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Quem é Gim Argello, o coronel de Brasília condenado a 19 anos pela Lava Jato

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GIM
Gim Argello foi preso em abril deste ano | Reprodução/YouTube
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Condenado a 19 anos de prisão pelo juiz Sérgio Moro, na Operação Lava Jato, o ex-senador Gim Argello (PTB-DF), 54 anos, paga o preço de um milagre.

O político de R$ 1 bilhão de reais sintetiza o que só pode ser entendido como obra divina — a multiplicação de seus bens à enésima potência. E até uma igreja ele conseguiu emplacar na cartilha da corrupção.

Ex-corretor de imóveis, Gim aprendeu a fazer política na Praça do DI, em Taguatinga, uma cidade do Distrito Federal - distante 25 km do Congresso Nacional, onde aperfeiçoou a arte no exercício do mandato de senador.

Gim não teve pai político, mas soube a quem se aliar, teve bons padrinhos, como o ex-governador do DF Joaquim Roriz e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

Da água para o vinho

Na política brasiliense, enquanto deputado distrital pelo então PFL, Gim deixou sua marca ao exercer o poder da transformação da destinação de áreas públicas. Foram, segundo levantamento feito em 2007 pelo Correio Brasiliense, 576 propostas com esse objetivo. Ele convertia parcelamentos públicos em lotes para moradia. Além disso, também apresentou projeto para destinar lotes para igrejas.

Graças a articulações de Gim, terrenos sofreram uma supervalorização. Em 2007, a reportagem do Correio Braziliense citou como exemplo do toque de midas de Gim um terreno comprado pelo ex-deputado Wigberto Tartuce por R$ 15,7 milhões que, graças a um projeto de Gim, foi alçado ao preço de R$ 47 milhões.

Na época, a assessoria do deputado negou irregularidade e afirmou que o levantamento mostrou que ele foi o que “mais trabalhou”.

Atalho para o Senado

No salto mais alto de sua carreira política, Gim chegou ao Senado sem um único voto. Foi beneficiário do escândalo da bezerra que tirou da Casa uma das figuras mais emblemáticas da política brasiliense, o então senador Joaquim Roriz - ainda hoje o ex-governador preferido dos brasilienses, segundo pesquisa do Instituto Paraná, de abril. Gim era suplente de Roriz e por isso assumiu a vaga.

No primeiro dia no Senado, em julho de 2007, Gim foi surpreendido pelo então senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), que cobrou explicações sobre a grilagem de terras públicas.

O constrangimento logo passou, e Gim se tornou um dos caciques do Senado. Seguindo as regras da cartilha da política que o aproximou de Roriz, Gim estreitou laços com os principais nomes do Senado: Renan e José Sarney (PMDB-AP). Deu passos maiores e fez o possível para se aproximar da então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.

A esta altura Gim já havia trocado a praça de Taguatinga por uma mansão próxima à Península dos Ministros, no Lago Sul, o bairro mais luxuoso da capital federal. Vizinho de Dilma, Gim pediu ao jardineiro para avisar quando a ministra fosse passear com o cachorro para que ele pudesse esbarrar com a petista.

Ministro interrompido

A afinidade com políticos proeminentes lhe rendeu bons frutos e quase o tornou ministro do Tribunal de Contas da União (TCU). Ele ganharia uma cadeira vitalícia para vigiar as contas públicas.

Gim se vendeu como ministro do TCU, conseguiu emplacar a própria indicação, mas foi derrubado por ele mesmo. A repercussão negativa da carreira de Gim, sustentada pelas seis ações que corriam contra ele no Supremo Tribunal Federal na época, fizeram que o próprio anunciasse que não queria mais o cargo.

Milagre da multiplicação de bens

Nos corredores do Senado, Gim anunciou que alcançara seu primeiro bilhão. Em pouco mais de 25 anos, Gim viu seu patrimônio se multiplicar mais de 10 mil (!) vezes.

Segundo a reportagem da IstoÉ, a maioria dos bens do ex-senador está em nome de terceiros. Ainda assim, seu patrimônio foi de R$ 805.625,09, em 2006, para R$ 4.504.912,92, em 2014. À reportagem, Gim negou que tenha feito o anúncio do bilhão de reais.

Intervenção divina

A suspeita da Justiça é que boa parte desses recursos que o tornaram bilionário seja oriunda de propina. Segundo o Ministério Público Federal, parte dos R$ 5,3 milhões que o levaram a ser preso na Lava Jato foi movimentada na conta de uma igreja.

A Paróquia São Pedro, de Taguatinga, uma das mais famosas pela atuação do Padre Moacir - ligado ao político - teria recebido R$ 350 mil da OAS.

Lágrimas

Gim nega que tenha acertado com Ricardo Pessoa, dono da UTC, com Léo Pinheiro, da OAS, e com o lobista Julio Camargo, todos presos na Lava Jato, propina de R$ 5 milhões para barrar convocações na CPMI da Petrobras, em 2014.

Segundo Gim, o dinheiro era para financiar a campanha de 2014. O dinheiro teria sido pago em forma de doação para a igreja e eleitoral para quatro partidos, DEM, PR, PMN e PRTB, que formaram aliança com o PTB de Gim.

Em depoimento à força-tarefa da Lava Jato, Gim se emocionou. O juiz Sérgio Moro teve que interromper o interrogatório para que o ex-senador pudesse se recompor. O ex-senador disse que pediu o dinheiro, mas que não recebeu.

Vitória de Pirro

Na última quinta-feira (13), o juiz Sérgio Moro mostrou que não foi convencido pelas lágrimas de Gim. A pena de 19 anos já está sendo cumprida. O ex-senador foi preso em abril, na 28ª fase da Lava Jato, chamada de Vitória de Pirro.

Vitória de Pirro, na explicação da Polícia Federal, "remete à expressão histórica que representa uma vitória obtida mediante alto custo, popularmente adotada para vitórias consideradas inúteis. Em que pese a atuação criminosa dos investigados no sentido de impedir o sucesso da apuração dos fatos na CPI/Senado e CPMI/Congresso Nacional, tal fato se mostrou inútil frente aos resultados das investigações realizadas no âmbito da denominada Operação Lava Jato”.

gim argello

Foto: Reuters

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