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Para mulheres, ler Agatha Christie é tão relaxante quanto ouvir canções de ninar

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“Se você pudesse pedir um crime, assim como alguém faz o pedido de um jantar”, pergunta o detetive Hercule Poirot, em Os Crimes ABC, de Agatha Christie, “o que você escolheria?”.

“Deixe-me ver”, diz seu colega, o capitão Arthur Hastings. “Vamos ver o cardápio. Roubo? Falsificação? Não, acho que não. Muito vegetariano. Precisa ser assassinato — assassinato sangrento. Com guarnições, claro.”

Esse tom — refinado, espirituoso e um pouco sanguinário — caracteriza os 66 romances policiais e de mistério de Agatha Christie, publicados entre 1920 e 1976. O mundo da escrita de Agatha existe em uma espécie de bolha de contos de fada britânica — pressupondo, é claro, que seus contos de fada incluam múltiplos homicídios.

Os cenários de suas histórias são limitados aos bairros de classe média e alta e, frequentemente, ainda mais demarcados — ocorrendo em um trem, uma ilha deserta ou em uma casa de veraneio.

Os assassinatos ocorrem nesses lugares de forma rápida e na surdina; não sendo uma grande fã de derramamento de sangue, Agatha se assegurava de que a carnificina fosse mínima. Veneno — o mais discretos dos assassinos — era a solução ideal escolhida por ela, um bom escorregão, em ocasiões especiais, realmente estragaria o carpete.

A Rainha do Mistério podia escolher seus crimes como alguém que seleciona uma refeição saborosa e, claramente, ela tinha uma preferência.

A proporção de mulheres vítimas de homens nos romances de Agatha Christie é de aproximadamente duas para um. Na vida real, homens são mais propensos a ser vítimas de homicídios do que mulheres. Ainda assim, as mulheres são mais comumente retratadas como vítimas na literatura, filmes, arte, mídia e, portanto, na imaginação.

Embora o exagero de vítimas femininas não reflita a vida real, o medo retumbante que resulta disso é real. E, para as mulheres, isso fica marcado.

Não surpreendente muito que o padrão de Agatha Christie espelhasse essa norma, seja como crítica ou conformação — ou um pouco de ambas.

agatha christie

As histórias de Agatha são lidas mais como quebra-cabeças elaborados ou jogos de tabuleiro vivos do que a típica narrativa de um crime verdadeiro.

Personagens aderem aos motivos, álibis e peculiaridades estereotipadas, a maioria sem a profundidade emocional para verdadeiramente contemplar o que está em jogo quando a vida é perdida — ou roubada. A escritora policial Ruth Rendell criticava o estilo de Agatha, alegando que chamar seus personagens de “bonecos de papelão [seria] um insulto ao papelão”.

No entanto, quando uma pessoa morre, o mesmo duas ou três, a perda é muito mais fácil de se lamentar.

Embora a morte seja sempre o ponto crucial dos contos de Agatha Christie, suas histórias assumem mais o tom de uma comédia de costumes do que de um drama melancólico. Sangue nas bonitas almofadas?

Que vergonha! Personagens como Hercule Poirot e Miss Marple surgem em cena, ansiosos por descobrir quem fez tal coisa e como. O que significa literalmente: através de qual sequência de eventos?

Nunca: como um ser humano pode, afinal, tirar a vida do outro?

Detetives, assassinos e a maioria de espectadores inocentes compartilham um entusiasmo mútuo, e mesmo prazer, diante de um assassinato sangrento

Os assassinos na cidade de Agatha não são maníacos, assassinos em série, pedófilos ou estupradores. Eles não são sistematicamente condicionados a recorrer à violência, psicologicamente traumatizados durante a infância ou sofrem de doenças mentais. Nada que estragasse sua diversão.

Não, os assassinos são suspeitos improváveis com um motivo específico em mente, seja dinheiro, amor, vingança ou calar alguém que sabe muito.

O que realmente torna Agatha Christie mestre em sua arte, no entanto, é sua habilidade de manter os leitores adivinhando, desafiando-os a decodificar as pistas antes do detetive. Uma tarefa que parecia praticamente impossível.

As histórias de Agatha Christie são lidas mais como quebra-cabeças elaborados ou jogos de tabuleiro vivos do que a típica narrativa de um crime verdadeiro

Li meu primeiro livro de Agatha Christie, E Não Sobrou Nenhum (o título original, Ten Little Nigers, ou Os Dez Negrinhos, foi baseado em uma polêmica trova infantil), na quarta série.

Nele, dez indivíduos são misteriosamente convidados para um fim de semana em uma pequena e isolada ilha. São alojados em uma mansão, onde descobrem a trova Dez Negrinhos estranhamente esperando-os em cada quarto, bem como dez estatuetas de soldados na mesa da sala de jantar.

Um por um, os convidados são assassinados, e, em cada vez, uma estatueta é quebrada. Devido à falta de profundidade atribuída à cada personagem, suas mortes aconteciam como se um objeto precioso, mas não insubstituível, estivesse sendo quebrado. Uma onda de pânico, um momento de indignação, e tudo voltava ao normal.

Pouco antes do assassino ser revelado, meu professor desafiou a classe da quarta série a tentar adivinhar o principal suspeito, escrever o nome em um pedaço de papel e passar adiante. A classe tinha cerca de 25 alunos. Ninguém acertou.

rainha do mistério

Felizmente, Poirot e Marple são mais inteligentes do que os mini detetives da minha classe na quarta série. Quando eles descobriram o assassino, não havia nenhuma ambiguidade, nenhuma dúvida.

Crimes astutos e horripilantes são totalmente desvendados e esclarecidos, comunicando que, embora o assassinato seja um negócio sujo, pode ser abordado de uma maneira apropriada e gentil, e, no final, a ordem será restabelecida.

A paz de espírito que invade os leitores em um desfecho criado pela escritora reconforta a todos, mas especialmente as mulheres, desproporcionalmente vítimas de violência doméstica e estupro. Mulheres que, segundo estimativas, agora respondem por 80% dos leitores de romances policiais.

Mulheres que não têm dificuldade para imaginar as várias formas como seus corpos podem ser assediados, espancados, estuprados ou mortos. Mulheres que não podem evitar de agarrar as chaves em uma mão e o telefone na outra enquanto caminham para a casa à noite, a respiração acelerada quando um homem diminui o passo ou a encara por mais tempo.

Para muitas mulheres, a morte como Agatha Christie imagina seria o melhor dos cenários. Ou, pelo menos, o melhor cenário para um assassinato.

Para muitas mulheres, a morte como Agatha Christie imagina seria o melhor dos cenários. Ou, pelo menos, o melhor cenário para um assassinato.

Agatha Christie, nascida em 15 de setembro de 1890, já era uma senhora mórbida — segundo relatos, a escritora adorava funerais desde a tenra idade. Mas muitas mulheres que conheço que não frequentam funerais adoram ler sobre crimes e não, como Agatha classifica, do tipo “vegetariano”.

É como se algumas mulheres tivessem, quase por necessidade, se tornado fluentes no idioma de seu maior medo, como se falar, ler e fazer piada sobre assassinatos pudessem aliviar o constante medo que experimentam.

Em seu podcast “My Favorite Murder”, as comediantes Karen Kilgariff e Georgia Hardstark lidam com o medo, induzido pela ansiedade, de ser assassinadas falando sobre ele, obsessivamente, em termos hilários e indelicados.

Em um episódio, por exemplo, as mulheres brincam que é mais assustador quando homens assassinam mulheres sem estuprá-las porque, perguntam, “então pra que tudo isso?”. As apresentadoras esclarecem, insistentemente, que não toleram o assassinato de nenhuma maneira ou formato.

Que elas brincam como uma forma de lidar com seus próprios medos constantes, para encarar a coisa feia frente a frente e dizer “hahaha!”.

Kilgariff e Hardstark são, de certa forma, a antítese de Agatha Christie. As três encontram diversão no assassinato, mas, enquanto Kilgariff e Hardstark se deleitam com todos os detalhes horripilantes, Agatha trata o homicídio com o mesmo decoro ordenado, normalmente reservado para uma taça de vinho derramada.

Lamentável, mas solucionável. Agatha responde a essa leitura de seu trabalho na dedicatória de O Natal de Poirot, escrita para seu cunhado.

É como se algumas mulheres tivessem, quase por necessidade, se tornado fluentes no idioma de seu maior medo

“Vocês se queixam que meus assassinatos estavam ficando muito refinados — anêmicos, na verdade. Vocês ansiavam por um ‘bom assassinato violento com muito sangue’.

Um assassinato onde não houvesse nenhuma dúvida sobre ser um assassinato! Então esta é sua história especial — escrita para vocês. Espero que agrade.

” Agatha então descreve o assassinato “violento” em termos da confusão criada — “móveis pesados virados... vasos de porcelana estilhaçados no chão”. Meu Deus!

Kilgariff e Hardstark combatem a ansiedade desenterrando as atrocidades mais repugnantes da história — aquelas que misturam abuso, negligência, pobreza, obsessão, loucura, estupro e tortura são as melhores.

Agatha Christie, no entanto, apresenta os pesadelos das mulheres na embalagem mais agradável possível. “Sou especializada em assassinatos de interesse doméstico, tranquilos”, Agatha disse em uma entrevista ao escritor britânico Nigel Dennis, em 1956. “Ofereça-me um agradável frasco mortal para brincar e estarei feliz.”

Para as mulheres que deitam à noite pensando em assassinatos, Agatha oferece a indulgência da classificação PG que proporcionará frio na espinha e arrepios, mas não irá revirar o estômago

Agatha Christie gostava de fazer referências a versos rimados em seus títulos.

Muitas vezes, como em E Não Sobrou Nenhum (Ten Little Nigers), as rimas se encaixam na trama do assassinato ou nas pistas que finalmente ajudam a solucionar o caso.

Outros exemplos incluem One, Two, Buckle My Shoe (publicado no Brasil como Uma Dose Mortal); Hickory, Dickory, Dock (Morte na Rua Hickory); Pocket Full of Rye (Cem Gramas de Centeio); bem como os contos Four and Twenty Blackbirds (O Caso das Amoras Pretas) e Sing a Song of Sixpence (não publicado no Brasil).

Os mistérios da escritora não empregam poesias infantis apenas como tática para abrir uma caixa. Pelo contrário, são rimas em si mesmas, contos de ninar para adultos que colocam as mulheres frente a frente com seus medos, desinfetados e arrumados.

Agatha Christie pode ter sido ávida por sangue, mas odiava fazer sujeira. Em vez de buscar um assassinato mais sujo, ela elaborava o assassinato em sua forma mais palatável — em um espaço de quarentena, com pessoas civilizadas, um detetive muito inteligente e uma resolução que não deixava margem para manobra.

Para mulheres que se deitam à noite pensando em assassinatos, Agatha oferece a indulgência da classificação PG que proporcionará frio na espinha e arrepios, mas não irá revirar o estômago.

Para a senhora moderna que gosta de encarar os próprios medos de frente mas, talvez, com um pouco de açúcar na cobertura, por que não relaxar à noite com Os Cinco Porquinhos?

Assim como uma canção de ninar, colocará você imediatamente para dormir.

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