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Um olhar de dentro da primeira escola do sul dos EUA feita só para alunos LGBTQ

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The74Million.org é um site de notícias sobre educação, e sem fins lucrativos, dedicado a contar histórias sobre escolas, professores, pais e 74 milhões de crianças americanas.

Christian Zsilavetz lê a as normas da escola de um caderno para seus oito alunos de 8 a 17 anos na sala de aula.

Foi o primeiro encontro de professores, alunos e voluntários na recém-inaugurada escola Pride School, de Atlanta, financiada por meios próprios como a primeira escola do Sul destinada a criar um ambiente de aprendizado seguro para professores e alunos LGBTQ e suas famílias e aliados.

Revisar as normas era um dos oito itens na agenda esse dia. A primeira, sem dúvidas, era a norma de “Sem bullying”. E a próxima dizia “Respeitem-se”. A terceira, “Usme os nomes e os pronomes corretamente”.

Assim começou a segunda semana do experimento educacional na minúscula escola privada, fundada com a promessa de aceitar os alunos como são e guiá-los através dos princípios de compartilhamento de poder e tomada de decisões feitas pelos próprios alunos que ganhou força durante o movimento de contracultura de escolas livres dos anos 60 and 70.

A escola espera reverter os indicadores alarmantes de jovens LGBTQ que vêm sendo cada vez mais documentados a medida que essa população se torna mais visível. Ao mesmo tempo, este tipo de escola oferece um ambiente de aprendizado para esses e outros alunos possibilitando que eles sejam bem-sucedidos.

Ao mesmo tempo, Zsilavetz aponta que a escola está lançando uma ampla rede, esperando atrair uma “diversidade de gêneros ou alunos que se identificam com a comunidade LGBT; alunos provenientes de famílias, independente da forma como eles se identificam; e famílias que querem apenas uma excelente escola— onde sejam aceitos”.

Os obstáculos incluem não só os impactos do bullying e outros desafios que os alunos das escolas enfrentavam em suas escolas anteriores, mas também um empurrão da sociedade como um todo, particularmente no ‘Cinturão Biblíco’.

A Georgia é um dos 12 estados a se unir ao Texas no desafio de normas federais para permitir que os alunos de escolas públicas usem o banheiro da sua escolha e a vizinha Carolina do Norte é o lar do HB2, uma lei controversa que restringe o uso de banheiros de escolas públicas e do governo e impede que o governo local passe medidas anti-discriminatórias baseadas no gênero e orientação sexual.

A Pride School é uma de somente três escolas experimentais no país todo, junto com a escola secundária de Nova York, a Harvey Milk High Schoo,l e a The Alliance School, de Milwaukee, que são escolas públicas.

A terrível situação que vivem alunos lésbicas, gays e bissexuais foi demonstrada na pesquisa lançada recentemente pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças sobre 15,600 alunos de escola secundárias que, pela primeira vez, incluía perguntas sobre as identidades de orientação sexual.

A pesquisa, que não perguntava aos alunos se eram transgêneros ou não, mostrou que um de cada 12 alunos se identificam como lésbicas, gays ou bissexuais, e que esses estudantes corriam mais riscos do que outros.

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Os alunos da Pride School escutam a missão e estrutura da escola nos primeiros dias de aula

Quarenta por cento já considerou o suicídio nos últimos 12 meses e 29 por cento já tentou se matar; 34 por cento sofreram bullying na escola, comparado com 19 por cento do resto da população de alunos. Cerca de 1 em 8 deixaram de ir à escola nos últimos 30 dias por temor de violência.

O pequeno grupo de estudantes na Pride School e seus pais, estão bem cientes dessas questões já que as vivenciaram bem de perto.

Jasper, de 17 anos, que nasceu mulher, mas que está questionando seu gênero, disse que um pequeno grupo de amigos na sua escola anterior avisou sobre “uma emboscada ou assédio verbal” vindo de outros alunos caso ele falasse abertamente sobre o que pensa e como se sente.

“Também ouvi de meus pais que veem tudo o que coloco nas redes sociais — ‘Tenha cuidado, isso pode ocorrer com você’”.

