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'Cartas de Recuperação' leva esperança a pessoas com depressão

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depressed black people

Quando você está passando pelos momentos mais sombrios da depressão, é difícil imaginar que algum dia vai voltar a se sentir feliz.

Mas um projeto comovente está levando pessoas que sobreviveram a esses sentimentos a dizer a outras pessoas que “as coisas vão melhorar”.

Intitulado Cartas de Recuperação, o projeto leva pessoas que estão se recuperando da depressão a ajudar outras que sofrem da doença no momento e que podem estar pensando em suicídio.

As cartas são cheias de relatos pessoais e palavras comoventes de apoio, tipo “você não é uma pessoa má nem antipática, apenas alguém que está doente. Estou segurando sua mão e vou caminhar com você.”

O projeto foi iniciado por James Withey. Ele teve a ideia em 2011, quando estava passando alguns dias no Maytree, num “santuário para pessoas com pensamentos suicidas”, situado em Londres.

Withey desenvolveu Cartas de Recuperação alguns meses mais tarde, depois de ficar internado num hospital psiquiátrico.

“Durante boa parte do tempo em que eu estava recebendo atendimento de crise, ninguém me disse que era possível recuperar-se da depressão. Para mim, parecia impossível me recuperar algum dia”, ele disse ao Huffington Post Reino Unido.

“As pessoas sugeriam que eu lesse livros grossos de autoajuda sobre depressão, mas eu não conseguia ler uma sentença sequer. O que eu queria era ler que a recuperação era possível, e que isso fosse escrito por pessoas que já tinham passado por aquilo que eu estava sofrendo.”

Hoje Withey posta depoimentos de sobreviventes no site “The Recovery Letters”, que recebe mais de 60 mil visitas por ano de pessoas de todo o mundo.

Todas as cartas podem ser enviadas e acessadas gratuitamente, pois o objetivo é ajudar o maior número possível de pessoas.

“A intenção é tentar aliviar o profundo sentimento de desesperança que acompanha a depressão”, Withey explica.

“A depressão diz à pessoa que ela nunca vai melhorar, nunca vai voltar a sorrir, nunca vai sentir que a vida tem sentido. E eu queria um antídoto às mentiras que a depressão nos conta. As cartas são pequenas injeções de esperança.”

james withey
James Withey.

Withey quer que as cartas enviadas a “The Recovery Letters” sejam incluídas em um livro que deve sair em 2017 pela Jessica Kingsley Publishers.

Ele descreve como “incrível e tremenda” a reação que vem recebendo às cartas e diz que frequentemente recebe e-mails de pessoas às quais o projeto ajudou.

“As pessoas dizem que as cartas as ajudaram a sobreviver à noite. É surpreendente”, ele fala.
Leia duas das cartas abaixo ou vá ao site The Recovery Letters para ver outras cartas.

Querido Você,

No atoleiro escuro que é esta doença, talvez a impressão que você tenha é que nunca mais vai voltar a se sentir bem. Talvez você sinta vontade de acabar com sua vida, de se automutilar ou simplesmente deixar de sentir a dor insuportável daquilo que causou tudo isto, seja o que for. Parece impossível que você algum dia volte a se sentir normal, se sentir como você se sentia antes, dar risada ou não pensar na dor.

A solidão que esta doença impõe é tremendamente cruel; às vezes parece que ninguém entende realmente como ela é horrível. Se bem que nenhuma outra pessoa possa acompanhar completamente seus sentimentos e emoções, muitas outras pessoas já se sentiram nas trevas, como você, e conseguiram sair disso e voltar a viver uma vida plena. É possível melhorar.

Com paciência, cuidado, repouso e amor, você vai melhorar. Seu corpo está lhe mandando parar, descer do cavalo e passar um tempinho sentado no estábulo.

Procure ajuda, exija ajuda. Você é importante, mesmo que não sinta que é. Lembre-se que há gente que gosta de você e quer você por perto, pessoas que o amam e querem que você viva. Com a depressão, a esperança é um artigo em falta, mas é justamente o que precisamos quando não estamos bem. Torço para você continuar a viver, torço para você se recuperar.
James

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Querido Você,

Meu nome é Jon. Sou marceneiro, tenho mulher e dois filhos pequenos.
Dois anos atrás eu tive depressão. Não sei quanto tempo durou, acho que foram dois anos, mas no último ano pelo menos eu pensava constantemente em me matar (pensava nisso quase o tempo todo, todos os dias.)

Fiquei tão craque em esconder minha depressão e “dar um jeito” que eu brincava com meus filhos ao mesmo tempo em que tinha diante de meus olhos uma imagem de mim mesmo enforcado.

Só agora é que eu me dou conta de como estava doente. A recuperação levou um tempo, e boa parte do tempo parecia ser um esforço enorme. Às vezes (enquanto eu estava me recuperando), até me sentir um pouco mais feliz era difícil de aguentar.

Hoje, dois anos mais tarde, já não me lembro muito da depressão – ela simplesmente foi embora. Todas as noites olho para meus filhos e me sinto abençoado pelas horas que passo com eles. Voltei a sentir prazer no meu trabalho e com minha parceira, e raramente passo um dia sem compartilhar uma risada com alguém. É tudo muito diferente.

Me lembro de pensar, quando estava com depressão, “por que é que ninguém enxerga quanto estou sofrendo?”. Mas as pessoas não conseguem ver, infelizmente. Você precisa falar a elas, mesmo que a única pessoa para quem fale é seu médico ou a organização Samaritans.

Eu fui ao clínico geral primeiro, e ele me arrumou um lugar em um grupo de TCC (terapia cognitivo-comportamental). Achei difícil encarar, então me receitaram TCC individual e antidepressivos. As duas coisas funcionaram muito bem para mim.

Acabo de ler o livro “Stop Thinking and Star Living”, de Richard Carlson. Estou 100% convencido do valor de sua abordagem à depressão; o “tratamento” que ele propõe dá a impressão de ser enganação ou uma recomendação superficial, mas funcionou de verdade para mim. Se você entende os princípios por trás da TCC, acho que o enfoque de

Carlson pode funcionar muito bem para você.

O mais importante é que esse enfoque exige apenas uma parte minúscula do esforço e dedicação demandado pela TCC. Acho que eu não estava com depressão tão grave quando li o livro, mas acredito que qualquer pessoa possa compreender e absorver a mensagem central do livro, independentemente de como a pessoa está.

Ainda estou tomando antidepressivos, e no ano passado fiz um curso de TCC em grupo, a título de reforço. Algum dia talvez eu deixe de tomar os antidepressivos, mas, aqui e agora, estou feliz.

Estou feliz de estar escrevendo a você, estou feliz de estar pensando em você e lhe enviando meu carinho.

Você não é uma pessoa má nem antipática, apenas alguém que está doente. Estou segurando sua mão, vou caminhar com você.

Com sinceridade,
Jon Wild

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Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost UK e traduzido do inglês.

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV - Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é gratuito, sigiloso e não é preciso se identificar. O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar uma base de dados com redes de apoio disponíveis. O HuffPost Brasil possui também uma série de reportagens sobre a prevenção do suicídio e a importância de se falar a respeito.

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