Huffpost Brazil

'Eu não sei como mantive a calma', diz pesquisadora sobre black blocs entrevistada por Jô Soares

Publicado: Atualizado:
ENTREVISTA JO
Reprodução
Imprimir

O programa do Jô Soares da madrugada desta terça-feira foi palco de uma saia justa entre o entrevistador e três convidados. Jô recebeu a socióloga Esther Solano e os jornalistas Bruno Paes Manso e Willian Novaes, que juntos escreveram o livro Mascarados: a verdade história da tática black bloc.

O que tinha tudo para ser uma conversa tranquila entre escritores - afinal Jô Soares tem vários livros publicados e é um leitor assíduo - virou um grande desentendido. Jô demonstrou que não leu a obra dos pesquisadores e começou perguntando por que os autores escolheram um tema "tão tenebroso" como os black blocs para escrever um livro.

Para piorar, Jô Soares comparou os manifestantes aos nazistas e disse que já viu black blocs com suásticas em protestos. A pesquisadora Esther Solano negou e disse que, se houvesse, seria uma minoria. "Por um indivíduo você não pode intitular o resto, né? Um não é massa", rebateu.

Em um segundo momento da entrevista, Jô chegou a acusar os pesquisadores de serem parciais e a favor dos black blocs. Até tentou tirar graça com a proximidade da socióloga com os manifestantes. "Mas você tirou de letra, né? Levou bomba, gás, até almoçou com eles", disse o apresentador. "É, porque pesquisas são assim. Você vai a campo para entender. Fiz a mesma coisa e também pesquisei as pessoas que pediam intervenção militar no Brasil", afirmou Solano.

O HuffPost Brasil conversou com a socióloga por telefone sobre o livro e a entrevista desastrosa na TV Globo. "Causou bastante desconforto porque você leva especialistas e não pergunta, mas sim encurrala", disse. "Eu não sei como mantive a calma, sinceramente", complementou.

Após a repercussão da entrevista, Jô Soares ligou para os pesquisadores se desculpando pelo episódio.

"Esta entrevista vai entrar para minha biografia! Eu sou espanhola, com sangue quente. Não teria como não responder, mas lógico que o desculpo", disse Solano.

Leia a entrevista com Esther Solano sobre os black blocs:

Huffpost Brasil: O Jô Soares tentou em diversos momentos da entrevista comparar os black blocs aos nazistas. Como é que você vê essa comparação e manteve a calma naquele momento?

Esther Solano: Eu não sei como mantive a calma, sinceramente. Ele estava bastante descontextualizado. Imagino que ele não tenha lido o livro antes da entrevista e que já tivesse uma opinião própria e um preconceito prévio. O problema é que ele não deu espaço para darmos as explicações. A gente foi lá simplesmente para tentar explicar a pesquisa. Foi uma pesquisa muito demorada, com um ano e meio, e o rigor máximo que a gente conseguiu. Foi um pouco desagradável o fato de tentar explicar fatos polêmicos e ver que no final ele insistiu neste preconceito. Causou bastante desconforto porque você leva especialistas no tema e não pergunta, mas sim encurrala. Hoje ele se desculpou e achei que foi um ato elegante ele ligar pra se desculpar.

Ele citou que viu a suástica nazista em alguns black blocs aqui em São Paulo. Isto faz sentido?

Nada a ver. Ele disse que viu, tudo bem. Eu respeito. Mas em tanto tempo de pesquisa, nunca vimos a suástica em um black bloc. Não faz sentido nenhum. Não tem nada ver com a ideologia e com o comportamento. Esta comparação com a Alemanha nazista está fora de todo o contexto. Não tem nenhuma razão e está fora da realidade.

O Jô acusou vocês de serem parciais a favor dos black blocs….

Eu fui acusada disto muitas vezes na minha vida por essa interpretação de que o pesquisador que pesquisa um grupo precisa ser favorável a ele. Mas não tem nada a ver. Um sociólogo deve dar voz a um grupo como qualquer outro. Eu disse isso pra ele. Minha opinião individual não importa, mas sim os dados que eu trago. Dois anos depois, eu estava na Paulista pesquisando o grupo pró-impeachment. Nós sempre tentamos ser absolutamente imparciais.

