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'Voto útil mascara inquietação para renovar política. Recomendo voto pleno', diz Ricardo Young, em sabatina do HuffPost

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O candidato Ricardo Young, da Rede Sustentabilidade, foi o quinto entrevistado do HuffPost Brasil na sabatina de entrevistas para a Prefeitura de São Paulo. Durante 40 minutos, ele respondeu perguntas com a participação dos eleitores.

Com menos de 1% de intenções de voto, Young, que não participa dos debates das emissoras de TV, criticou a influência do marketing político na construção de lideranças. Para o candidato da Rede, o Brasil sofre com as consequências de uma agenda de campanha falaciosa criada em 2014 por João Santana, marqueteiro da ex-presidente Dilma Rousseff, e que se reflete em seus concorrentes, como João Doria (PSDB).

"O Doria é um fenômeno de marketing e nós já apanhamos muito por conta disso. O Doria da televisão não será o mesmo a governar São Paulo. Nós estamos vivendo um duplo fenômeno: um certo entusiasmo das pessoas porque o Doria não é um político convencional, mas, ao mesmo tempo, o fato de ele não ser político convencional também não o capacita a ser um político inovador, porque a prática empresarial dele é uma prática absolutamente convencional", argumentou o candidato, que também é empresário, ao ser questionado sobre as diferenças entre uma possível gestão dele e a do tucano.

Em suas propostas, Young afirma que a sustentabilidade social é a base do programa de governo. "A sustentabilidade, ao contrário da polarização que nós vivemos, é integradora. Ela integra a dimensão ambiental, da igualdade social, da prosperidade, numa única visão sistêmica de sociedade."

Para isso, o atual vereador prevê um modelo de gestão ao estilo do Waze, aplicativo colaborativo de mapas e tráfego. O candidato da Rede defende a descentralização da administração pública e quer instaurar em São Paulo um sistema de inteligência e informação em que as subprefeituras funcionariam como "coprefeituras".

"Somos uma civilização urbana, tecnológica, global e de redes. E a sociedade vem se movendo exponencialmente, mas as estruturas de governo são cada vez mais obsoletas. Como a gente resolve isso? Temos que atualizar as estruturas de governo. Primeiro descentralizando radicalmente a administração", defendeu.

Veja os principais momentos da sabatina:

Rede e Marina Silva

Críticos atribuem à Marina Silva, fundadora da Rede, a pecha de ser "em cima do muro". Questionado sobre o principal nome de seu partido, Young saiu em defesa de Silva e afirmou que a "liberdade de convicção" faz parte do estatuto da agremiação política.

"A Marina Silva está correndo o Brasil inteiro; temos candidatos em mais de 800 cidades e isso faz com que a presença dela seja uma tarefa difícil. Ela esteve aqui por mais de três vezes, mas ela também passa um pouco essa impressão porque não tem nenhum cargo político atualmente, então a tendência é a mídia não cobrir como cobria a Marina antes.

A Marina nunca esteve em cima do muro e eu entendo a dificuldade que as pessoas têm de entender a estrutura de um partido que não é igual a um partido convencional. A Rede nasceu de uma releitura daquilo que a população pensa que um partido deveria ser.

A posição do partido foi muito clara em ser favorável ao impeachment, por exemplo. E nós tivemos parlamentares que se posicionaram contra o impeachment. Esses parlamentares, inclusive, vinham do PSOL e do PT. E por que eles puderam se manifestar contra o impeachment? Porque na Rede não existe centralismo democrático. Nós temos por estatuto liberdade de voto de acordo com a convicção. Isso é inovador na política brasileira. E é por isso que nesse inicio da vida partidária as pessoas podem não compreender muito bem, mas em breve elas vão entender que a Rede é muito mais democrática do que qualquer outro partido hoje."

Doria e o político-empresário

Assim como o candidato João Doria (PSDB), Ricardo Young tem larga experiência empresarial, mas evita ser comparado com o seu concorrente. Segundo ele, Doria não é "habilitado para a política".

"O Doria não é exatamente um gestor, ele é um empresário bem sucedido na área de marketing e de articulação dos interesses corporativos. Eu tive uma história não só bem-sucedida como empresário, como tive uma atuação à frente de várias organizações que representam o melhor do empresariado, que são as empresas que estão alinhas à questão da responsabilidade social, da sustentabilidade e do combate à corrupção. Então é muito diferente a nossa experiência empresarial."

