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Mulheres retomam vidas depois de dois anos brutais sob o Estado Islâmico: ‘agora estamos livres'

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mulheres

Durante mais de dois anos, homens fortemente armados do chamado Estado Islâmico ditaram quase todos os aspectos da vida das mulheres nesta cidade no norte do Iraque.

Elas foram forçadas a se esconder do mundo: seus corpos, cobertos por tecido preto. Suas mãos, envoltas em luvas. Seus olhos, baixos ou inteiramente escondidos sob véu um negro que cobria o rosto. Suas vozes, mudas.

Escola para as meninas estava fora de questão. E nenhuma mulher podia sair de casa sem a companhia de um homem.

Tudo isso mudou há pouco mais de um mês, quando as forças iraquianas expulsaram os combatentes extremistas de Qayyarah.

“Não tínhamos liberdade”, lembrou Umm Tarek, uma mulher de meia idade mãe de dez filhos, do lado de fora de um centro médico pequeno, mas movimentado. “Não queríamos o ISIS, mas o que poderíamos fazer?”

iraquianas e enfermeira
Mulheres iraquianas, algumas delas enfermeiras, posam para fotografia em centro médico em Qayyarah

Os linha-dura ainda estão por perto, na cidade vizinha -- mas os homens, e talvez mais dramaticamente, as mulheres daqui estão retomando suas vidas mesmo assim.

Pelo menos algumas dessas mulheres parecem agora falar livremente e de coração sobre a vida sob o domínio ISIS. Ao interagir com uma repórter dentro do centro médico da cidade, um grupo de mulheres fala em voz alta, irrompendo em gargalhadas por causa da comoção que estão causando. Nenhuma delas mediu as palavras.

“O ISIS nos levou de volta aos velhos tempos”, disse Hind, uma enfermeira de 22 anos de idade, vestindo um véu rosa brilhante. “Agora, você vai encontrar uma geração sem educação.”

A energia dela encheu um quarto minúsculo cheio de enfermeiras, pacientes e uma autoridade iraquiana que insistia que o WorldPost se retirasse, citando razões de segurança. As mulheres o ignoraram e falaram ainda mais alto, uma em cima da outra, ansiosas para contar suas histórias.

Algumas escolas daqui – que tinham sido substituídas por chamados “cursos educacionais islâmicos”, cheios de propaganda violenta do ISIS – logo reabrirão, pelo menos as que não foram destruídas por bombardeios aéreos.

crianças
Crianças perto de um poço de petróleo em chamas, incendiado por combatentes do ISIS em fuga, pouco mais de um mês depois da retomada da cidade pelas forças iraquianas. A fumaça negra queima os olhos e a garganta, causando desconforto e problemas de saúde para a população de Qayyarah

Mas as escolas ainda precisam de livros, salários para os professores e apoio de organizações que possam ajudar na retomada das aulas, diz Hussain Ali Hachim, prefeito de Mosul, o distrito em que se localiza Qayyarah.

Alguns jovens que estão longe da escola há dois anos quase inevitavelmente não sabem ler ou escrever, sem falar de matemática ou ciências.

Uma menina tímida de seis anos sorriu quando foi questionada sobre o que mais gostava na escola. “Estudar!”, respondeu ela, brilhando de alegria, apesar da fumaça negra que paira sobre a cidade. Meses depois, poços de petróleo incendiados pelos combatentes do ISIS em fuga continuam queimando.

Mas essa fumaça – uma lembrança presente da tática de terra arrasada do ISIS – não impede que meninos e meninas saiam para a rua, de mãos dadas, brincando e rindo. Durante anos, as crianças ficaram escondidas em casa, enquanto outras eram treinadas para ser soldados infantis.

Suas mães também comemoram a reconquista da liberdade. Vestir-se de manhã não é mais um ato aterrorizante. É uma chance de se expressar, de retomar o controle de seus próprios corpos.

“Se o Daesh visse meus olhos, forçaria minha família a pagar 100.000 dinares iraquianos”, diz Hind, fazendo referência ao nome local do ISIS. A quantia equivale a cerca de 85 dólares. Hind diz que os militantes a demitiram de seu emprego de enfermeira quando ela contestou suas ordens. “Como trabalhar com os olhos cobertos? Não dá para enxergar!”

No centro médico da cidade, nenhuma das mulheres entrevistadas pelo The WorldPost usava a roupa que se vê nas áreas controladas pelo ISIS. Elas usavam véus com estampas de leopardo, vestidos com brilhantes e aventais de laboratório usados por profissionais da área de saúde.

Sob o domínio do ISIS, as mulheres muitas vezes eram forçadas a dar à luz em casa, dizem locais, porque não havia enfermeiras para prestar atendimento. Médicos homens eram impedidos de tratar mulheres, a despeito da gravidade da situação.

Em campos de refugiados dentro do país, mulheres que fugiram de lugares como Qayyarah e cidades vizinhas se alegram por poder voltar a usar roupas coloridas. Vermelho, laranja, amarelo, verde – tudo proibido durante o domínio do ISIS por ser provocativo demais.

“Eles poderiam te matar se vissem essas cores”, disse Marwa, usando braceletes violeta e azuis. Ela estaria no nono ano se o ISIS não a tivesse obrigado a abandonar a escola.

Os dias em que usar a roupa errada significava uma pesada multa – muitas vezes impossível de pagar para as famílias pobres da região – ficaram para trás. Em territórios controlados pelo ISIS, prisão e chicoteamento são punições comuns para transgressões menores como fumar, assistir TV, jogar futebol ou – para os homens – fazer a barba.

refugiados
Refugiados iraquianos de áreas controladas pelo ISIS no campo de Debaga, no Curdistão iraquiano

Para os crimes mais graves, a pena é a morte. As execuções são filmadas e as imagens são usadas em vídeos de propaganda.

Os combatentes linha-dura transformaram uma casa de Qayyarah em prisão. O segundo andar virou um espaço cheio de celas minúsculas, lotadas e sem janelas. Em uma das portas havia uma lista de nomes – as pobres almas detidas ali.

Outra mulher, Amal, chacoalha a cabeça, lembrando a versão deturpada do Islã que leva o ISIS a ditar um estilo de vida austero e basicamente estranho para a maioria da população sunita da cidade.

“Não está certo”, disse ela. “Isso não é o Islã.”

As mulheres locais afirmam que a vida era infernal sob o ISIS, mas as yazidis sofriam ainda mais. As mulheres da minoria religiosa, considerada herege pelo grupo, eram transformadas em escravas sexuais em Qayyarah e em outras partes da Síria e do Iraque.

O grupo tomou o Monte Sinjar em agosto de 2014, massacrando milhares e tomando outros milhares de reféns.

Hind diz se lembrar de uma yazidi grávida sangrando entre as pernas. Ela ajudou a mulher a conseguir atendimento médico, salvando a vida dela temporariamente. Mas Hind nunca mais a viu.

prisão isis
O interior de uma prisão do ISIS, onde os locais eram detidos por desobedecer as regras estritas do grupo. Os combatentes instalaram portas de ferro em uma casa para impedir a fuga dos presos.

Provavelmente ela era mais uma das mulheres levadas pelo ISIS quando o grupo bateu em retirada. Segundo os relatos dos locais, todas as yazidis foram forçadas a seguir com os combatentes.

Elas são extremamente valiosas: as mulheres são vendidas por milhares de dólares para outros homens ou então devolvidas para suas famílias mediante pagamento de resgate.

O controle em Qayyarah era estrito – os extremistas temiam perder cidadãos de seu “califado”. Mesmo assim, alguns corajosos, desesperados ou ricos o suficiente pagavam entre 200 e 500 dólares por pessoa para fugir para campos de refugiados no Curdistão iraquiano.

Mais de 3,3 milhões de iraquianos tiveram de sair de suas casas desde que o ISIS começou sua campanha militar no norte do Iraque. Especialistas acreditam que o número vá aumentar ainda mais, potencialmente tirando mais 1,5 milhão de homens, mulheres e crianças de casa quando começar a batalha por Mosul.

A operação – com forças iraquianas, curdas, xiitas e americanas, entre outras – pode começar ainda este mês.

O Programa Mundial de Alimentação da ONU distribuiu um mês de comida de emergência para cerca de 30.000 pessoas na região de Qayyarah no início de setembro.

Segundo a diretora do PMA no país, Sally Haydock, a população estava sofrendo “fome intensa, com acesso restrito a mantimentos”. Foi a primeira vez que os grupos de ajuda humanitária conseguiram contato com os civis da região desde junho de 2014.

O ISIS ganhou força em 2014 em grande parte por causa da insatisfação da população sunita contra o governo do então premiê, Nouri al-Maliki, um xiita. O governo era considerado autoritário e sectário por muitos sunitas.

adolescentes iraquianas
Adolescentes iraquianas de braços dados, usando roupas coloridas que eram proibidas durante o governo do ISIS.

Mas esse apoio diminuiu quando ficou claro que o ISIS não significaria um futuro melhor para os locais.

Ainda há muita tensão em Qayyarah. Forças iraquianas continuam prendendo suspeitos de apoiar o ISIS.

Recentemente, 65 moradores de Qayyarah foram detidos, incluindo várias mulheres e meninos, por suspeita de apoio ao grupo extremista, disse uma autoridade iraquiana que pediu para não ter seu nome divulgado. Grupos de defesa dos direitos humanos afirma que as forças iraquianas estariam prendendo e executando sunitas locais.

Boa parte da cidade ainda está destruída. Os moradores não se sentem seguros para sair de casa. Algumas cidades vizinhas estão completamente abandonadas, as portas das casas, abertas.

Trincheiras e carros queimados margeiam a estrada que leva a Qayyarah. Bombas improvisadas eram vista por toda parte até bem pouco tempo atrás.

Mas a situação não impede Umm Tarek de abraçar sua autonomia. “Agora estamos livres”, disse ela, sorrindo. E, com isso, ela ergueu os braços para exibir seu vestido, as contas coloridas cintilando na luz da tarde.

Kamiran Sadoun contribuiu de Qayyarah.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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