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Em entrevista, Marcelo Freixo fala sobre o ódio de Crivella, a autocrítica da esquerda e o Rio mais 'público'

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FREIXO
YASUYOSHI CHIBA via Getty Images
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Em desvantagem nas pesquisas de intenção de voto para a prefeitura do Rio, o candidato do PSOL, Marcelo Freixo, partiu para o ataque contra seu adversário Marcelo Crivella, do PRB.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Freixo criticou Crivella sobre sua postura durante a campanha e também sobre o livro Evangelizando a África, onde o candidato do PRB, que é evangélico, faz críticas à outras religiões e à comunidade LGBTT, a qual ele classifica como "terrível mal".

"Ele prega o ódio e uma pessoa que prega o ódio não pode ser prefeito do Rio de Janeiro, que tem como marca a diversidade e o respeito às diferenças", disse.

A 'desconstrução' de Crivella tem sido uma das estratégias de Freixo para diminuir a diferença nas pesquisas. No último Ibope, divulgado nesta quinta-feira (20), já caiu a vantagem do senador sobre o deputado estadual. Mas Crivella continua 17 pontos à frente de Freixo.

Na conversa com o HuffPost, o parlamentar também criticou Crivella por não ter rejeitado o apoio da milícia da zona oeste, como o de Carminha Jerominho, que é filha de um miliciano da região. "Achei estranho o Crivella falar que gostava do voto da Carminha Jerominho. Achei muito ruim ele fazer isso", disse. "É um candidato que muda de opinião a toda hora", complementou.

O candidato do PSOL também falou sobre a crise que a esquerda tem enfrentado nas eleições municipais deste ano. Freixo disse que "já era esperado" um fim de um ciclo e argumentou que a crise do PT atingiu todos os partidos do especto político. "Acho que a esquerda precisa se reposicionar no Brasil e voltar a fazer o dever de casa. Ter o trabalho de base, ter um programa a ser seguido", opinou. "Se reaproximar de um trabalho que possa ouvir mais as cidades, de um programa de longo prazo".

Entre as propostas de Freixo está a ideia de aumentar a presença do poder público na cidade, como a criação de uma empresa pública de transporte. Criticado pelo adversário de que isso aumentaria os gastos públicos, o candidato defende o contrário: o enxugamento dos gastos. "Estamos deixando claro que vamos transformar 26 secretarias em 16 secretarias", promete. "Já se paga imposto demais no Rio", afirma.

Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: Na maioria das capitais, a esquerda teve derrotas muito fortes. Em São Paulo, Erundina e Haddad, em Porto Alegre, Raul Pont e Luciana. E aí no Rio você está atrás do Crivella nas intenções de voto. Como o senhor vê esse cenário em que a esquerda está perdendo força?

Marcelo Freixo: Já era esperado. É um fim de um ciclo, que tem a ver com toda essa crise dessa lógica de governabilidade do PT. Isso dialoga um pouco com 2013 e a crise de representatividade da população e com essa lógica insistente petista. Isso, logicamente, gera um resultado nas eleições deste ano. O Rio, neste caso, é um pouco diferente. O Rio tem um cenário de vitória, conseguimos chegar ao segundo turno derrotando o PMDB. O Rio consegue colocar a militância na rua, consegue fazer um trabalho de rede, tem a maior arrecadação de doações voluntárias. Estamos conseguindo resgatar, de alguma maneira, um pouco do que a esquerda perdeu nacionalmente.

A crise do PT impacta diretamente o PSOL?
Atinge toda a esquerda, não tem como não atingir. Mesmo que você não pudesse dizer que o governo Dilma fosse de esquerda, mas a imagem que fica é essa. É inevitável.

Se eleito, o senhor não terá maioria na Câmara Municipal: quase 40 dos 51 vereadores eleitos no início do mês são de legendas sem afinidade com a corrente ideológica do PSOL. Como o senhor acha que conseguirá governar a cidade do Rio sem um contingente mínimo para aprovar seus projetos?

A maioria da Câmara não tem afinidade com corrente ideológica nenhuma. Você tem, na verdade, um conjunto enorme de partidos que elegeram um ou dois. Há uma pulverização muito grande de bairros ou de segmentos. Eu acho que tem de chamar todo mundo pra conversar. Acho que a prefeitura tem condições de fazer um trabalho com transparência, que dê retorno ao bairro onde esse vereador foi eleito. Sem compra ou distribuição de votos ou de empregos. Rompendo com essa velha política. Eu acho que a gente pode conseguir uma maioria republicana, sim.

O senhor disse que é um fim de um ciclo da esquerda. O que o senhor considera que pode ser um novo ciclo da esquerda no Brasil?

Eu acho que é mais fácil identificar o que está acabando do que está nascendo. Na História é sempre assim. Acho que a esquerda precisa se reposicionar no Brasil e voltar a fazer o dever de casa. Ter o trabalho de base, ter um programa a ser seguido. Se reaproximar de um trabalho que possa ouvir mais as cidades, de um programa de longo prazo. Mas o mais importante é fazer uma autocrítica do que não deu certo. De certa forma, fizemos isso aqui no Rio de Janeiro e está dando certo.

Uma das críticas aos candidatos de esquerda é um distanciamento da periferia. Em São Paulo, por exemplo, Haddad foi muito criticado por isso. Nas pesquisas de opinião, Marcelo Crivella lidera em todas as faixas de renda e escolaridade, com certo destaque nas áreas de periferia. Por que o senhor acredita que é o candidato preferido de parte da elite da zona sul e não está indo tão bem nas áreas mais pobres? Suas propostas estão distantes do que a periferia quer?

