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'Sofri preconceito por ser mulher, nordestina, de esquerda e pobre. Só faltou ser negra', diz Erundina na sabatina do HuffPost Brasil

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A candidata Luiza Erundina, do PSOL, foi a quarta entrevistada do HuffPost Brasil na sabatina de entrevistas para a prefeitura de São Paulo. Durante 40 minutos, ela respondeu perguntas, com a participação dos eleitores.

Candidata mais idosa na disputa pela prefeitura, aos 82 anos, Erundina destacou o preconceito que tem sofrido por ser considerada velha demais para ocupar o cargo. "Já sofri preconceito por ser mulher, nordestina, de esquerda e pobre", disse. "Só faltou eu ser negra", complementou.

Com apenas dez segundos no horário eleitoral da TV e a falta de grandes recursos para a campanha, Luiza Erundina tem abusado da criatividade durante a campanha. Durante as inserções, já usou a figura de Usain Bolt e John Travolta em suas propagandas. Uma tentativa de se conectar ao voto jovem. "Ninguém entende mais de preconceito do que e não me senti vítima por isso não. Pelo contrário, meu deu ânimo. Hoje tenho mais um peso por ser idosa, que é mais um preconceito que enfrento", diz.

Erundina também foi questionada sobre quais serão suas políticas para a comunidade LGBT, que sofre constantemente com crimes de ódio e preconceito. A candidata afirmou que pretende investir no combate à homofobia nas escolas. "Temos que educar as crianças contra a intolerância. Precisamos enfrentar a questão de gênero que está sendo covardemente retirada dos planos de educação. É uma ignorância que chega a dar dó", afirma.

Veja os principais momentos da sabatina:

Impeachment x Golpe e o apoio da população

A candidata usa com frequência os termos "direita conservadora" e "golpista". Questionada sobre o discurso e como ela pretende dialogar com a parcela da população que apoiou o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, Erundina argumenta que o que está em jogo é a "disputa de poder".

"Existe uma grande maioria que ainda hoje declara o 'Fora Temer' e está insatisfeito com esse governo ilegítimo, sobretudo a juventude. O próprio governo tem primado para dar reforço àqueles que reagem ao golpe e a um governo sem nenhuma legitimidade porque não passou pelo crivo das ruas. Eu não estuo fazendo calculo eleitoral. Para um partido como o PSOL, eleição é um episódio, é um evento importante. Mas a política é anterior, durante e após uma eleição. Nós não podemos descolar a discussão da disputa de poder numa cidade como São Paulo sem levar em consideração o contexto nacional. Até porque essa cidade tem responsabilidade por aquilo que está acontecendo no país. Tem que ter uma liderança política, seja o prefeito ou o governador do estado, que lamentavelmente não tem exercido a liderança política e institucional que eles têm, para ajudar o país a sair dessa profunda crise multifacetada que está comprometendo inclusive a qualidade de vida e as conquistas preciosas do povo brasileiro."

Nas pesquisas eleitorais, a candidata permanece na margem dos 10% das intenções de voto. Caso eleita, ela afirma que terá apoio da sociedade após a implementação de suas políticas.

"Quando eu fui eleita pela primeira vez, eu fui eleita por 30% do eleitorado. Então eu tinha 70% contra mim. Foi o desempenho do nosso governo que me fez ganhar a maioria do povo de São Paulo para governar, inclusive, com minoria na câmara. Eu governei durante quatro anos com minoria na Câmara porque eu tenho o apoio da sociedade civil organizada que entendia o mérito das minhas políticas na época e fez com que eu deixasse um legado que eu tenho muito orgulho. E é por isso que hoje as condições me colocam na possibilidade de disputar novamente, ir pro segundo turno e ganhar de novo a prefeitura dessa cidade."

PT, PSB, PSOL e Raiz

Durante sua trajetória política, Luiza Erundina já foi filiada no PT, no PSB, agora no PSOL e está envolvida com o projeto de partido Raiz - Movimento Cidadanista. Questionada sobre sua fidelidade aos projetos partidários, a candidata afirma que a sua "coerência" prevalece em detrimento de qualquer agremiação política.

"Uma das marcas da minha formação política é a coerência, mesmo que ela me custe resultados eleitorais. O PSB tem sido um partido que as coligações vão de A a Z no espectro partidário. O Partido dos Trabalhadores a mesma coisa. Eu optei pelo PSOL porque já estava votando com o PSOL na Câmara. Muito antes disso nós estávamos ensaiando uma experiência de organização partidária como está ocorrendo na Europa com o SYRIZA da Grécia e o PODEMOS da Espanha. Está emergindo no mundo todo novas propostas de organização partidária. E eu junto com os jovens e outros companheiros de nosso campo estávamos construindo um caminho do movimento que pode vir a se tornar um partido político. Quando o PSOL me convidou para a filiação, eu disse a eles que eu estava junto com outras pessoas construindo outras vias partidárias. Eles disseram que isso não tinha importância. Portanto, é um acordo e o PSOL concordou com ele. Eu ainda entendo que há espaço para uma outra proposta política, com outra estrutura de partido, com ideias vinculadas ao ecossocialismo, inspirada na civilização e cultura brasileira do ubuntu dos negros, do teko porã dos índios, então é uma nova proposta que ao mesmo tempo que é partido e é também movimento. Eu to interessada nisso, estou ajudando a construir isso em pleno acordo com o PSOL."

Poucos recursos

Com a crise nacional, as administrações públicas sofrem com os repasses do governo federal. Luiza Erundina acredita que poderá dinamizar o caixa da prefeitura com outras propostas de arrecadação, como o cálculo das dívidas públicas.

"Nós estamos lutando contra essa PEC 241 que corta recurso em saúde e educação, que congela o salário do servidor público. Olha que governo nós temos. Sei que vou enfrentar dificuldades financeira, mas a cidade de São Paulo é muito poderosa economicamente. Tem o orçamento este ano de 54 bilhões. É previsto para 2017 uma perda de 4 bilhões. Mas eu tenho outras fontes para reforçar o caixa da prefeitura que é cobrar a dívida ativa de 66 bilhões. Eu pretendo resgatar no mínimo 5% ano a ano dessa dívida que vai dar 12 bilhões durante o governo. Outra iniciativa é que vamos questionar a dívida pública. Paga-se muitos juros, muitos encargos na dívida com o governo federal. Nós vamos questionar com o STF o valor dos juros compostos desses repasses. Queremos o mesmo acordo que foi feito com os governos estaduais para que possamos pagar juros simples e isso reduzirá e muito o valor da transferência. Ainda, vamos conter a sonegação, aperfeiçoar os mecanismos de fiscalização e controle. Queremos transparência absoluta nos contratos e nas licitações, aos gastos e a receita que a prefeitura tem. Vamos criar atividades produtivas na cidade com o incentivo ao microcrédito e a microeconomia. Já fiz em meu governos as empresas comunitárias que gera emprego e renda, além de qualificar a mão de obra da massa desempregada. Eu sei fazer isso e vou fazer de novo."

Reforma Urbana e IPTU progressivo

São Paulo tem enorme déficit de habitações populares. Marca de sua primeira gestão, os mutirões nas comunidades para a construção das casas devem retornar como política pública caso eleita. Ainda, Erundina aposta na tributação progressiva dos terrenos e imóveis ociosos como forma de democratizar as terras da cidade.

"A construção nos mutirões resultam em casas decentes. São projetos que resultaram de concurso público de arquitetos do Brasil. São modernos, seguros e bem construídos com estética. Mutirão reduz em 40% os custos da construção. Nós construímos cerca de 40 mil habitações. Ficou um saldo de experiência, de pessoas formadas profissionalmente, comunidades bem integradas que ainda hoje tem orgulho de sua moradia e sua convivência. Vamos investir nisso e no banco de terras. A terra ainda é muito apropriada indevidamente pela especulação imobiliária. Vamos formar um banco de terra para que os espaços sejam disponibilizados para moradias, equipamentos de saúde, de educação. É investir no social."

E continuou:

"Precisamos desapropriar os imoveis vazios e que não são utilizados, como fizemos na Zona Leste. Jardim da Conquista foi fruto da desapropriação de área. O banco de terras vai ajudar na questão da moradia, mas sem a pretensão de zerar esse déficit. O problema da moradia é um problema da migração. Não se fez a divisão das terras no campo e não se fez a reforma urbana nas cidades. Ainda há muitos imóveis ociosos e é legitimo quem está debaixo das pontes poder acessar um espaço na cidade. É um problema estrutural que passa pela reforma agrária, pela reforma urbana e pela democratização da terra nas cidades. Tem legislação que já defende isso e é preciso aplicar essas regras mais modernas, como o Estatuto da Cidade para enfrentar os problemas urbanos. Aumentar o IPTU para os proprietários de terras ociosas de modo geral, seja o grande ou o micro empreiteiro. É preciso democratizar a terra em uma cidade tão adensada quanto São Paulo onde os limites e as fronteiras não existem formalmente."

Tarifa Zero aos finais de semana

A política do passe livre no transporte público municipal marcou a gestão da prefeitura de Erundina em 89. O projeto, no entanto, não recebeu apoio político necessário para ser implementado. Anos depois, em 2013, o tema virou pauta cativa de movimentos sociais como o Passe Livre que tomaram as ruas do país contra o aumento da tarifa em 2013. Erundina defende que o sistema seja testado na cidade aos poucos, começando pelas experiências de um transporte sem catracas aos finais de semana,

"A proposta tem tanto mérito que o Movimento Passe Livre nasceu dela. Nós vamos progressivamente implantando na cidade, começando pelos finais de semana.Por exemplo o domingo, em que as pessoas possam se locomover na cidade sem onerar o seu orçamento já apertado. Vamos fazer também a tarifa zero dentro dos bairros, não entre os bairros. Ao longo dos quatro anos vamos discutindo com a cidade e expandindo, quem sabe. A fonte seria do IPTU progressivo e proporcional, que é o imposto direto e justo. As pessoas são insensíveis, elas não percebem que a solidariedade vai beneficiar a todos. Nosso governo é um governo que vai dialogar com os ricos e com os pobres, vai colocá-los frente a frente para que seja discutido o que é melhor para todos. Nós queremos uma cidade das pessoas. Por isso queremos a justiça fiscal para se fazer a justiça social."

OSS e Parcerias Público-Privadas

A candidata não hesitou em criticar os projetos de privatização do candidato João Doria (PSDB). Questionada se iria acabar com as OSS (Organizações Sociais de Saúde) da cidade, ela explicou que o dever político é do Estado diante dos direitos sociais, por isso "as terceirizações não devem ser generalizadas".

"Não vou acabar com as OSS. Vamos congelar os convênios. Não vamos terceirizar os serviços. 65% do orçamento da secretária municipal de saúde é administrada pela OSS. O poder público é responsável pela prestação direta das politicas de saúde. Não vamos acabar com as OSS, elas vão se manter no mesmo nível de participação que tem hoje, só não vamos expandi-las."

Assista a outras sabatinas realizadas pelo Huffington Post Brasil:

João Doria (PSDB)

Fernando Haddad (PT)

Major Olimpio (Solidariedade)

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