito bem recebida pelas pessoas que habitam especialmente a periferia da cidade. São eles que falam: "O João é bem-sucedido. É uma pessoa com estabilidade financeira. Não precisa roubar”. Tem que ir para a periferia. Nós precisamos melhorar primeiro nosso índice de reconhecimento, as pessoas precisam me reconhecer mais. Mas o fato de ser novo muito mais me ajuda do que prejudica.

O senhor é o candidato mais rico na disputa eleitoral pela prefeitura de São Paulo. Está usando recursos próprios para financiar a própria campanha? Se for eleito, vai mesmo doar seu salário? Para quem?

Quero seguir o exemplo do Michael Bloomberg em Nova York, que recebia um dólar por ano e fazia a gestão como um empresário pelo bem da cidade. Como eu sou obrigado a receber o salário de prefeito, eu receberei e doarei para 48 entidades. Na campanha, estamos tendo algumas contribuições que vêm fundamentalmente do Fundo Partidário. Começamos o crowdfunding, que são os recursos através da internet, e vamos fazer os jantares de arrecadação previstos. A diferença que não conseguirmos arrecadar para a campanha, eu vou colocar do meu próprio bolso.

Um dos grandes gargalos da cidade hoje é a mobilidade urbana. As principais críticas à gestão Fernando Haddad (PT) são relacionadas a esse tema também. Quais são os seus planos para essa área?

Vamos corrigir algumas falhas das ciclovias, evitar aquelas sobre calçada e manter as com boa qualidade de mobilidade para os ciclistas. Vamos preservar e ampliar as faixas exclusivas de ônibus. Inclusive utilizá-las com ônibus articulados e biarticulados para transportar um número maior de pessoas. Tem que melhorar essa performance, utilizar mais tecnologia, GPS nos ônibus e conexão através de aplicativos para que as pessoas possam ter mais informações sobre o seu transporte.

Vamos tentar criar também oportunidades de emprego e de atividade empreendedora no bairro onde as pessoas residem, para com isso também diminuir o tempo de mobilidade. As pessoas não precisarão mais atravessar a cidade em busca da sua oportunidade de emprego.

Nas áreas internas, ruas e avenidas, vamos manter as velocidades atuais. Nas Marginais do Tietê e Pinheiros, muda na semana seguinte para as velocidades anteriores, que são de 90Km/h e 70Km/h, conforme estabelece o Código Nacional de Trânsito.

Especialistas afirmam que reduzir a velocidade da via permite um tempo maior de frenagem e, com isso, diminui a quantidade de batidas. As marginais são as vias da cidade que tem o maior número de mortes resultantes de colisões.

Os acidentes não pararam, apenas diminuíram. Não faz sentido você prejudicar a mobilidade urbana das pessoas por essa condição se você pode, com educação e sinalização, manter uma qualidade de trânsito com uma velocidade maior. A maior causa de acidentes é o uso do celular. A prefeitura não fez nenhuma campanha nesse sentido para orientar as pessoas a não usar celular enquanto dirigem. Nós vamos fazer.

A alternativa usada pela atual gestão para diminuir as filas nas creches foi fazer concessões a entidades privadas. Como o senhor analisa esse modelo e qual é seu plano para resolver esse problema?

A terceirização, através das OSS [Organizações Sociais de Saúde], é uma boa medida. A prefeitura descobriu tardiamente que essa é a melhor alternativa. Nós vamos fazer creches menores, com classes de 20 crianças, no limite de 3 classes, para multiplicar e permitir que mais creches sejam conveniadas. Finalmente fazer o horário estendido até as 20h. As creches fecham cedo e prejudicam muito as mães que trabalham e precisam buscar os seus filhos.

O último dado divulgado pela prefeitura, de junho, é que são 103 mil vagas nesse déficit. É possível zerá-lo?

É e a prefeitura já devia ter feito isso. É possível sim agilizar um programa de convênio com as OSS e também com o setor privado, como supermercados, shopping centers e lojas de departamentos, para que possa ter creches. É possível, talvez no prazo máximo de um ano, zerar esse déficit. Vamos também procurar implantar creches nos terminais rodoviários porque facilita o acesso às mães. Eu não defendo que a prefeitura tenha creches porque isso é muito demorado, muito custoso e já mostrou que não é o caminho certo.