A hostilidade parece ser mais grave no Sul. A pesquisa bienal mais recente com 7.900 alunos da sexta série até o colegial feita pela Rede Educacional de Gays, Lésbicas e Héteros Network (GLSEN, nas siglas em inglês), um grupo de advocacia e educação nacional, mostra, por exemplo, que os estudantes LGBTQ eram duas vezes mais propensos a sofrerem assédio físico e agressão no Sul do que no Nordeste do país.

Zsilavetz espera que a Pride School ofereça uma melhor alternativa para uma parte desses estudantes e suas famílias — e outros que possam se beneficiar da abordagem da escola.

A incipiente escola tem apenas oito alunos agora; o valor anual é de US$ 13,500, com reduções sendo oferecidas com base na necessidade e em troca de trabalho voluntário.

Zsilavetz disse que matricular 12 a 15 alunos faria a escola “financeiramente viável” e ele está tratando de juntar dinheiro para bolsas no caso de famílias que não têm condições de pagar. Até agora, o tamanho do grupo parece ser o certo para as duas salas que abrigam o projeto na igreja Unitária na saída da estrada I-85, cerca de oito milhas nordeste do centro de Atlanta.

A igreja costumava ter um programa pré-escolar no local e boa parte dos móveis — mesas pequenas, estantes em forma de cubículos — nos lembra crianças pequenas.

A natureza liberal da denominação combina bem com a Pride School — a igreja recentemente colocou placas neutras de gênero nos seus banheiros.

Se você fizer essas crianças se sentirem seguras, então poderá remediar o impacto negativo do aprendizado

Agora aos 46 anos, Zsilavetz ensinou matemática desde 1992 nas escolas públicas de Nova Jersey e do estado de Washington. As escolas sofrem com a abordagem “não pergunte, não fale” sobre a identidade sexual e de gênero, disse. Isso fazo com que a vida diária na sala de aula seja mais difícil para professores como Zsilavetz, que é transgênero, e para estudantes fora das normas da sociedade quando se trata de orientação de gênero e sexual, acrescentou.

“A maioria dos funcionários [nas escolas públicas] não se assumem”, disse Zsilavetz.

“Em vários estados você pode ser mandado embora [por ser abertamente LGBTQ], e é praticamente proibido falar [sobre isso] com os alunos”.

Na Pride School os estudantes e funcionários são livres para serem como são, disse. Heather Stancil foi voluntária da escola recentemente.

Ela e seu filho, Tristan, de 17, decidiram se matricular na Pride depois que o adolescente se assumiu transgênero no último verão. A escola privada que Tristan frequentou em Alpharetta, Ga., exigia uniformes, inclusive saias para meninas. Tristan “se sentia desconfortável” usando o uniforme, disse Stancil.

A escola nunca teve que lidar com um estudante abertamente transgênero antes, acrescentou. “Não queríamos que Tristan fosse pioneiro”, disse Stancil.

Ela e Tristan foram para terapia juntos. Stancil e seu marido aprenderam sobre os riscos que correm os adolescentes LGBTQ — bullying, suicídios e drogas.

“Foi bem assustador”, disse. “Eu queria fazer tudo o possível para que ninguém prejudicasse meu filho … [e] ser transgênero pinta um alvo ainda maior nas suas costas”.

Eles começaram a educação em casa. Tristan não se sentia motivado. “O ano inteiro foi uma perda de tempo [academicamente]”, disse Stancil. “Nós estávamos nos sentindo perdidos”. Daí ela soube da notícia da escola Pride School online. “Tudo se encaixou perfeitamente”.

Sentado na frente da mesa de Tristan, Jasper, de 17 anos, também está contente de ter descoberto a escola. Ele foi para a escola pública em Alpharetta, subúrbio de cerca 25 milhas ao norte de Atlanta, onde ele se lembra de se sentir “socialmente esquisito”.

“Eu me sentia diferente, mas não poderia dizer o que era” disse Jasper, que nasceu mulher. Daí um amigo na oitava série falou sobre o “espectro de orgulho”, como ele o chama. “Ele achou que talvez se encaixasse nele [espectro].”

Durante os próximos dois anos, Jasper “expandiu a rede de amigos com quem falar” sobre como se sentia. Finalmente, na primavera passada, ele contou aos seus pais. “Eu não me sentia mulher. Eu não era homem …

Eu contei pra eles, ‘Eu não quero mais ser chamado pelo meu nome de nascimento’”.
Gradualmente, seus pais aceitaram o novo nome e o questionamento do gênero. Mas na escola, ele não poderia se abrir.

“As crianças disseram, ‘Deus diz que as crianças gays vão para o inferno’”, ele relembra.

Finalmente, sua mãe descobriu a Pride School. “Eu me identifico com essas crianças”, disse, sentado em um puff que ocupa o lugar central na sala de aula. “Eu posso me aceitar e amar a mim mesmo”.

Cary Costello é o diretor do programa de estudos LGBT e professor de sociologia na Universidade de Wisconsin, Milwaukee. Ele também é pai transgênero de uma filha que se formou na Alliance School, uma das outras escolas a nível nacional que oferece um lugar seguro para o aprendizado de crianças que sofrem com bullying. Quase a metade dos alunos são LGBT.

“Se você faz com que essas crianças se sintam seguras, daí você pode remediar o impacto negativo do aprendizado”, disse Costello. “Você permite que eles foquem na educação em vez de focarem na sobrevivência”.

Allan Laird, professor líder na Alliance School, disse que seus alunos “chegam destruídos e academicamente atrasados”.

Fundada em 2005, a escola tem visto seus alunos conquistarem um aumento na presença e no GPA, média final escolar, assim como na diminuição na violência. A escola secundária autônoma tem 195 estudantes e uma lista de espera de várias dezenas. Destaca características como práticas inovadoras de criação de palcos em círculos liderados por estudantes com toda a escola pelo menos quatro vezes ao ano para expor qualquer reclamação ou conflito.

A escola passou de “ovelha negra para o irmão mais velho e bacana” no mundo da educação durante a última década ou mais, disse Laird. A mídia nacional e internacional fez uma visita e o distrito escolar de Milwaukee pediu que Laird compartilhasse as técnicas da escola com os diretores.

O professor líder não se surpreendeu ao ouvir sobre a escola de Atlanta. “Eu acho que grandes mudanças sociais [de recentes anos] ajudam as pessoas a ter mais coragem para começar a criar escolas como a Pride”, disse.

Como a Alliance School, a Pride School busca inovar em sua abordagem educacional.

Peter Gray, professor de pesquisa do Boston College, há décadas estuda o modelo de escola livre que Zsilavetz e o conselho escolar adotaram, particularmente na escola Sudbury Valley em Massachusetts.

A ideia é dar aos alunos um papel central ao criar regras e normas para a escola e misturar os alunos de diferentes idades nas salas de aula. O resultado: “No fim os adultos oferecem um lugar seguro para a aprendizagem, você não tem que exigir que os [alunos] aprendam … você não consegue fazer com que eles parem de aprender!”, disse.

Abrir uma escola que atrai estudantes LGBTQ não acontece sem controversas. No curto período que a Pride School abriu, Zsilavetz recebeu ataques online, tais como um email com o assunto “escola de homossexuais” e a seguinte mensagem:
“Meu filho é bicha. Posso mandá-lo para sua escola?”

Mas ele também se surpreendeu com a ajuda dada pelos ativistas LGBTQ da área, que contaram para ele que abrir uma escola “tira a pressão das escolas públicas ... Eles dizem que não os estão responsabilizando”.

Mesmo assim, Mike Sadowski, autor do livro recentemente lançado “Safe Is Not Enough: Better Schools for LGBTQ Students” (“Seguro Não Basta: Melhores Escolas para Nossas Escolas LGBTQ”, em tradução livre), disse que escolas como Harvey Milk High School, the Alliance School e Pride School preenchem uma necessidade.

“As escolas públicas estão sob a obrigação de serem seguras e inclusivas para os alunos LGBTQ”, disse.

“Mas até que isso aconteça, essas escolas servem um propósito. Os estudantes podem se beneficiar. Especialmente se uma escola pública insegura for a alternativa"

(Tradução: Simone Palma)

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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