Huffpost Brazil
Edgar Maciel Headshot
Ana Beatriz Rosa Headshot

'Já levei três tiros de bala de borracha da PM', diz Major Olimpio sobre violência policial nas manifestações

Publicado: Atualizado:
Imprimir

O candidato Major Olimpio, do partido Solidariedade, foi o terceiro entrevistado do HuffPost Brasil na sabatina com os candidatos à Prefeitura de São Paulo. Em uma conversa de 40 minutos, com a participação dos eleitores, o candidato defendeu principalmente suas propostas de segurança e a atuação da Polícia Militar de São Paulo nas manifestações contra o governo de Michel Temer.

Nas última semanas, a maioria de protestos — mesmo pacíficos — acabou em conflito entre PMs e manifestantes. No dia 31 de agosto, por exemplo, a estudante Deborah Fabri foi atingida por um estilhaço de bomba no olho e perdeu a visão.

"A polícia tem que se posicionar para inibir ações criminosas nas manifestações. Se você me falar que há um exagero pontual do uso da força, eu concordo", disse o candidato. "Acredito que os confrontos são isolados e não maioria", argumentou. Ele promete que, se eleito, a Guarda Civil Metropolitana também adotará a "tolerância zero" contra criminosos.

Major Olimpio, no entanto, lembrou que foi vítima da violência policial em 2008, quando José Serra era governador de São Paulo. Ele participou de um protesto de policiais civis em frente ao Palácio dos Bandeirantes, onde morava o então governador. "Naquele dia, o Serra mandou a Polícia Militar dispersar o protesto. Acabei levando três tiros de bala de borracha. Eu tenho marcas nas pernas", conta.

Apesar de ter sido atingido, o candidato do Solidariedade continua defendendo o uso do armamento pela PM. "Bala de borracha é para proteger o maior número de pessoas possíveis. Tem policial que extravasa a lei? Tem, mas é minoria", afirma.

Leia os destaques da entrevista:

'Classe política é uma vergonha'

Major Olimpio ficou conhecido nacionalmente após seus gritos de "vergonha" durante a posse, que não vigorou, do ex-presidente Lula como ministro da ex-presidente Dilma Rousseff. Ele também faz duras críticas à própria classe política. "Hoje a população reprova a classe política. Você vai as ruas e as pessoa tem a ideia de que política é tudo igual, farinha do mesmo saco", argumenta.

Porém, o principal financiador de sua campanha, Paulinho da Força, presidente nacional do Solidariedade, também responde a processos de improbidade, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Questionado se não seria incoerente repudiar um réu e ser o protegido por outro, o candidato respondeu:

"Eu não sou o protegido do Paulinho da Força, ele é o presidente nacional do partido e eu o respeito. Desde o momento que eu vim para o Solidariedade, ficou absolutamente clara a minha independência de voto e opinião. Eu continuo afirmando uma vergonha que continuamos passando com a nossa classe política do País, que não acabou simplesmente porque foi tirado uma presidente que não cumpriu os seus propósitos com a nação ou porque um ex-presidente será brevemente condenado e encarcerado pelos crimes que cometeu, mas é uma vergonha como todo."

Ainda, o candidato chamou de "vergonha nacional" a tentativa de votação do projeto de lei para anistiar o caixa dois que movimentou a Câmara dos Deputados nesta semana.

"Segunda-feira eu estive na Câmara Federal e assisti e verbalizei mais uma vez a vergonha nacional. Foi a tentativa de se votar um projeto anistiando caixa dois até esse instante, para quebrar o galho de todos os políticos que puseram dinheiro de caixa dois em campanha até então e já em orquestra com o Senado, para o Renan pautar lá e resolver tudo. Eu fui uma das pessoas que se insurgiu e disse 'Isso é uma vergonha mesmo'."

Major Olimpio votou a favor da cassação de Eduardo Cunha, indo contra o voto do presidente do partido Solidariedade. "A incoerência não é minha, eu votei de acordo com o que o brasileiro estava querendo naquele momento", afirmou.

Porém, para ele, o problema não é fazer parte de um partido liderado por um político que tem processos judiciais ou é favorável o Cunha. De acordo com ele, os 35 partidos nacionais são uma "vergonha" e ele escolheu o Solidariedade pois manteve sua liberdade de voto e expressão:

"Nós temos 35 partidos hoje. Em todos, você vai ter pessoas que estão sendo investigadas. Eu tive mais de 10 convites de partidos políticos agora para eu ingressar. Mas quem me deu a liberdade de expressão e de voto que é sagrado hoje para quem se coloca na vida pública foi o Paulinho da Força e o Solidariedade. Nos 35 partidos você vai ter perfis de pessoas de toda ordem. Pega o PMDB, por exemplo, o partido do presidente, tem um milhão de acusações em cima de Renan, Cunha, o próprio Temer. O PT eu não vou nem falar. Depois vem o PP, o partido que mais recebeu dinheiro no petrolão. Eu preciso estar em uma agremiação política e naquele momento quem me deu liberdade de voto foi o Solidariedade."

LGBT

O candidato afirmou que deve manter os programas existentes contra a LGBTfobia.

"Não tenho nenhum preconceito, senão eu estaria infringindo o artigo da Constituição que fala da igualdade de tratamento entre as pessoas. A prefeitura hoje tem o programa TransCidadania e nós não temos nenhuma intenção de acabar com isso."

