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Alunos receberam remédios experimentais para comportamento sem autorização

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Um professor de uma escola em que os alunos receberam um fármaco experimental nos anos 1960 sem seu consentimento disse que não fazia ideia de que o teste tivesse sido feito e criticou fortemente o “comportamento inaceitável” de quem autorizou o ensaio.

Documentos encontrados no Arquivo Nacional britânico revelam que, no final dos anos 1960, médicos do Ministério do Interior aprovaram a realização de testes com drogas experimentais em duas escolas.

Um teste com fármacos que envolvia administrar um sedativo a alunas de uma escola próxima a Leeds, na Inglaterra, não foi levado adiante, mas outro experimento, este com meninos da Richmond Hill ApprovedSchool, na região de North Yorkshire (Inglaterra), sim.

A escola só para meninos tinha alunos de 15 anos ou mais em regime de internato. Os alunos mais rebeldes receberam um fármaco anticonvulsivo para verificar se isso controlaria seu comportamento.

Os pais dos alunos não foram consultados sobre o teste com os medicamentos, e a questão do consentimento ficou por conta dos administradores da escola.

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Alunos de um colégio de North Yorkshire receberam um fármaco experimental sem seu consentimento, revelam documentos do Arquivo Nacional britânico.

Robert Hammalera professor na escola na época e disse que não ficou sabendo da realização do teste.

“O que me deixou mais chocado que tudo foi que não se procurou o consentimento dos pais dos alunos e que isso não foi visto como necessário. A meu ver, essa foi uma atitude inaceitável da parte do estabelecimento para o qual eu trabalhava”, ele disse ao programa Radio 4 Today da BBC.

Os alunos dessas escolas geralmente eram enviados a elas pelos tribunais que julgavam infratores menores de idade. Mas eles não estavam encarcerados nas escolas.

As escolas eram financiadas e fiscalizadas pelo Ministério do Interior e administradas por organizações voluntárias.
A ideia foi proposta ao Ministério do Interior em 1967, e o ensaio dos fármacos foi realizado no ano seguinte.

Sir Simon Wessely, presidente da Royal CollegeofPsychiatrists, elogiou o ensaio clínico, que considerou perspicaz, mas questionou por que os responsáveis não pediram consentimento para sua realização.

Ele disse que é difícil julgar pessoas dos anos 1960 segundo a perspectiva de hoje, explicando: “As atitudes mudaram. Em 1967 não existiam comitês de ética em pesquisas que pudessem ser consultados. Eles não existiam. Cinco anos mais tarde, havia 250.

Algo que naquela época era aceitável por margem estreita em cinco anos teria passado a ser inaceitável.”

Um documento do Arquivo Nacional revela que o Dr. JR Hawkings, psiquiatra ligado à escola Richmond Hill, procurou o Ministério do Interior para pedir autorização para realizar um teste de drogas com garotos “impulsivos, explosivos, irritáveis, irrequietos e agressivos”, revelou a BBC.

Não há indicações de que o teste tenha sido discutido com os participantes ou de que tenha sido pedido seu consentimento.

A psiquiatra Pamela Mason, do Ministério do Interior, saudou o plano de Hawkings, e o teste foi realizado em 1968. Os alunos da escola receberam o medicamento anticonvulsivo por seis meses.

Alan Collins, diretor da organização sem fins lucrativos AssociationofChild Abuse Lawyers (associação de advogados que atuam em processos por abuso infantil), disse que, para ele, a ética estava deturpada e que esses menores de idade vulneráveis teriam condições de dar seu consentimento, mas que ninguém os consultou.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.

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