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A doença mental é uma questão séria de saúde, não diversão para o Halloween

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Em 2016 ainda é necessário que seja dito: um transtorno de saúde mental não é inspiração para fantasias de Halloween.

O parque temático Knott’s Berry Farm, em Buena Park, Califórnia, recentemente suspendeu sua nova e insensível atração de outono, o brinquedo Fear VR (Medo em Realidade Virtual), depois de críticas de defensores da saúde mental.

O show de horror em realidade virtual incluía um jovem paciente psiquiátrico com supostos “poderes demoníacos”, segundo o jornal LA Times, e tinha sido chamado originalmente FearVR: 5150 – o código usado na Califórnia para indicar a internação à força de pacientes psiquiátricos.

A atração foi fechada na semana passada, e o parque, que pertence à empresa Cedar Fair, divulgou um comunicado à imprensa.

“Na última semana fomos contatados por várias pessoas que manifestaram o receio de que uma de nossas atrações temporárias do Halloween, o Fear VR, fosse prejudicial à imagem das pessoas que sofrem de doenças mentais”, dizia o comunicado.

“Contrariando algumas versões das mídias sociais, nunca houve a intenção de que a atração retratasse doenças mentais.”

A ideia cultural de que doença mental pode ser sinônimo de entretenimento assustador ressurge todos os anos no Halloween.

Além dos parques temáticos, outros tipos de entretenimento, como filmes e fantasias, também perpetuam o mito de que pessoas com doenças mentais devem suscitar medo ou asco.

Veja, por exemplo, estas fantasias insensíveis de “paciente de asilo psiquiátrico”, que vêm com acessórios “manchados de sangue”.

fantasia
PARTY CITY AND HALLOWEEN COSTUMES

Por que esse tema do Halloween não é “apenas diversão”

Esse tipo de retrato inexato e negativo dos transtornos psicológicos não se limita a estigmatizar as pessoas com doenças mentais. Pode influir sobre as gerações futuras, disse ao Huffington PostDoris Schwartz, executiva operacional chefe da Associação de Saúde Mental do condado de Westchester, em Nova York.

“Isso simplesmente perpetua o mito de que pessoas com problemas de saúde mental são perigosas, esquisitas e nocivas”, ela disse.

O Knott’s Berry Farm não é o único parque temático que fecha os olhos para a realidade. O SixFlags New England também lançou uma atração recentemente chamada “Psyco-Path HauntedAsylum” (Asilo assombrado do psicopata), com um médico exibindo seus “pacientes mais loucos e deturpados”.

Um pouco depois de ser lançado o brinquedo, uma petição da Change.org pediu que o parque fechasse a atração, notando que ela “apoia explicitamente o retrato e tratamento desumanizador das pessoas que recebem diagnósticos psiquiátricos e de pessoas que buscam atendimento de serviços psiquiátricos.”

O SixFlags tirou a atração original de seu site, modernizou a apresentação e a intitulou de The ForgottenLaboratory (Laboratório Esquecido).

“O FrightFest delicia nossos convidados com sorrisos e gritos há mais de 20 anos”, disse uma porta-voz do SixFlags New England em comunicado ao Huffington Post. “Nossa intenção nunca é ofender nossos convidados. Para mitigar quaisquer preocupações, optamos por relançar nossa nova atração com um tema diferente.”

Podemos elogiar os parques temáticos por terem fechado ou modificado as atrações, mas também é importante analisar porque elas foram abertas, em primeiro lugar. Especialistas dizem que é sinal de pessoas com transtornos de saúde mental ainda são estigmatizadas.

“O público geral teme as pessoas com problemas de saúde mental”, disse Susan Rogers, defensora na área de saúde mental e diretora da organização National Mental Health Consumers’ Self-Help Clearinghouse. “‘Atrações’ de Halloween como o brinquedo do Knott’s Berry Farm e o do SixFlags exacerbam o preconceito e discriminação já associados às condições de saúde mental.”

O que a sociedade pode fazer

Tudo isso vai muito além da correção política ou da preocupação em não magoar pessoas. Há evidências de que esses estereótipos falsos podem ser fortemente prejudiciais: pesquisas revelam que as percepções negativas que cercam os transtornos de saúde mental podem impedir as pessoas de procurar ajuda.

O apoio médico suaviza os sintomas dos transtornos psicológicos, como a insônia, dores de cabeça, alucinações e pensamentos debilitantes. Os transtornos de saúde mental não tratados também representam um importante fator que contribui para suicídios.

Em vez de criticar os parques temáticos, os dois especialistas concordam que os incidentes devem servir de lição, especialmente agora que as atrações dos parques ou foram fechadas ou foram modificadas de alguma maneira.

“Considerando que a Cedar Fair fechou sua atração devido à nossa atuação, não vejo o que aconteceu como uma debacle”, disse Rogers, que pediu pessoalmente que a atração fosse cancelada. “Para mim, a lição a tirar do que aconteceu é que a defesa da nossa causa funcionou. Defendemos o que é certo e fomos ouvidos.”

Mas não é apenas o setor do entretenimento que precisa rever suas ideias equivocadas sobre doença mental. Rogers explicou que a melhor maneira de promover melhoras como um todo é promover a conscientização sobre questões de saúde mental.

Ao nível individual, isso pode ser feito com a leitura dos relatos pessoais de pessoas que já viveram um transtorno de saúde mental ou simplesmente familiarizando-se com a verdade de que os transtornos psicológicos são comuns: quase um em cada cinco adultos americanos sofre um transtorno em qualquer ano dado.

E, com o tratamento correto, a maioria das pessoas se recupera e vive uma vida plena.

“O medo vem do desconhecimento”, disse Rogers. “Precisamos que o público geral seja mais bem informado.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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