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Arte para cego ver: Exposição de imagens no MIS usa técnica da tactografia

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TATOGRAFIA
MIS recebe exposição para cegos | Reprodução/Felipe Panfili
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As pontas dos dedos tocam a tela e sentem as linhas, os círculos, as ondulações. As linhas ganham forma e são "vistas" por aqueles que não enxergam. A imagem se forma e é interpretada. É sentida.

O Museu de Imagem e Som de São Paulo (MIS-SP) recebe uma exposição de 24 imagens feitas com resina líquida e impressas em alto relevo por impressoras em 3D.

Quem dá vida ao projeto é o fotógrafo brasileiro Gabriel Bonfim. A motivação para criar as obras surgiu de um dilema antigo: há dois anos, o fotógrafo foi convidado para fazer um ensaio do tenor italiano Andrea Bocelli. Ao final do projeto, ele ficou incomodado de não poder apresentar o trabalho final ao tenor, que é cego.

"Ele foi a primeira celebridade internacional do meu portfólio e pela primeira vez eu não tive a oportunidade de mostrar ao fotografado o resultado do trabalho. Para mim, o feedback é muito importante como artista. Então, aquele incômodo ficou comigo", disse Bonfim, em entrevista ao HuffPost Brasil.

O incômodo sentido por Bonfim o fez relembrar de situações vividas na juventude. Quando era estudante, ele dividiu a classe com uma aluna que tem deficiência visual. Marcela Trevisani, hoje professora e pianista, nunca enxergou na vida e seu destino voltou a se cruzar com o do amigo fotógrafo quando ele resolveu adaptar a arte para outras linguagens acessíveis.

"Quando fui fotografar o Bocelli eu retornei à lembrança de Marcela, uma amiga de escola que é deficiente visual desde que nasceu. Não pude deixar de lembrar das situações complicadas que presenciei. Alguns alunos roubavam o material escolar da bolsa dela só para confundi-la. Outros gritavam na sala de aula para atrapalhar, já que sabiam que ela dependia muito da audição para executar tarefas. Mesmo tendo perdido o contato com ela depois da escola, eu fiquei com essa imagem. Eu tinha essa vontade de fazer algum projeto que impactasse as pessoas com deficiência visual. Só não sabia que seria possível justamente com o meu trabalho, que são imagens."

Foi ao conhecer o galerista Renato Rodyner que Gabriel Bonfim foi apresentado à tecnologia 3D. "Foi ali que eu senti que seria a hora de poder mostrar o meu trabalho tanto para o Bocelli quanto para outras pessoas na mesma situação que a da Marcela", argumentou o fotógrafo.

Nascia a tactografia, processo batizado pelo fotógrafo. Na exposição do MIS, o design tridimensional das imagens chama atenção para a riqueza dos detalhes, mas foi justamente essa característica que se tornou o principal desafio de Bonfim.

"A pior parte do processo foi achar uma empresa de impressão em 3D que fizesse o trabalho da forma que eu imaginava. Empresas que prestam esse serviço existem no mundo todo, mas eu fiz diversos testes e não chegava no nível de detalhamento que eu queria. A intenção era fazer que o Bocelli se reconhecesse no toque da imagem, tinha que ter todos os detalhes e reproduzir com a mesma perfeição que uma fotografia."

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Depois de um período de testes, o fotógrafo acredita que tenha chegado a um bom resultado. Pela primeira vez, pessoas com e sem deficiência podem experimentar com igualdade uma obra: a cor branca das imagens foi escolhida para quebrar a ideia de que a cegueira é uma escuridão. E basta afastar-se alguns passos da obra que a imagem difusa é vista por inteiro por aqueles com visão. Já quem tem alguma deficiência visual é convidado para, além de ler a legenda em braile, interagir com a imagem usando todos os outros sentidos.

"A primeira vez que tive uma pessoa deficiente visual ao meu lado experimentando as obras foi pouco tempo antes de inaugurar a exposição. Eu não tenho palavras para descrever a emoção minha e das pessoas em relação ao projeto. É muito difícil para quem enxerga entender o que passa na cabeça deles. A Marcela nunca viu na vida. Quando ela foi reconhecer a imagem, tinha um elemento na tela que ela passou a mão e disse imediatamente: é uma caixa de som, não é? Eu também não sei como é o processo que eles fazem. Só sei que é surpreendente", compartilhou o idealizador das obras.

A mostra tem a curadoria do suíço Thomas Kurer e está dividida em três séries. Duas são dedicadas ao tenor italiano e a outra é sobre o jovem bailarino catarinense Denis Vieira, ex-integrante do Ballet da Ópera de Zurique e atual solista no Ballet de Berlim.

Bonfim está otimista:

"Eu enxergo a tactografia como uma nova linguagem. A partir dela a gente vai conseguir desenvolver melhor a imagem em si, tanto pra quem tem a visão reduzida quanto para quem consegue enxergar. Assim como o braile precisa de tempo para ser interpretado, vamos precisar nos adaptar a essa linguagem. E na exposição a gente sente que essa adaptação varia. Enquanto algumas pessoas demoram 5 segundos para interpretar o objeto, outras demoram 2 minutos ou mais para tatear. É uma técnica que fica como linguagem, como arte. Eu quero que as pessoas usem de forma ampla, para que todos os deficientes possam enxergar a arte. Não importa como."

Serviço

Data: Até 22 de outubro
Horários: terças a sábados, das 12h às 21h; domingos e feriados, das 11h às 20h
Ingresso: gratuito
Local: Av. Europa, 158, São Paulo

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