O Crivella vai bem porque ele é da Igreja Universal, onde ele tem um trabalho que é completamente diferente, por um outro canal. Não porque a proposta dele é melhor, até porque ele não tem proposta. É porque ele tem o trabalho da Rede Universal e da Rede Record. É um instrumento que chega na casa das pessoas e que a gente não tem este instrumento pra chegar. Eu venci o primeiro turno com 11 segundos de televisão. A zona oeste não votou em mim porque não me conhece, não porque me rejeitam. Acho que a esquerda erra quando abre mão do trabalho de base e isso não é só em ano de eleição. Nós fomos muito bem votados em várias regiões da zona norte do Rio. Isso já é resultado deste corpo a corpo. Quando fui eleito deputado estadual, também fui bem votado em várias áreas pobres da cidade. Mas não é um trabalho da noite por dia porque não tem a máquina do Estado e precisa ser feito com paciência. A gente chegou aonde conseguimos nos comunicar melhor.

O senhor já recebeu ameaça de morte por parte das milícias aí no Rio. Semana passada, a Carminha Jerominho, que é filha de um miliciano, gravou um vídeo te desafiando ir até à zona oeste. Como o senhor vê essa questão da milícia na campanha do Rio? Ainda se sente ameaçado?

Sempre. Eles são muito violentos. Mas eu cumpri o desafio. Fiz um comício em Bangu. Quando ela disse que eu não ia, eu fui. Foi ótimo o comício. Temos um núcleo em Bangu muito forte. A zona oeste reconhece esta luta contra a milícia. Milícia, em resumo, é máfia. Tem projeto de poder e é um limitador da democracia muito grande. Domina o território e interfere no processo eleitoral pelo medo, pela imposição ao terror. Achei estranho o Crivella falar que gostava do voto da Carminha Jerominho. Achei muito ruim ele fazer isso.

Se o senhor for eleito vai precisar ter uma relação próxima ao presidente Michel Temer, o qual o senhor considera como "ilegítimo". Como vai ser essa relação?

Vamos negociar conforme a lei determina. Ele é o presidente da República. Lógico que eu tenho a minha opinião pessoal. Não sou que nem o Crivella, que fica mudando de opinião toda hora. É evidente que tenho uma responsabilidade de prefeito e preciso cumprir a demanda da cidade. Vou conversar com quem tiver que conversar. Independente da opinião que tenho, preciso ter uma responsabilidade pública.

Reportagem do O Globo revelou este fim de semana alguns pensamentos de Crivella a respeito da comunidade LGBT e também a outras religiões, o qual ele chamou de terrível mal. Como o senhor vê essas colocações?

É muito grave. O Crivella escreve uma coisa e fala outra. Não dá pra confiar no Crivella. Ele tinha 42 anos na última edição do livro. Ele já era pai, já era adulto. Se preparava para o Senado naquele momento. Diz que os católicos são demoníacos. Diz que as outras religiões abrigam espíritos imundos. Ele prega o ódio e uma pessoa que prega o ódio não pode ser prefeito do Rio de Janeiro, que tem como marca a diversidade e o respeito às diferenças.

O Rio de Janeiro enfrenta sua pior crise financeira da História. Seu adversário e parte da imprensa carioca lhe critica pela proposta de aumentar os gastos públicos, como criar novas secretarias, novas empresas públicas… Como o senhor encara essas críticas? Como aumentar a presença do poder público sem aumentar os gastos?

Isso é uma leitura torta do programa da gente. Estamos deixando claro que vamos transformar 26 secretarias em 16 secretarias. Por exemplo: saneamento seria uma subsecretaria do Meio Ambiente. Existe uma secretaria de obras e conservação e que seriam a mesma secretaria. Existe uma secretaria de governo e casa civil, que se transformariam na pasta de Planejamento. Quando a gente fala em criar secretarias é a partir da ideia de juntar duas pastas. A gente tem uma proposta de enxugamento da máquina para torná-la mais eficaz. A gente não quer aumentar o gasto público em momento de crise. O banco, por exemplo, que queremos criar é a partir do Rio Negócios. É transformar ele em uma agência que possa fazer que esses bancos de investimento, como BNDES, chegue ao microempreendedor e gere fomento. Acho que você pode fazer o poder público mais eficiente. Ter mais transparência e eficiência.

O senhor acredita que para aumentar a presença do Estado o morador do Rio vai precisar pagar mais impostos?

Não, pelo contrário. Já se paga imposto demais. Não é necessário. Com a prefeitura gastando melhor, a gente vai ter mais recursos para investir em outras áreas. Não temos ideia de aumentar impostos neste momento da cidade.

No último fim de semana, o atual prefeito Eduardo Paes (PMDB) foi fotografado com eleitores seus apontando para o seu adeviso. O senhor considera como um apoio à sua candidatura?

Era uma festa de cerveja, bom lembrar. Em um momento de descontração. É bem o espírito do prefeito. Ele nunca me ligou, nunca conversou comigo. O PMDB, inclusive, apoia o Crivella. Tenho divergências profundas com o prefeito - todas públicas -, mas no fundo, sem dúvida, para ele, tenho certeza que ele não gostaria de ver o Crivella prefeito.

*Nota: O candidato do PRB, Marcelo Crivella, foi procurado pela redação do HuffPost Brasil e convidado a dar entrevista. A assessoria do candidato não retornou o contato.

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