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Após protestos, Disney recolhe fantasia ofensiva de personagem da animação 'Moana - Um Mar de Aventuras'

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Menos de uma semana depois de apresentar as fantasias de criança baseadas no novo filme Moana, a Disney retirou vários produtos de seu site após uma reação indignada contra os produtos.

Representantes da Disney disseram ao The Huffington Post que a decisão foi tomada quando foi apontado para a empresa que as fantasias foram consideradas ofensivas.

Entre os item retirados estão uma fantasia de Halloween e um conjunto de pijama para crianças, ambos representando o semideus Maui, co-estrela fictícia dublada por Dwayne “The Rock” Johson.

“A equipe por trás de ‘Moana’ tomou muitos cuidados para respeitar as culturas das ilhas do Pacífico que inspiraram o filme, e sentimos por ter ofendido com a fantasia de Maui”, disse um representante da Disney ao The Huffington Post. “Pedimos sinceras desculpas e estamos retirando a fantasia do nosso site e das lojas.”

Tanto a fantasia quanto o pijama são essencialmente roupas que imitam tom de pele marrom, adornados com tatuagens polinésias e uma saia que imita folhas. Também estão listadas no site da Disney duas perucas de cabelo preto para completar o “look”.

fantasia
“Uma bela viagem”, diz a descrição do produto. A fantasia tem “as assinaturas características do semideus, um colar de corda e uma saia ao estilo da ilha. E braços e pernas com enchimento para dar o ar de força!”

pijama
Esses pijamas têm a legenda: “Corpo dos deuses”.

Em outras palavras, os novos produtos parecem ser um caso de “brownface” e apropriação cultural – e a internet não demorou para denunciar a Disney quando os produtos foram lançados.

A cultura da minha filha não é fantasia. Me sinto burra por esperar que a Disney entendesse. #NoHope #Moana

Fantasia de Maui para crianças. Pode ser a coisa mais rasteira que a Disney jamais fez. “Vista a pele de outra cultura!”

Como polinésia, apoio nosso pessoal envolvido em #MOANA. Mas isso? NÃO. Nossa pele marrom/tatuagens NÃO são fantasia.

Por mais animado que esteja com #Moana, e por mais cool que seja o Maui, a pele dos outros não é fantasia.

Embora muitos argumentem, como fizeram no Twitter, que é só uma fantasia de criança com boas intenções, os primeiros trailers e imagens do filme já tinham levantado questões sobre apropriação cultural entre comunidades no Pacífico e no resto do mundo.

Depois do lançamento do primeiro trailer de Moana, em junho, as pessoas expressaram frustração com um Maui enorme, afirmando que era uma forma de humilhar os gordos e de perpetuar o estereótipo de que todos os polinésios são obesos.

Para além da forma como Maui é retratado, os produtos oficiais da Disney são, por definição, uma forma de apropriação cultural, segundo Tevita O. Ka’ili, um antropólogo sociocultural especializado em povos da Oceania da Universidade Brigham, no Havaí.

“Apropriação cultural”, disse Ka’ili ao The Huffington Post, “é quando um grupo dominante pega os símbolos, rituais e práticas de outra cultural – especialmente uma minoria menos poderosa ou marginalizada – e a usa com pouco entendimento daqueles símbolos e cultura”.

É problemático quando um grupo poderoso – como a Disney, por exemplo – literalmente vende a pele escura de um grupo menos poderoso – os povos das ilhas do Pacífico, digamos – para que os consumidores os usem para se divertir, enquanto o grupo menos poderoso recebe muito pouco em troca.

“Entendo que a Disney está tentando ser inclusiva e também tentando mostrar que seus personagens são diversos, mas há um desequilíbrio de poder aqui”, disse Ka’ili ao The Huffington Post antes do anúncio da retirara dos produtos das lojas.

“Um grupo dominante pode vestir e tornar-se parte de um grupo marginalizado sem nenhum senso de sua história, sua cultura e suas dificuldades.”

Essas dificuldades incluem comunidades inteiras do Pacífico cuja existência é ameaçada pelo aumento dos níveis dos oceanos e pela mudança climática, os impactos negativos do colonialismo sobre as populações indígenas e a discriminação contra os habitantes das ilhas do Pacífico.

Sem entender essas questões, diz Ka’ili, “as pessoas vão poder vestir a pele marrom e ser uma pessoa marrom sem entender a experiência de quem é marrom”.

fantasias_moana

Mas Ka’ili admite que os produtores de Moana fizeram pesquisas culturais para fazer o filme e também fizeram o melhor para usar atores que tivessem etnia das ilhas.

Moana é dublada por Auli’i Cravalho, uma atriz de origem havaiana da ilha de Oahu. Maui é dublado por The Rock, que tem ascendência samoana, e a mãe de Moana, Sina, é interpretada pela cantora que virou atriz Nicole Scherzinger, que é parte havaiana e nasceu em Honolulu.

Para criar o filme, a Disney reuniu uma equipe de especialistas em cultura polinésia conhecida como Oceanic Story Trust, com o objetivo de garantir que o filme, embora ficcional, fosse o mais autêntico possível, segundo o site MoviePilot.com

Ainda assim, Ka’ili diz que estudiosos da cultura que como ele têm problemas com o filme estão mais preocupados com a “comoditização da cultura da Oceania” – ou seja, a Disney usa a cultura de outro grupo para ganhar muito dinheiro.

Com seu visual onírico, elenco famoso e uma estrela inspiradora, espera-se que Moana seja um sucesso de bilheteria semelhante no nível de Frozen.

É por isso que Ka’ili e seus colegas pediram que a Disney criasse um fundo para “apoiar a educação das crianças de ascendência Pacífica”, na esperança de que o sucesso financeiro de “Moana” beneficiasse as comunidades de quem toma emprestado.

Mas, quando se trata das fantasias, Ka’ili afirma que nunca é OK – e ele aplaude a Disney por ouvir as preocupações da comunidade.

“Acho que é bom que as pessoas desafiem a Disney”, afirmou ele. “A Disney vem evoluindo ao longo dos anos para se tornar o que é hoje por causa das críticas que recebeu. É bom que eles estejam ouvindo.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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