Legalização do aborto

Questionado por um leitor, Major Olimpio disse ser contra o aborto, a não ser nas exceções previstas em lei, como é o caso de estupros e fetos anencéfalos.

"Sou contrário por concepções que eu trago religiosa e de posicionamento. O Estado é laico, mas laico não é ser sem religião, é permitir todas as religiões. Eu sou cristão e tenho a concepção de que a legalização do aborto iria ferir a ideia de defesa da vida. O poder público precisa fiscalizar e punir as clínicas de aborto. Milhares de coitadas vão a esses açougues humanos e o poder público, a polícia, nunca sabem onde eles estão. Se você fiscalizar e incentivar a educação das pessoas para as medidas contraceptivas, você vai reduzir os riscos da mulher."

Sobre o direito da mulher de decidir sobre o próprio corpo, o candidato foi taxativo: "Ela é a responsável pelo corpo dela. Ela não tem o direito de resolver sobre a questão de vida ou morte de um ser que a legislação entende que é vida humana".

Casamento Gay

Major Olimpio se diz um legalista e, portanto, defensor da união homoafetiva. Para ele, a sociedade precisa acabar com o preconceito.

"A união homoafetiva, a lei já reconheceu. Eu tenho casais de amigos que se casaram e eles já choraram para mim e para a minha esposa quando falaram que estavam na fila de adoção há 5 anos. Há um preconceito grande por parte da Justiça que coloca todos os obstáculos do mundo para impedir que se concretize o que a própria lei já garante. Sou legalista. Nós temos que acabar com o preconceito da sociedade como um todo e respeitar o conteúdo da lei."

Legalização da maconha

Policial durante 29 anos em São Paulo, Olimpio é completamente contra a legalização das drogas. De acordo com ele, a medida apenas beneficiaria o traficante, que deve ser enfrentado.

"Eu sou contra [legalizar]. Fui policial nas ruas de SP por 29 anos e eu acompanhei muitos casos de destruição de vida, da capacidade de discernimento causado pelas drogas. A legalização da maconha ou de qualquer droga seria a legalização do comércio da morte. Como é que nós faríamos em nosso país? Nós iriamos criar uma agência reguladora, a 'Drogasbrás'? Ela ia verificar a qualidade, a pureza, a defesa do consumidor? Eu vou as regiões da cracolândia e o meu enfrentamento frequente com os traficantes é porque eles são os comerciantes da morte. Você legalizar isso para a sociedade sob o argumento de que vai diminuir o enfrentamento com a polícia é você facultar a vida de jovens e de família simplesmente para dizer que não vai ter enfrentamento com as forças de segurança. O grande desafio da nossa sociedade é que nós vamos disputar cada criança com os traficantes. [...] Não vejo nenhum interesse que possa existir hoje pela legalização das drogas a não ser o favorecimento dos traficantes."

Guerra às Drogas

Mesmo que a guerra às drogas, como é conhecida a estratégia policial de enfrentamento ao tráfico, seja considerada falida por entidades internacionais e por especialistas, para o candidato a política continua sendo eficiente:

"O enfrentamento não é contra o usuário, muito embora o uso seja crime no Brasil. Nós fizemos um juramento na Polícia Militar e se eu tiver que morrer daqui há cinco minutos enfrentando o traficante, eu não vou me afastar da situação. É o nosso desafio. E esse é o pensamento de milhares e milhares de policiais. Aquele que conhece a tragédia das drogas não aceita essa rendição da sociedade diante do traficante. Traficante é para ser enfrentado. E não é uma política falida. Os EUA investem e até ajudam outros países porque não quer que a droga chegue para o jovem americano. Porque o traficante não tem limite, ele seduz de todas as formas. E a gente precisa da lei, da justiça e da policia do lado da sociedade, não do traficante."

Cracolândia

O programa Braços Abertos da atual gestão da prefeitura de Fernando Haddad é entendido pelo candidato Major Olímpio como um acordo entre o poder público e os traficantes. Ele reconhece as ações que beneficiam os usuários quando se trata da geração de empregos e do apoio do sistema de saúde, porém, de acordo com ele, a região do programa se tornou um "entreposto" do tráfico.

"Durante oito anos como deputado eu fiz parte da frente de enfrentamento do crack. Os programas realizados em nosso país ainda são bastante incipientes. O Braços Abertos acabou se posicionando como de braços abertos aos traficantes. Nós vamos manter a parte do programa que cuida da assistência social, da geração de emprego e renda, a assessoria da saúde. Mas nada disso vai funcionar se tiver o traficante agindo a céu aberto. Há três anos quando começaram as operações nos hotéis e cortiços eu entrei com a denúncia de que os espaços funcionavam como entrepostos dos traficantes. No ano passado eu pedi o impeachment do prefeito, porque eles disseram que fizeram um acordo na cracolândia. Não se faz acordo com bandido. O poder público tem que se posicionar com um programa que vete o comércio da morte para aqueles coitados."

Assista às outras sabatinas realizadas pelo Huffington Post Brasil:

João Doria (PSDB)

Fernando Haddad (PT)

Também no HuffPost Brasil

Close
Campanha de SP a todo vapor
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção