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O que pensam as vereadoras eleitas Janaína Lima (NOVO) e Sâmia Bonfim (PSOL) para São Paulo

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VEREADORAS
Janaína Lima e Sâmia Bomfim foram eleitas vereadoras de São Paulo | Reprodução/Facebook
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Enquanto o partido de uma delas era fundado no início de 2011 por profissionais liberais insatisfeitos com a carga tributária e com a qualidade dos serviços públicos, a outra iniciava no mesmo ano a sua vida de filiada em outra agremiação e liderava greves de servidores públicos da Universidade de São Paulo.

Janaína Lima (NOVO) e Sâmia Bonfim (PSOL) são vereadoras na capital paulista. Elas foram eleitas com 19.425 e 12.464 votos respectivamente. As duas se somam a outras 9 vereadoras eleitas, mais que dobrando o número de cadeiras ocupadas por mulheres na Câmara Municipal de São Paulo: de 5 representantes, cresceu para 11 mulheres eleitas.

Agora, elas ocupam 20% do total de vagas. Patrícia Bezerra (PSDB), Soninha Francine (PPS), Edir Sales (PSD), Juliana Cardoso (PT), Sandra Tadeu (DEM), Rute Costa (PSD), Noemi Nonato (PR), Adriana Ramalho (PSDB) e Aline Cardoso (PSDB) compõem o quadro ao lado das representantes do NOVO e do PSOL.

Integrantes de partidos de espectros ideológicos diferentes, o primeiro alinhado ao liberalismo e o segundo que traz o socialismo em sua sigla, Janaína Lima e Sâmia Bomfim vão trabalhar de acordo com suas convicções para a melhoria da cidade.

Mas o que pensam estas mulheres que chamam atenção, também, pela estreia na política?

Representante do NOVO, a advogada Janaína Lima compactua da mesma visão que o seu partido em relação à eficiência da gestão pública, à ética e à transparência da política.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, que contou com a interação dos leitores por meio de uma transmissão ao vivo no Facebook, a advogada nascida e criada no Capão Redondo, no extremo sul da capital paulista, conta que se filiou por acreditar nas propostas inovadoras de se fazer política, além de defender a visão liberal do empoderamento do indivíduo.

"Me filiei ao NOVO porque ele traz novas bandeiras e novas formas de fazer política. Não trabalhamos para projetos de poder, mas para servir a população. Acreditamos que o Estado deve influenciar cada vez menos na vida das pessoas e que a mulher possa ser o que ela quiser. A mulher deve ser uma vencedora, e acredito no empreendedorismo social e no mandato participativo como ferramenta para isso."

Já para Sâmia Bonfim, servidora pública filiada do PSOL, o partido ocupa um espaço alternativo para a esquerda diante da "falência do PT".

"Sou formada em letras na USP, nasci em Presidente Prudente e me mudei aos 17 anos para estudar e trabalhar em São Paulo. Fiz parte do movimento estudantil, me envolvi nas greves da Universidade em defesa das cotas, das creches e contra os casos de estupros que aconteceram no campus. Depois que me tornei servidora pública, também me envolvi no movimento sindical e me filiei ao PSOL em 2011, pois vi no partido uma alternativa de esquerda diante da falência do projeto do PT."

Militante, Bomfim defende que a ampliação do número de cadeiras ocupadas por mulheres na Câmara se deve ao momento do movimento feminista, que, de acordo com ela, é de amplitude e fortalecimento.

"O fato de as mulheres serem pouco representadas na politica é um sintoma da falência do sistema. Passamos por uma crise política muito forte e um dos seus principais sinais de esgotamento é o fato de que os setores oprimidos não são representados nas instâncias de poder, e não são só as mulheres, temos poucos negros, LGBT e trabalhadores. A maioria dos políticos tradicionais são ligados a empresas, são coronéis de bairros, pessoas com famílias tradicionais. Eu acho que é necessário fazer uma revolução na composição politica do País a partir de pessoas comuns, e a representação feminina é um primeiro passo. Mas é insuficiente, seja do ponto de vista do número de mulheres que ainda é pouco, mas principalmente do que essas mulheres defendem. A ampliação do número de cadeiras femininas na câmara se deve ao momento do movimento feminista que é de amplitude e fortalecimento. Os coletivos passaram a existir nas escolas, nas universidades, nos bairros. A gente viu as mobilizações de rua nas marchas, no Fora Cunha. Ainda, tiveram as campanhas nas redes sociais contra o machismo, contra a violência, a favor do direito sobre os corpos. Mas principalmente, um dos temas que o feminismo mais apoiou recentemente é a representatividade, que nada mais é do que a ocupação dos espaços que nos foram negados historicamente. E a politica é um desses espaços, mas a gente ainda tem muito o que avançar."

Lima concorda que o resultado destas eleições é um avanço.

"Gostaria de focar no resultado que é muito significativo. A representação feminina mais que dobrou e o fato de ter mais mulheres repercute no objetivo final, que é a política ser mais humana, ser mais próxima. A mulher tem esse papel importante e essa lacuna matematicamente será cada vez menor. Com a participação e o engajamento das mulheres eleitas, que vão cumprir o seu papel e mostrar como é a mulher na política, a gente vai começar a ver os impactos disso."

Questionadas sobre o atual governo do presidente Michel Temer, as vereadoras do PSOL e do NOVO têm posições divergentes. Sâmia Bomfim assume uma posição combativa e contra as reformas propostas pela gestão do PMDB.

"O governo Temer é um retrocesso em todos os aspectos, primeiro pela forma com que ele chegou no governo, que foi através de um golpe institucional e que teve elementos de machismo e misoginia; ou até mesmo a caricatura que fizeram da Dilma. Além disso, o governo já anunciou uma série de medidas de reajustes que podem ser cruéis para toda a população e as mulheres serão as principais atingidas. Eu penso, por exemplo, na reforma da previdência em que ele quer igualar o tempo de contribuição de homens e mulheres. Isso anula a nossa dupla, tripla jornada de trabalho. Ou ainda as mudanças da reforma trabalhistas, que para as mulheres que tem os priores trabalhos, os piores empregos que são os serviços terceirados, por exemplo, cai com um peso mais forte. Sem contar com o fechamento das secretarias das mulheres. É um momento de enfrentamento e luta contra o governo", argumenta a vereadora do PSOL.

Enquanto isso, Janaína Lima fez parte do movimento social que lotou as ruas das cidades do País e pressionou os parlamentares a votarem o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. A advogada espera que Temer e sua equipe consigam melhorar os índices socioeconômicos do País.

"Fui uma das lideres do Movimento Vem Pra Rua, mas hoje estou afastada porque o movimento é suprapartidário. O movimento não é 'Fora Dilma', mas contra a corrupção. A gente viu o nível de institucionalização da corrupção, e um grupo de brasileiros indignados foram lá exigir para que a lei se cumprisse. O processo de impeachment da Dilma foi julgado e tramitado pelo Senado Federal. O governo Temer é consequência disso. Quem votou na Dilma também elegeu o Temer. Eu espero que ele consiga colocar o Brasil em um avanço de desenvolvimento socioeconômico para que o País saia dessa crise e possamos melhorar nossos indicadores de desemprego. E ainda que a gente consiga fortalecer as nossas instituições para nunca mais ver os altos índices de corrupção que a gente vê hoje."

Sobre a representatividade da mulher no atual governo, Lima acredita que tanto a solução da crise econômica quanto a inclusão de mulheres na política são ações que precisam ser feitas.

"Com relação ao papel da mulher eu acho que é relativo. Hoje a gente tem uma mulher à frente do BNDES e isso é muito representativo, porque é uma cadeira que tem muito mais força do que muitos ministérios, por exemplo. A gente tem que buscar cada vez mais trazer a mulher para a política, mas muito mais com um olhar para o bem comum."

A vereadora preferiu não comentar sobre as reformas da previdência e trabalhista, pois argumentou que o seu partido ainda não tem um posicionamento fechado.

Outro tópico levantado pelo leitores do HuffPost Brasil durante a entrevista foi a discussão sobre a ideologia de gênero nos currículos e o projeto "Escola Sem Partido".

"Há um ano a gente teve a oportunidade de incluir o debate de gênero nos currículos não só em escolas de São Paulo, mas em outras câmaras do País e isso foi barrado. Poucos meses depois, principalmente com o combate do movimento feminista contra a cultura do estupro, a gente fez a sociedade compreender o problema que é não se refletir nas salas de aula sobre o machismo, a LGBTfobia e o racismo. Um dos principais fatos que estruturam a cultura do estupro é que as instituições do Brasil não se organizam para combater essa violência. E as escolas são espaços determinantes para formação de cidadãos que respeitam a diversidade. Vai ser uma intenção muito forte do nosso mandato conseguir rediscutir como as escolas se organizam e se preparam para receber esses alunos no que diz respeito à diversidade", argumentou Sâmia Bomfim.

Para ela, o projeto da Escola Sem Partido é "bizarro", pois não foi discutido com os pedagogos, os professores, e nem mesmo com os estudantes ou os pais dos alunos, que são os mais interessados. A vereadora eleitora afirma que o projeto é reflexo do "medo" dos setores mais conservadores em relação à força dos movimentos dos secundaristas. Ainda, ela complementa que trata-se de uma forma de "tentar conter o avanço da consciência e da mobilização dos estudantes, aliado ao temor de que os jovens passem a cobrar a conta das escolas sucateadas."

Janaína Lima argumenta que educação é uma de suas principais propostas e isso quer dizer "cuidar das crianças para que elas sejam cidadãos plenos". O foco da vereadora eleita é a primeira infância. Sobre a proposta de lei, ela argumenta que é uma discussão importante, mas que não tem uma posição formada:

"A Escola Sem Partido cumpre um papel importante sobre a discussão da presença da ideologia nas escolas. É um tema federal, não quero me posicionar porque o meu partido não se posicionou. Da mesma forma a ideologia de gênero. É um tema complexo que precisamos discutir, mas meu partido ainda não se posicionou. O meu partido respeita a menor das minorias, que é o indivíduo. Acreditamos que o indivíduo é capaz de tomar suas próprias decisões e as leis estão aí justamente para dizer os limites desse indivíduo. A gente acredita que o indivíduo tem que ser formado. Por isso a atenção na primeira infância para que seja formado um cidadão pleno e que possa tomar as melhores decisões de sua vida. [...] Eu e o meu partido temos uma visão mais liberal de que as pessoas precisam ser empoderadas e ter o apoio do Estado necessário para que de fato elas possam ter o sonho grande, a oportunidade de ser vencedor. A pessoa tem que ter a chance de mudar a sua própria história. Dentro da política pública a gente quer formar esse cidadão. A educação é o principal meio disso. O dinheiro público não tem que ser para projetos de poder. O Estado tem que atuar nas áreas de saúde e educação. O indivíduo tem que ser protagonista de seu destino e o Estado tem que dar garantias para quando o indivíduo se torne um cidadão aos 18 anos, ele tenha condições de tomar todas as decisões para que ele seja um vencedor."

As entrevistadas ainda discutiram sobre outros temas, como o aborto, combate às drogas, a gestão do ex-prefeito Fernando Haddad e o que esperar do recém eleito João Doria. Você pode acompanhar no vídeo abaixo:

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