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'Não posso ser prefeito por ser evangélico?', questiona Crivella

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CRIVELLA
Rio: Marcello Crivella é 1º lugar nas pesquisas | Reprodução/Twitter
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Derrotado em duas eleições para a prefeitura do Rio de Janeiro, em 2004 e 2008, o senador Marcelo Crivella (PRB) olha os números atuais com justificado otimismo. Só mesmo uma derrapada improvável o tirará do segundo turno nesta que é uma das eleições mais apertadas da história da cidade.

Na última pesquisa DataFolha, Crivella chegou a 31% das intenções de voto, bem à frente de Marcelo Freixo (PSOL), com 10%. Bispo licenciado e sobrinho de Edir Macedo, o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, ele afirma em entrevista a VEJA que igreja é igreja, governo é governo e defende que o PMDB precisa deixar o poder para se “reeducar”.

Em 2014, o senhor também começou a campanha para governador na frente, mas acabou perdendo no segundo turno. Qual é a diferença agora?
Minha rejeição no primeiro levantamento era de 35%, agora está em 21%. A população começou a entender que chegou o momento de colocar gente decente na política. Já ouvi de uma senhora que não ganho porque sou muito bonzinho.

Sua rejeição é por ser “bonzinho” ou por ser bispo da Igreja Universal?
Tem a questão da Igreja Universal, sim, mas eu estou há mais de uma década na vida pública e garanto: a Igreja não terá nenhuma relação com minha gestão.

O senhor se sente alvo de preconceito?
Sou evangélico e posso ser engenheiro. Mas por que não prefeito?

O bispo Macedo sempre deixou claro que criou a Record para competir com a Rede Globo. A Universal é que manda na Record, certo?
Não há a menor chance de interferência da igreja na Record. Se a Record fosse uma TV de evangélicos, como é que ela estaria atrás da transmissão do carnaval? A Record quer fazer televisão, o PRB quer fazer política.

O senhor cogitou trocar o PRB pelo PSB. O que aconteceu?
A minha ida para o PSB seria uma maneira de mostrar que estou na política para fazer política. No Rio, os deputados foram favoráveis, mas em Brasília disseram que, seu eu saísse do PRB e ganhasse a eleição no PSB, ficaria estranho para o partido. Decidi então ficar.

Foi o Edir Macedo quem o aconselhou a não sair?
O bispo Macedo não me disse nem para sair, nem para entrar. A última vez que eu falei ele foi há dois anos.

Então o senhor é um sobrinho relapso?
Não. Todo dia rezo muito por ele, mas não temos convívio. O bispo Macedo vive dentro do templo Salomão, para onde fui na inauguração e nunca mais tive chance de voltar. Aliás, o Pezão [governador licenciado] estava lá do meu lado. Ele foi lá, botou a mão no coração, fez uma oração e depois disse que nós éramos uma facção criminosa.

O senhor se sentiu injustiçado quando o Pezão explorou sua relação com a Igreja Universal nas eleições para o governo, em 2014?
Sim. Ele dizia que quem ia tomar conta do estado era a igreja, que haveria um monopólio da religião. Hoje eu agradeço a Prole [empresa de publicidade que fez a campanha do governador] e ao Pezão. Eles levaram isso ao extremo e o povo viu que a máscara caiu.

Contra quem o senhor acha que disputará o segundo turno?
Eu gostaria que o povo do Rio mandasse para segundo turno alguém que não fosse o Pedro Paulo [candidato do prefeito Eduardo Paes], porque aí o Rio já era vencedor. Tirar o PMDB é uma grande vitória. É bom para eles. Estão precisando de uma reeducação fora do poder. Eu não falo isso com sangue na boca.

O senhor critica o PMDB, mas tem recebido conselhos do ex-secretário de Governo de Paes, Rodrigo Bethlem, que foi inclusive acusado de desviar recursos públicos da prefeitura...
Um lado bom do Bethlem é tirar o foco do meu tio (risos). Coitado, ele me procurou e disse que queria dar sugestões. Não me pediu nada nem eu prometi. Imaginei que ele fosse se queixar da maneira como foi defenestrado, mas ele nunca falou nada. Aquilo me despertou uma certa admiração. Não há denúncia formal contra ele, nem sentença transitada em julgado.

Pedro Paulo chegou a chamar de “triunvirato macabro” o senhor, o bispo Macedo e o ex-governador Anthony Garotinho, que apoia sua candidatura. Isso te incomodou?
Nem o Edir Macedo nem o Garotinho querem ou vão participar do meu governo. Se existe um triunvirato macabro eu diria que ele é formado por Eduardo Cunha, Pedro Paulo e Sérgio Cabral.

E as críticas que a candidata Jandira Feghali (PCdoB) tem feito pelo senhor, ex-ministro do governo Dilma, ter votado a favor do impeachment?
Eu tenho apreço pela Dilma, mas era preciso ela se afastar. Ela caiu por falta de governabilidade. A Jandira tem uma posição imatura, de companheiro que tem de estar junto. Não dá para passar a mão na cabeça de quem não merece.

Como prefeito, o senhor teria feito algo de diferente na Olimpíada?
A decisão de criar um metrô ligando Zona Sul à Barra e, paralelamente, duplicar o elevado do Joá e criar uma ciclovia foi tomada para beneficiar os construtores.

Em que o senhor se baseia para afirmar isso?
Faltou discutir com engenheiros e arquitetos para verificar se essa solução traria benefício. Prefeitura é para prestar serviço público e não abrir porta de gabinete para receber ideias e projetos de empreiteiros para tocar uma agenda que não é necessariamente a agenda da população.

O senhor parece bastante crítico em relação ao prefeito Eduardo Paes.
Não quero criticar o Eduardo em tudo. No primeiro mandato houve avanços na saúde e educação.

Quais foram os erros de Paes, na sua opinião?
Ele foi capturado por suas ambições eleitorais. Imaginou que a Olimpíada o faria um líder não só local, mas regional, nacional e até mundial. Em qualquer lugar do mundo, a festa é do país. No Rio, foi do prefeito.

E o legado pós-Jogos?
Na área de urbanismo e os próprios BRTs foram positivos. Mas a despoluição das lagoas e da Baía de Guanabara não foi entregue. Para fazer a Olimpíada, o Eduardo diminuiu os recursos da saúde em 1 bilhão de reais, desconsiderando o período entre 2012 e 2016. Mas se você fala isso, ele dá pulo, bate com a cabeça no teto. Mas é verdade. A fila para cirurgia eletiva na cidade é enorme.

Você concorda com o polêmico sistema de meritocracia adotado pela prefeitura para avaliar o desempenho das escolas?
Sou plenamente favorável. É claro; precisa ser discutido com os professores. Eles são muito críticos porque sabem que não basta o professor se esforçar. Se a criança não tem boa condição familiar, se sofre na comunidade, se não tem óculos, não vai ter boa avaliação. Mas eu acho que os professores vão me ouvir. Quero retomar o programa que melhorou a nota no Ideb no primeiro mandato do Eduardo Paes.

*Participaram da entrevista Cecília Ritto, Maria Clara Vieira e Leslie Leitão

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