Huffpost Brazil

Trump perdeu, mas a democracia americana também saiu derrotada

Publicado: Atualizado:
DEBATE
A combination photo shows Republican U.S. presidential nominee Donald Trump (L) and Democratic presidential nominee Hillary Clinton during their third and final debate at UNLV in Las Vegas, Nevada, U.S. on October 19, 2016. REUTERS/Carlos Barria | Carlos Barria / Reuters
Imprimir

Donald Trump perdeu, mas nós, também.

Em 90 minutos de um debate, ele e Hillary Clinton trocaram ataques com um nível de violência digno de “Game of Thrones” – que só pode ter sido divertido para quem o assistiu no Kremlin. Foi como se, sabendo ser impossível chegar à Presidência, Trump estivesse determinado a provar que o cargo não vale a pena.

Trump chamou Clinton de mentirosa, “mulher sórdida” e uma pessoa que “jamais deveria ter o direito de ter se candidatado”, porque é desonesta.

Ela o chamou de mentiroso, predador sexual, “marionete” do presidente russo, Vladimir Putin, e “a pessoa mais perigosa a se candidatar a presidente na era moderna”.

No momento chocante da noite, um Trump amargo mas não curvado se recusou a dizer se aceitaria o resultado da eleição caso seja derrotado – o que é muito provável, se não inevitável.

“Vou ver na hora”, disse ele, despreocupado, como se estivesse discutindo a entrega de materiais de construção para uma obra. “Vou mantê-los em suspense.”

“Isso é horripilante”, respondeu Clinton. “Quando você fica choramingando, não está à altura do cargo.”

A ameaça sem precedentes de promover o caos em vez de admitir a derrota foi assustadora – e pode ser o presságio da continuação de uma cruzada populista que desafia a própria legitimidade do governo.

Mas o tom se encaixou perfeitamente em uma série de debates maliciosos e pouco informativos, encerrada ontem aqui em Las Vegas, cidade que glamouriza o pior lado dos Estados Unidos.

Como Clinton já disse a amigos próximos, ela pode estar ganhando a eleição, mas este não é o tipo de eleição que ela queria vencer, nem a maneira como queria vencer.

Ela pode ganhar de maneira acachapante, mas isso não vai unir o país. Os democratas podem conquistar cadeiras no Senado e na Câmara, mas isso não vai unir Washington nem fazer com que a política funcione melhor.

A fé no nosso sistema de governo está sendo derrubada justamente pelo sistema eleitoral que deveria significar um ritual de renovação.

E nada do que se viu na noite de quarta-feira deve afetar os rumos da eleição.

Nem Trump nem o âncora da Fox News, Chris Wallace, foram capazes de fazer Hillary tropeçar ou perder o controle.

É verdade que ela foi pressionada sobre os emails vazados de sua campanha, mas contra-atacou botando a culpa no presidente russo.

Trump mordeu a isca elogiando Putin repetidas vezes, o mais rico e poderoso patrocinador do terrorismo em atividade no planeta.

Trump tampouco se apresentou como um estadista razoável que ninguém acredita que ele possa ser. Elogiar Putin não foi tudo – ele também afirmou que o presidente da Síria, Bashar Assad era um “cara mau”, mas provavelmente a melhor opção para o país.

Temas como impostos, imigração e economia foram basicamente oportunidades para os candidatos repetirem o que vêm dizendo durante toda a campanha, além da troca de acusações que o país já ouviu diversas vezes.

O melhor momento de Clinton foi sua defesa da tolerância e do respeito pelas mulheres, bem como o de pessoas de todas as religiões e etnias.

O fato de que essa defesa seja tema de uma discussão política – que o respeito não seja algo com o que todos concordem – mostra como Trump baixou o nível da campanha presidencial.

Mas esse rebaixamento impediu que Clinton falasse de esperança. Aparentando irritação, ela não teve a chance – ou, talvez, energia emocional – para mencionar temas inspiradores.

Constantemente no ataque, Clinton mostrou estar disposta a aceitar uma vitória baseada essencialmente na rejeição a Trump.

O republicano, por sua vez, parecia ansioso para causar o maior dano possível ao sistema – na prática fazendo o que a União Soviética não conseguiu: minar a confiança dos americanos em seu próprio governo.

Agências investigativas do governo americano suspeitam fortemente que os aliados de Putin hackearam a campanha de Clinton. Uma torrente de emails comprometedores ofereceram ao país mais evidências do lado maquiavélico da política e das manobras de Clinton para chegar ao poder.

Isso não será suficiente para fazer de Trump o presidente. Mas também não vai ajudar a restaurar a fé dos americanos no governo democrático.

Nossa fé no governo é nosso melhor patrimônio – e o alvo de Putin. Ele acertou na mosca na noite de quarta-feira, em Las Vegas.

Nota do editor: Donald Trump incita regularmente a violência política e é um mentiroso contumaz, xenófobo desenfreado, racista e misógino que prometeu repetidas vezes impedir todos os muçulmanos – 1,6 bilhão de pessoas de uma religião inteira – de entrar nos Estados Unidos.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- Finalmente, a xenofobia dos Trump pode doer no bolso da família

- Trump diz que 'não sabe' se vai aceitar resultado das eleições

- Para 52%, Hillary venceu Trump em debate derradeiro antes da eleição

Também no HuffPost Brasil

Close
13 frases (apavorantes) de Donald Trump
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção