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Vamos chamar o estigma da saúde mental daquilo que realmente é: Discriminação

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As pessoas com problemas de saúde mental são tratadas diferentemente de todas as outras.

Não é segredo nenhum que a doença mental é cercada por um véu de vergonha.

Quase um em cada cinco adultos americanos sofre um transtorno de saúde mental em qualquer ano dado. Mas apenas 25% das pessoas com uma condição psicológica sentem que as outras pessoas são compreensivas ou compassivas em relação à sua doença, revelaram os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA.

Geralmente descrevemos essa dissonância como estigma, mas é um equívoco.

Os estereótipos negativos que humilham as pessoas com doenças mentais e as impedem de procurar ajuda não constituem mero estigma: são discriminação. É uma ideia preconcebida negativa e declarada em relação a um certo setor da população.

A visão da sociedade em relação à doença mental não resulta apenas em estereótipos negativos, como deixa entrever o termo “estigma”, diz Kana Enomoto, vice-administradora da Administração americana de Serviços de Abuso de Substâncias e Saúde Mental (SAMHSA).

Ela gera comportamentos e políticas que, concretamente, dificultam a vida das pessoas que já enfrentam desafios de saúde mental.

“Nós, na SAMHSA, não usamos a palavra ‘estigma’”, comentou Enomoto na semana passada numa reunião na Fundação Nacional de Imprensa de jornalistas que cobrem temas ligados à saúde mental. “Se você procurar a palavra ‘estigma’ no dicionário, verá que ele diz respeito a um sinal de algo vergonhoso.”

É verdade que as pessoas com doenças mentais são ensinadas a sentir vergonha: a acreditar que possuem uma deficiência de caráter que é vergonhosa, que “está tudo em sua cabeça” ou que é algo que elas “precisam superar, e pronto”.

Mas o tratamento coletivo que damos às pessoas com doenças mentais ultrapassa isso de longe.

As pessoas com uma doença mental têm mais chances de deparar-se com policiais que de conseguir assistência médica durante uma crise psicológica. Hoje há mais pessoas com doenças mentais em prisões e cadeias que em hospitais. Elas são acusadas de cometer violência, mas é mais provável que sejam vítimas de violência.

Há mais sem-teto com doenças mentais do que sem. As pessoas com doenças mentais são vistas como um perigo para a sociedade, para as outras pessoas e para elas próprias.

O Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais define a discriminação como alguma coisa que “ocorre quando um indivíduo é tratado menos favoravelmente que outra pessoa em situação semelhante por uma razão relacionada a um terreno proibido”.

Em outras palavras, quando uma pessoa é tratada incorretamente ou vista com outros olhos do que outra pessoa, com base em suas circunstâncias.

Isso não parece familiar, em se tratando de doença mental?

Há 400 anos o medo alimenta a discriminação contra doentes mentais

A ideia de que a doença mental é um defeito ou falha data de séculos atrás. No início do século 18, pessoas com problemas psicológicos muitas vezes eram encarceradas ou isoladas devido a seu comportamento, frequentemente porque não se sabia o que mais fazer com elas.

No início do século 19, a ativista Dorthea Dix começou a mudar a visão comum acerca dos transtornos psicológicos, abrindo hospitais para indivíduos com doenças mentais. Mas foi mais ou menos nessa época que começaram a ser realizadas polêmicas cirurgias cerebrais para “acalmar” pacientes que apresentavam sinais de doença mental grave. Essas cirurgias acabaram resultando no que hoje é conhecido como lobotomia: a manipulação cirúrgica do lobo cerebral pré-frontal.

As atitudes e os métodos de tratamento e atendimento atuais estão muito distantes do que era feito naquela época, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

Vejamos a narrativa feita pelos políticos. Eles empregam termos associados à doença mental como insultos para denegrir seus adversários. Culpam transtornos de saúde mental por tragédias nacionais. Há até um recuo e discussão em relação a reformas da saúde mental. Mas o problema não se limita ao Capitólio. Muitas facetas da vida incluem atitudes negativas em relação às doenças mentais:

Polícia: Muitos policiais não sabem lidar com um problema de saúde mental quando se deparam com isso. Tome-se, por exemplo, o caso de Charles Kinsey, o cuidador de saúde mental baleado pela polícia quando estava assistindo um homem com autismo na Flórida.

Muitas pessoas argumentam que aquele incidente foi um indício claro de que a polícia não tem uma ideia clara de como suavizar crises de pessoas com problemas de saúde mental ou transtornos psicológicos.

O local de trabalho: as pessoas com problemas de saúde mental têm muito medo de revelar sua condição no trabalho, temendo sofrer um castigo profissional. Esse medo pode manifestar-se no escritório e afetar a lucratividade da empresa: cerca de US$193 bilhões em receita são perdidos todos os anos devido a problemas graves de saúde mental.
Medicina: nem sequer os médicos levam a saúde mental tão a sério quanto deveriam.

Um estudo publicado este ano no periódico Health Affairs constatou que os clínicos gerais frequentemente deixam de marcar retornos com seus pacientes depois de estes terem recebido diagnóstico de depressão e que eles têm menos chances de ajudar seus pacientes a administrar a doença. Eles têm probabilidade maior de traçar estratégias de assistência a pacientes que sofrem doenças físicas crônicas, como diabetes.

A transformação começa com o uso de linguagem precisa

Para fazer frente à visão geral negativa dos problemas de saúde mental, é preciso primeiramente incentivar as pessoas a discutir o assunto mais abertamente. Como revelam pesquisas, se isso não for feito, as pessoas não vão procurar a assistência médica de que necessitam, assistência que pode levar à sua recuperação.

Os problemas de saúde mental não tratados podem resultar em perda de produtividade, maus hábitos de sono e fazer a pessoa fugir de situações sociais. Nos casos piores, podem ser um fator importante a resultar em suicídio, que é a décima maior causa de morte nos Estados Unidos.

Em última análise, não é preciso apenas mudar atitudes e ideias – é preciso chegar à raiz do problema, superando obstáculos sistêmicos. Isso significa mais treinamento em saúde mental para policiais e paramédicos, mais políticas que ajudem pessoas com doença mental a conseguir a assistência que precisam de profissionais médicos, mais aceitação no trabalho e mais iniciativas no trabalho para apoiar indivíduos que enfrentam um problema psicológico.

É claro que nem todo o mundo é legislador, CEO de uma empresa ou alguém que possa implementar programas para policiais ou paramédicos. Mas o cidadão comum pode contribuir com sua opinião. Uma maneira simples de começar é questionar os julgamentos feitos sobre pessoas com doenças mentais, rotulando-os como exatamente o que são: a intolerância em relação a um grupo de indivíduos.

Encarando essas opiniões de maneira mais dirigida, as pessoas podem levar a questão mais a sério, segundo Enomoto.

Porque não estamos apenas diante de um sinal de algo supostamente vergonhoso, estamos diante da discriminação pura e simples.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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