E continuou:

"Eu acho que o Doria é um fenômeno de marketing e nós já apanhamos muito por conta disso. Olha o estrago que o João Santana fez no Brasil nas eleições de 2014 com toda uma agenda que não correspondia à verdade. Não se faz uma carreira política, uma liderança política, da noite para o dia através de propaganda de televisão. Então, o Doria que aparece na televisão não será o Doria que governará São Paulo. O Doria nunca teve uma experiência política consistente, nunca foi eleito, nunca participou de nenhum processo de articulação política e nunca esteve junto ao empreendedorismo social e a sociedade civil organizada. Nós estamos vivendo um duplo fenômeno: um certo entusiasmo das pessoas porque o Doria não é político convencional, mas o fato de ele não ser político convencional também não o capacita a ser um político inovador, porque a prática empresarial dele é uma prática absolutamente convencional. Uma prática que não tem compromisso de sustentabilidade social. É apenas mais um empresário bem sucedido no marketing, que é uma área de serviços. Eu não tenho nada contra qualquer tipo de empresa, mas a experiência que ele tem na realidade de São Paulo é muito pequena. Eu acho que, por melhor empresário que ele possa parecer, ser isso não o habilita imediatamente a ser prefeito de São Paulo."

Haddad e autoritarismo

Como vereador que fiscaliza a gestão dos prefeitos, Young foi questionado sobre a gestão atual. Para ele, o prefeito e candidato à reeleição, Fernando Haddad, também é resultado do marketing político. "A gestão não é do Haddad, mas da cúpula do PT", argumenta Young.

"O Haddad que aparece nas campanhas políticas, o Haddad que aparece nos vídeos, não é exatamente aquilo que foi a gestão dele. A gestão do Haddad foi extremamente autoritária. É aquela visão: a quem está conosco, todas as benesses; a quem não concorda sempre conosco, a inexpressividade. Existe uma relação muito pouco democrática do Haddad e de seu partido com o resto da cidade. Indo para a periferia é impressionante. Antes da pessoa me receber ela me pergunta: 'É do PT?'. A população não se sentiu contemplada porque o partido se colocou de uma forma muito autoritária em relação às demandas da população. E lá na Câmara, a mesma coisa. Pouco negociou. Ele não é um prefeito democrático, ele não é aberto como aparenta ser e quem comanda o governo Haddad não é o Haddad, mas a cúpula do PT. E a cúpula do PT já demonstrou em outras ocasiões que não é exatamente um partido democrático que está disposto a se articular com outros interesses que não o do próprio partido."

Sobre seu posicionamento na corrida eleitoral, o candidato da Rede defende que tem o menor índice de rejeição e que não aceitaria ser vice de nenhum outro candidato.

"Eu posso não estar bem pontuado nas pesquisas porque eu não tenho espaço de propaganda nem na televisão nem no rádio, mas eu sou o candidato de menor rejeição. Ontem mesmo o Nabil [Bonduki] em um debate que nós tivemos na universidade de Belas Artes, ele me disse que o maior sonho dele era me ver como vice do Haddad, porque ele acredita que nós poderíamos dar uma grande atualização para aquilo que o Haddad propõe para a cidade. Mas eu nunca teria aceitado [ser vice do Haddad], como não aceitei ser vice da Erundina ou participar da campanha da Marta. O que nós dissemos é que nós conversamos com todos os partidos em cima de um programa e como podemos aperfeiçoar esse programa introduzindo contribuições de todos. Mas nenhum partido quis. Nós não estamos saindo sozinhos porque rejeitamos alianças. Mas porque nossa aliança ou é programática ou não é. Porque aliança eleitoral leva ao desastre, como nós já vimos e como a Lava Jato tem demonstrado."

Renda e periferia

Ricardo Young é o candidato com a segunda maior renda declarada à Justiça em São Paulo: R$ 7,4 milhões em bens. Questionado se o montante seria um obstáculo à aproximação das demandas dos mais pobres, Young argumenta que a quantia não é problemática, mas sim a falta de transparência de outros candidatos.

"Não me distancia. Pelo contrário, eu tenho uma das rendas mais altas declaradas porque eu não escondo a minha renda por trás de empresas ou ações. Eu declaro minha renda tal como ela é, sem nenhum subterfúgio para diminuí-la. Eu te garanto que tem muitos políticos que têm um patrimônio muito maior do que o meu. A diferença é a transparência na exposição. A minha renda foi gerada pelo trabalho, pela construção de uma empresa bem-sucedida que depois eu vendi para ter independência econômica e poder me dedicar à política. E é isso que eu faço. Mas que política? Não é qualquer política, mas a construção de um projeto de sustentabilidade no País. A Rede é o braço politico-institucional de um movimento muito maior, que é o movimento da sustentabilidade a que eu sempre pertenci. A sustentabilidade, ao contrário da polarização que nós vivemos, ela é integradora. Ela integra a dimensão ambiental, da igualdade social, da prosperidade, numa única visão sistêmica de sociedade. Em toda a minha campanha, no meu mandato e na minha trajetória, eu tenho trabalhado em um combate radical da desigualdade social."

Governo ao estilo "Waze"

Projeto de sua gestão, uma administração descentralizada é o modelo defendido por Young em contraposição ao governo de coalizão em vigor.

"Existe uma crença, que está sendo desmontada agora pela Lava Jato, de que o governo de coalizão é a única forma de governo que funciona. O governo de coalizão é aquele que um partido se alia a outros partidos para ganhar a eleição, não necessariamente em cima de um programa comum, mas em cima dos recursos eleitorais, do tempo de televisão, de debate e etc etc. O que acontece? O governo é eleito e ele loteia a máquina pública entre os partidos e quem passa a comandar as secretarias e as subprefeituras não são pessoas com competência necessariamente para isso. São pessoas desses quadros partidários que fazem parte do jogo político. O governo Haddad teve 60 secretários para 29 secretarias. Teve mais de 100 subprefeitos para 32 subprefeituras. Tá evidente que a priorização aqui não foi de competência, mas das costuras políticas necessárias para aprovar as leis e iniciativas do Executivo."

"Nós temos que romper isso entendendo que nós vivemos no século 21 uma dinâmica de redes na sociedade. Somos uma civilização urbana, tecnológica, global e de redes. E a sociedade vem se movendo exponencialmente, mas as estruturas de governo são cada vez mais obsoletas. Como a gente resolve isso? Temos que atualizar as estruturas de governo. Primeiro descentralizando radicalmente a administração. Nós vamos transformar as subprefeituras em coprefeituras e, com os concursos dos conselhos participativos, vamos desenvolver programas territoriais com a população. Instalaremos um sistema integrado de inteligência urbana que vai monitorar todas essas coprefeituras em rede como o Waze. No Waze você tem a melhor rota no teu celular, que é resultado de milhões de interações de informações que são feitas a cada momento e por isso ela é a melhor rota, mas você pode optar por ela ou não. No nosso governo as coprefeituras estarão alimentando esse sistema integrado de informação que vai permitir o acompanhamento online do que está sendo feito, quais são as melhores práticas, indicadores, metas para o acompanhamento transparente da população. Isso vai garantir um governo próximo das pessoas e ao mesmo tempo com a melhor inteligência que a cidade pode ter para resolver seus problemas."

Mobilidade Urbana

Questionado sobre as propostas para o transporte na capital, Young defende a presença dos multimodais e do Plano de Mobilidade.

"Nós acreditamos que precisamos continuar com o Plano de Mobilidade Urbana, que hoje é lei, e ele prevê multimodais. Esses multimodais obrigam uma democratização do viário para que nós tenhamos mais espaço para o pedestre, mais espaço para o ciclista. Queremos ampliar o transporte sobre trilhos, mas hoje a prefeitura não tem nenhum papel, é uma política estadual. Nós pretendemos criar uma autoridade metropolitana de transporte que coordene as cinco entidades que nós temos hoje (a CET, a SPTrans, a MTU, o metrô e a CPTM), porque elas são cinco empresas que não se conversam e, inclusive, aqui em São Paulo a presidência dessas empresas é acumulada pelo secretário de transportes, o que é um conflito de interesses evidente. Nós vamos criar melhores condições para os pedestres, vamos continuar e aperfeiçoar as ciclovias. Pretendemos mergulhar nas licitações dos transportes e abrir algumas caixas-pretas e problemas que essas licitações têm."

Voto útil e segundo turno

Young está esperançoso com esta etapa da eleição municipal e, por isso, descarta falar em apoios no segundo turno. Ele critica o propósito o voto útil e sugere o "voto pleno:

"O segundo turno ainda não aconteceu e eu tenho expectativas de conseguir muitos votos. Nós representamos um espaço de inovação no governo. Todo mundo fala do novo, mas fala do novo a partir das posições de sempre. Nós falamos do novo a partir daquilo que a sociedade está inovando no mundo inteiro. Existe a tese do voto útil. O problema do voto útil é que a gente vota em quem não quer e acaba elegendo quem a gente não escolheu e mascara a inquietação que a sociedade tem hoje para a renovação na política. Eu recomendo a todos o voto pleno - aquele que a gente vota de acordo com nossas convicções e nosso coração para contribuir que as mudanças ocorram. Segundo turno é segundo turno e a gente elege o menos pior. Mas no primeiro turno temos que nos revelar e revelar a inquietação diante da política convencional."

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