Nós vimos os black blocs surgindo com muita força nos protestos de 2013. Agora a gente teve novos protestos em 2016 e 2015. Você acredita que continua o mesmo perfil de black bloc?

Não são os mesmos. Os que eu entrevistei não continuam mais na rua. Eles tiveram problemas com a polícia e foi muito desgastante. É uma forma de protesto que desgasta muito. O que eu vejo agora é um perfil mais jovem, um pouco da politização dos secundaristas. E estou curiosa para saber o que vai acontecer agora com a PEC 241, se os black blocs vão aparecer ou não, se vão protestar contra o Temer. Houve uma mudança de personagem, sobretudo porque eles são mais novos, mas a ideologia é a mesma. O conteúdo das narrativas são muito parecidos.

Durante a entrevista, você tentou falar sobre qual a mensagem que os black blocs tentam transmitir. O que eles querem falar para a sociedade?

É um pouco a ideia de que eles sempre vão aos protestos de esquerda, como passe-livre, secundaristas, contra a Copa. Eles buscam a visibilidade pela violência simbólica. É a ideia de que “nós não somos os vândalos, o vândalo é o Estado, a polícia, o sistema”. Perpassa muito a ideia de confronto com a polícia. Muitos deles são de regiões mais periféricas e acreditam muito nesta perspectiva. Eles falavam muito que na quebrada eles sofrem muita violência, mas que lá ninguém se importa. E quando eles vêm para o centro da cidade eles têm visibilidade. A violência é uma forma de comunicação. Um meio de comunicarem essas outras violências sistêmicas. Quando eles vão aos protestos e cospem na cara do policial, é a forma de se vingar do que eles passam na periferia. Este discurso de ódio contra a polícia aparece fortemente nas entrevistas.


Você acha que é um movimento que ‘vai e vem’, como algo sazonal ou considera que os black blocs conseguiram se estabelecer como um grupo atuante?

Eles não são um grupo de fato. É uma questão muito dinâmica, mutável, fluída. É uma tática, na verdade, e qualquer um que adere aos princípios pode se definir como black bloc. É uma coisa muito contextualizada. É um momento específico, é um protesto que eles gostam da causa e que aproveitam para saírem de preto e mascarados. Tem muito a ver com o momento, com o contexto. Nada é fechado, nada é definido. Um dia eles podem sair como black blocs e outro dia não. É a forma que eles vêem o momento. É um momento específico, porque eles aderem porque gostam da causa.

Lá no começo do século 21, quando tivemos manifestações antiglobalização, nós tínhamos os chamados punks aqui no Brasil, que faziam o mesmo papel dos black blocs. O que você acha que difere essas duas denominações?

Na verdade, os punks foram os primeiros que introduziram esta ideia da violência simbólica. A fonte deles foi este movimento. É o percurso inicial. Fundamentalmente a ideia de que a violência é uma forma legítima de protestar porque você consegue levantar um debate e expor a violência da polícia. É uma estratégia.

Os black blocs são criticados pela violência nos protestos. Por outro lado, a polícia também tem usado força excessiva nas manifestações. O que você observa desta dicotomia?

Eu acabo achando um pouco hipócrita. Nós falamos o tempo todo dos black blocs como o inimigo número um, em um país que temos mais de 50 mil homicídios por ano. É uma coisa mínima comparada com a violência diária e sistêmica. Vamos falar da violência que realmente interessa? Vamos falar das múltiplas violências. Eles falam isso: não é só a violência da política. Quase 50% dos lares brasileiros não têm esgoto, as escolas sucateadas também são violência, corrupção também é violência. Estas são violências muito mais brutais.

No final, você desculpou o Jô?

(risos). Esta entrevista vai entrar para a minha biografia! Eu sou espanhola, com sangue quente. Não teria como não responder, mas lógico que o desculpo.

Também no HuffPost Brasil

Close
12 pessoas que seriam excelentes substitutas de Jô Soares
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção