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Identidade negra e racismo: Solange lançou um álbum tão destruidor quanto Beyoncé. E você precisa ouvir

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Ao que tudo indica, 2016 é o ano da família Knowles.

Depois de Beyoncé lançar seu poderoso álbum visual Lemonade no primeiro semestre - em que trata de questões como racismo e empoderamento negro -, chegou a vez de sua irmã mais nova, Solange, mostrar ao mundo um álbum intenso e político na mesma medida.

Batizado de A Seat at the Table (Um Lugar à Mesa), o novo trabalho da cantora chegou às lojas e plataformas de streaming na última sexta-feira (30), quatro anos após o elogiado EP True.

Não há como negar uma conversa entre os dois discos. Em A Seat at the Table, Solange fala sobre identidade negra, sua luta particular contra o racismo e aborda também o sentimento comum entre pessoas negras ao terem seus cabelos crespos apalpados com curiosidade por terceiros.

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Capa de A Seat at the Table

No dia do lançamento, Solange compartilhou nas redes sociais que a história de vida de seus pais serviu de inspiração para várias canções do álbum.

De origem pobre, Mathew Knowles, se tornou um grande executivo musical a partir de um pequeno escritório. Já Tina Knowles, trabalhou como cabeleireira na garagem da casa da família até se tornar proprietária de uma rede de salões em Houston, nos EUA.

Tina, inclusive, está presente em uma das faixas do disco. Na verdade, em um dos interlúdios – em que faz uma crítica ao chamado “racismo reverso”, explicando como esse conceito é apenas uma visão equivocada do empoderamento negro.

Ouça a faixa:

Leia a versão traduzida (disponibilizada pelo Café Radioativo):

“Eu acho que uma parte está aceitando que existe muita beleza em ser negro. E essa é a coisa que eu acho que me deixa emotiva, porque eu sempre soube disso. Eu sempre tive orgulho de ser negra. Nunca quis ser outra coisa. Amava todas as partes disso e ponto.

Existe muita beleza nas pessoas negras, e realmente me entristece quando não nos é permitido expressar esse orgulho em ser negro, e se você faz é considerado “anti-brancos”. Não. Você é apenas pró-negros, e isso é algo bom. As duas coisas não andam juntas. Porque você celebra a cultura negra, não significa que você não gosta da cultura branca, ou que está desvalorizando ela. Você só tá sentindo orgulho.

E o quão irritante é quando alguém diz “eles são racistas. Isso é racismo reverso” ou “Eles tem o mês da história negra, mas nós não temos o mês da história branca”. Bem, tudo que nos é ensinado é história branca, então por que você está chateado? Por que isso te deixa com raiva? Isso é para me reprimir e me fazer não ter orgulho.”

Diferentemente de Lemonade, em A Seat at the Table o que prevalece é um R&B / pop calmo, costurado pela voz delicada de Solange. O que não o torna um disco com menos força. Muito pelo contrário, pode-se arriscar que esse trabalho seja a outra face da grande moeda que é o álbum de Beyoncé.

Em entrevista ao The Fader, Solange falou sobre o ativismo negro em seu trabalho. Questionada se há uma cobrança pessoal por abordagens de questões sociais, ela respondeu:

"Essa é uma questão muito complexa. Quando eu entrevistei Amandla [Stenberg] para Teen Vogue, ela disse algo como: 'Nós somos todos ativistas, mesmo que apenas existente'. Eu acho que eu sempre soube disso, mas eu comecei a canalizar as minhas ideias de ativismo de forma muito diferente. Eu não acho que é responsabilidade de todos, se não é, da sua vontade. Mas eu me sinto em conflito quando as pessoas sentem que não podem ter esse chamado, e são contra o movimento. Isso, para mim, é muito problemática. Eu preferiria que essas pessoas simplesmente não falassem. É muito doloroso. Tudo o que peço é que as pessoas sejam sensíveis às verdades dos outros, mesmo que não seja a sua própria. Eu não acho que todo mundo precisa estar aqui com piquetes e protestando; talvez a sua forma de protesto seja entrando em seu escritório todos os dias, de pés firmes, como uma pessoa negra. Nós apenas temos que ser sensíveis uns aos outros e não criticar tanto as pessoas."

Dev Hynes (Blood Orange), Lil Wayne, Kelly Rowland, Sean Nicholas Savage, David Longstreth (Dirty Projectors), Raphael Saadiq e Rostam Batmanglij (ex-Vampire Weekend) são alguns nomes de peso da atual cena mais alternatival da música americana que estão presentes no novo álbum de Solange.

Vale ressaltar também o apreço visual da cantora. No último final de semana, ela lançou também dois videoclipes. Um para a música Cranes in the Sky, em que aparece em diferentes recortes visuais poéticos. Assista a seguir:

No segundo clipe, para a música Don’t Touch My Hair (parceria com o britânico Sampha), ela reforça novamente o valor dos traços e da estética afro de forma poética. Assista abaixo:

Ambos os clipes são codirigidos por Solange. Ela também assina as composições, os arranjos e a coprodução das 21 faixas de A Seat at the Table com o marido, o músico Alan Ferguson. Ouça o álbum no player abaixo:

Vida longa à família Knowles!

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