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'Cinema Novo', de Eryk Rocha, é um ode ao cinema brasileiro

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Estrear nacionalmente no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro significa trazer polêmica, fazer protesto e, acima de tudo, esbanjar amor pelo cinema. E assim foi com Cinema Novo, de Eryk Rocha. Premiado em Cannes, com o Olho de Ouro, na categoria melhor documentário, a produção, que resgata a história do movimento cinematográfico brasileiro, ecoa com uma memória que está visceralmente ligada ao Brasil de hoje.

É um documentário político, sobre pessoas, sobre o Brasil.

Iniciado na década de 1960, pré-regime militar, o Cinema Novo é um dos marcos da arte brasileira, focado em produções de baixo custo e mais ligadas à realidade, com um olhar para o subdesenvolvimento do País. Foi um movimento que sofreu com a repressão e a censura da ditadura. Revisitar esse movimento no momento em que o País passa por um impeachment e questionamentos sobre a importância de um ministério exclusivo para a Cultura dá a impressão de que o cotidiano brasileiro mudou pouco.

Os cineastas brasileiros continuam reclamando da falta de salas para exibir o cinema nacional, da falta de investimentos e da aventura de conquistar o público. Mas, principalmente, eles continuam instigando a consciência política, com filmes como Que Horas Ela Volta, de Anna Muylaert, e Aquarius, de Kleber Mendonça.

Não existe alguém mais adequado para dar vida a essa lembrança que Eryk. O diretor é filho do cineasta Glauber Rocha, um dos principais ícones do movimento. Há oito anos, em uma conversa com a equipe do Canal Brasil, o diretor percebeu que não existia uma produção que explorasse a grandeza do movimento do cinema e decidiu elaborar um ensaio-documentário sobre o período. "Decidi ir atrás da História, para saber de onde vim", disse Eryk ao HuffPost Brasil.

Além de Glauber Rocha, Cinema Novo prestigia outros protagonistas do movimento, como Carlos Diegues, Nelson Pereira do Santos, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra, Walter Lima Jr. e Paulo César Saraceni.

Em uma das cenas de Cinema Novo, Glauber Rocha é lembrado por dizer que as “coisas são cíclicas, estão sempre em movimento. Quando você consegue uma vitória tem que começar novamente, porque tudo está sempre mudando. Não se pode deitar na vitória”. Ao HuffPost Brasil, Eryk definiu o longa como um “encontro entre gerações”.

"É muito emocionante estrear este filme em Brasília. O longa é fruto de um diálogo entre gerações, desse entendimento da memória não como uma coisa do passado, hermética, ou cristalizada, idealizada, mas a memória como uma construção de futuro... Eu acho que essa geração do cinema novo tinha uma grande paixão pelo Brasil e pelo cinema.

É uma geração, também, que vivenciou um golpe militar e todos os desdobramentos trágicos de uma ditadura militar no Brasil e a gente, infelizmente, tragicamente, está vivendo esse momento no Brasil, um novo golpe, eu como cidadão, fico indignado com isso. Acho que o filme dialoga nesse sentido visceralmente com o Brasil contemporâneo.”

Festival

O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é tradicionalmente conhecido pela curadoria política. Na abertura do evento, ao apresentar o filme, Eryk Rocha puxou um protesto na plateia contra o presidente Michel Temer, ao iniciar seu discurso com “eternamente, Fora, Temer”. Imediatamente, o público se engajou na manifestação.

O festival aproveita que está sediado na capital do poder e traz a mostra paralela “A política no mundo e o mundo da política”, com cinco filmes, divididos entre documentários e ficções sobre os bastidores do mundo da política. A intenção de mostrar que de um jeito ou de outro a política e o cotidiano do brasileiro se misturam.

Ao HuffPost Brasil, a atriz Camila Márdila, uma das juradas do festival, destacou que o interesse desta edição é a experimentação de linguagem, com diretores de vários lugares do País e filmes que se propõem a ir além da curva.

Consulte a programação da mostra competitiva aqui

Consulte a programação da mostra 'A política no mundo e o mundo da política' aqui

Cinema Novo

O documentário desconstrói o didatismo, ele é um garimpo entre cenas de filmes do Cinema Novo, algumas raras, e entrevistas. No próximo dia 3 de novembro, Cinema Novo estreia nos cinemas brasileiros. Duração: 90 minutos. Distribuição: Vitrine Filmes.

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