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O Brasil vive uma guerra e não sabe, diz Vincent Carelli, diretor de Martírio

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O Brasil está em guerra. Uma guerra praticamente silenciosa, mas que tem dizimado os povos indígenas Guarani-Kaiowás, no Mato Grosso do Sul. A análise é de Vincent Carelli, indiginista e diretor do documentário Martírio, que retrata a luta dos índios. “Vivemos um genocídio contemporâneo”, arremata. “Comecei a filmar em 1998 e voltei 15 anos depois com os conflitos sistemáticos. Depois de 2013, foram mais de 25 ataques. Matam crianças, adultos…”

Os índices homicídio e suicídio são bastante superiores a média nacional. Em algumas reservas, o indicador de homicídio chega a ser 590% maior que o nacional e o de suicídio está entre um dos mais altos do mundo. Enquanto a média do Brasil é de 5,7 para cada 100 mil habitantes, entre os Guarani-Kaiowá chega a 100 por 100 mil habitantes.

“Isso que os Guarani-Kaiowá são os povos que eu conheço mais resistentes. Língua, religião, costumem preservados à prova de séculos. E se opõe logo a classe mais reacionária, aos ruralistas, que hoje estão no poder e fazem 25% do PIB.”

Neste contexto, Martírio vem para dar argumento aos militantes para serem capazes de se posicionarem sobre a “guerra que está acontecendo”. “O filme ajuda as pessoas a serem mais combativas. Se as coisas estão ruins para a gente, imagina para os índios”, acrescentou Carelli.

“Agora é o pior momento. Em 50 anos, acho que não houve uma ofensiva tão grande e a possibilidade do lobby ruralista da Câmara de decidir sobre as terras indígenas é gravíssima. A expectativa é só piorar. Os índios estão protestando há anos e vão continuar, vão fazer de tudo para combater essa guerra deflagrada do Estado contra os índios. Essa guerra que o Brasil não sabe."

Crowdfounding

O filme de Carelli tem uma especificidade, foi financiado, em parte, com dinheiro do público. “Entrei de cabeça no projeto, mas teve uma hora que o dinheiro acabou e entrei para o catarse. Além de aportar, o financiamento cria uma rede de pessoas que estão ligadas na proposta, aguardando o resultado.”

O financiamento ganhou embalo com a divulgação dos casos como a "morte coletiva" de 170 homens, mulheres e crianças da etnia. O episódio ajudou a levar a população a se posicionar e cerca de mil pessoas se engajaram no financiamento.

martirío

Martírio

O documentário é o segundo filme de uma trilogia sobre a questão indígena. O primeiro filme é Corumbiara, premiado no Festival de Gramado em 2009.

Dirigido por Vincent CArelli, em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tita, o filme tem o elenco formado por comunidades Guarani-Kaiowá do Mato Grosso do Sul. Duração 160 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ainda sem data para estreia no circuito nacional.

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