Como o senhor vai garantir que, com as concessões, os serviços sejam prestados com qualidade? O modelo de OSS teve problemas na área da saúde, por exemplo.

Tem que ter uma agência regulatória. A prefeitura tem que fazer o que não fez. Ela tem que pagar em dia também. Hoje, a prefeitura sistematicamente atrasa os pagamentos, por vezes até por 100 dias. Isso é um erro de gestão, porque recurso tem ou seria crime fiscal contratar um serviço sem ter dinheiro, já que é previsto no orçamento.

Na sua proposta para o Corujão da Saúde, as pessoas teriam atendimento na rede privada apenas durante a madrugada. No entanto, quem tem plano de saúde também encontra fila nos hospitais privados, especialmente naqueles fora do Centro e a partir das 20h, que é depois que as pessoas saem do trabalho.

Vão ter horários marcados a partir das 20h para que as pessoas possam fazer os seus exames rapidamente para diminuir essa fila que é de mais de 100 mil pessoas. Nos hospitais privados você vai com horário marcado, não vai ter fila. Vai com horário previamente agendado. Os hospitais não vão fazer consulta, eles vão fazer exames.

Mesmo para exames, ainda há filas.

Se há, vão deixar de existir. Só vamos conveniar os hospitais que garantam que não vão haver filas.

Se eleito, o senhor vai administrar uma cidade com R$ 27,5 bilhões de dívidas com o governo federal. A gestão Haddad conseguiu diminuir essa dívida, que era de R$ 74 bilhões. Como o senhor vai fazer para que essa redução do endividamento se traduza em investimento? É possível diminuir ainda mais esse nível de endividamento na próxima gestão?

Claro, é possível renegociar isso com o governo federal. É possível também melhorar a condição fiscal recuperando crédito da prefeitura. A prefeitura tem mais de 90 bilhões de créditos a receber. Entendo que 10% desse volume possam ser recuperados: são 9 bilhões de reais. Um bom entendimento do governo federal e do governo estadual ajudam também a renegociação dessa dívida. Melhorar o ingresso na recuperação desses créditos e diminuir a sonegação também.

Em entrevistas o senhor tem falado muito sobre a privatização de alguns setores da cidade. Esse modelo, implantado no estado de SP pelo PSDB, apresentou problemas. Como o senhor vai garantir que essa privatização seja justa e efetiva? Que tipo de modelo o senhor vai criar?

Vamos usar os exemplos que não deram certo para não repetirmos. Não há dúvida nenhuma que concessões, PPPs e privatizações são necessárias para um Estado mais eficiente. O Brasil precisa entrar no século 21, não pode ficar nessa linha de que tudo é o Estado, de que o Estado é provedor de tudo, que o Estado é a mãe, a gordura que alimenta a população. Não é verdade. O Estado é ineficiente quando ele é gordo. Quando é mais enxuto, é necessariamente mais eficiente e mais focado também em saúde, educação, habitação, segurança, mobilidade urbana e geração de oportunidades e empregos.

Que espaços da cidade seriam privatizados?

O Autódromo de Interlagos será privatizado. Ele não vai mudar a sua finalidade. A privatização vai melhorá-lo e, ao mesmo tempo, pode gerar uma receita de 3,5 bilhões a 5 bilhões de reais para o município. É quase 10% de todo o orçamento da cidade de São Paulo. Os recursos advindos disso vão exclusivamente para saúde e educação, que é onde a população mais espera que o Estado seja eficiente. Vamos fazer o mesmo no Anhembi, que hoje é um espaço ultrapassado, perdendo feiras em larga escala para outros centros mais modernos. [Vamos] modernizá-lo e ali também buscar entre 3,5 bilhões e 4,5 bilhões de reais de recursos que vão ser destinados à saúde e à educação da cidade.

Sobre salários, o prefeito encontrou dificuldades na negociação com professores municipais, por exemplo. Como o senhor vai negociar esse aumento de salários num momento de crise econômica e numa cidade endividada?

Cada dia com a sua agonia. Essa é uma agonia que eu não vou tratar agora. Deixa eu ser prefeito que eu te digo.

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