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Maria Filó cria estampa de roupa com desenhos de escravos e revolta consumidores

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É preciso estar muito alienado para desconhecer que o período de escravidão foi traumático para a história do negro no Brasil, que sofre ainda hoje com o seu principal resquício: o racismo.

Ainda assim, a marca Maria Filó resolveu retratar uma cena desse violento período como estampa de roupas de sua nova coleção, batizada de Pindorama.

A imagem mostra uma negra escravizada com um bebê nas costas e um cesto na cabeça. Ela serve uma senhora branca, ao lado de outras quatro mulheres negras que cozinham em um tacho.

A cliente Tâmara Isaac, que é negra, se deu conta do retrato racista em uma das lojas da marca no Rio de Janeiro e resolveu tratar sobre o absurdo em seu Facebook. Seu texto chamou a atenção de milhares de pessoas e chegou até a marca.

No relato, ela conta que ficou em choque assim que viu o cabide da blusa com a estampa em questão:

"Confere? É uma estampa de escravas entre palmeiras? É uma escrava com um filho nas costas servindo uma branca? Perguntei à vendedora se aquela estampa tinha alguma razão de ser ou se era só uma estampa racista mesmo. Ela, me dirigindo a palavra pela primeira vez, não soube responder.”

Leia a íntegra do texto:

"Hoje, fui procurar umas blusinhas bacanas para comprar e entrei na loja da Maria Filó. Entrei e ninguém me me cumprimentou ou falou qualquer coisa comigo, minutos depois, entrou uma mulher branca, prontamente recebida com um: "Boa tarde! Se precisar de algo é só falar". Até aí, nenhuma novidade, só mais um dia normal na vida de um negro. Começo a olhar as roupas e me pergunto: Confere? É uma estampa de escravas entre palmeiras. É uma escrava com um filho nas costas servindo uma branca? Perguntei à vendedora se aquela estampa tinha alguma razão de ser ou se era só uma estampa racista mesmo. Ela, me dirigindo à palavra pela primeira vez, não soube responder. Entrei no site da marca, com a esperança de que houvesse algum sentido naquilo, mas só encontrei uma marca que não satisfeita em representar somente mulheres brancas achou que esse Toile de Jouy de escravas seria de muito bom gosto."

À Folha de S. Paulo, a servidora púbica de 29 anos disse que o que mais a incomodou foi o fato de ninguém da cadeira de produção se incomodar com uso de uma imagem que, nesse contexto, faz apologia ao racismo.

"Foi isso o que mais me revoltou. Uma pessoa teve uma péssima ideia. Mas ninguém, em toda linha de produção e divulgação do produto, percebeu que usar esse período da nossa história como recurso estético para vender roupas seria absurdo. Isso é o que me deixa mais indignada. A vendedora foi gentil, me falou sobre o nome da coleção, mas não soube explicar o motivo. Ela ficou bem sem graça, na realidade. Provavelmente ela nem reparou que não tinha me atendido quando eu entrei na loja. Esse racismo velado é tão constante que as pessoas nem se dão conta.”

Ao jornal Extra, Tâmara disse estar acostumada com o racismo no dia a dia, mas que neste caso ficou surpresa com a naturalização da agressão:

"As pessoas não acham que é um problema . E não veem como isso é danoso e agressivo. Sendo uma pessoa negra, a gente encontra racismo todo dia, mas esse (da estampa) é muito evidente. O que me deixou mais chocada é pensar em quantas pessoas acharam normal essa estampa."

Procurada pelo jornal, a marca afirmou em nota:

"A Maria Filó esclarece que a estampa em questão buscou inspiração na obra de Debret. Em nenhum momento houve a intenção de ofender. A marca pede desculpas e informa que já está tomando providências para que a estampa seja retirada das lojas.”

"Eu acho que é o mínimo, dado que essa estampa não deveria nem ter sido comercializada. Mas acho que uma nota de retratação, endereçada ao povo negro, caberia", disse Tâmara à Folha.

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