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Saiba quais livros de Bob Dylan, o Nobel da Literatura, serão lançados no Brasil; Leia trechos

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Dylan em vitrine da editora Hoffman und Campe, na Feira do Livro de Frankfurt, Alemanha, em 19 de outubro

O universo da literatura está em polvorosa desde que Bob Dylan ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, no último dia 14.

Conhecido principalmente pelas canções de protesto nas décadas de 1960 e 1970, o cantor e compositor folk de 75 anos foi escolhido pela Academia Sueca por “ter criado novas expressões poéticas na grande tradição da canção americana”.

Até hoje, o norte-americano lançou apenas dois livros, pela Simon & Schuster: o emblemático Tarântula (1971), de poesia experimental, e Crônicas – Volume Um (2004), em que o autor relata memórias de quando chegou em Nova York, nos anos 1960.

Na ocasião do anúncio de Dylan como o novo Nobel – o que ele levou cinco dias para reconhecer em seu site oficial –, duas editoras brasileiras anunciaram que colocarão nas prateleiras das lojas livros do cantor e escritor.

A Companhia das Letras lançará The Lyrics 1961-2012, publicação que reúne letras de 33 álbuns do músico, originalmente editada pela Simon & Schuster em 2012. No Brasil, André Conti será o editor.

Já a Planeta dos Livros, pelo selo Tusquets, relançará Crônicas – Volume Um, que a editora já havia editado em seu ano original de lançamento, e para a alegria dos fãs mais engajados, Tarântula.

bob dylan tarantula

A edição brasileira mais recente deste foi 30 anos atrás, pela Brasiliense, com tradução de Paulo Henriques Britto, um dos principais nomes do Brasil na transposição de literatura em inglês para português.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a editora da Tusquets, Raquel Cozer, explicou que a edição de 2004 de Crônicas está esgotada, por isso o novo trabalho em cima da obra para devolvê-la às lojas.

Meses após negociações com os agentes de Dylan, a Tusquets conseguiu os direitos de Tarântula. Cozer conta que a notícia de que a Academia Sueca havia selecionado o ícone folk para receber o prêmio lhe pegou de surpresa: naquela mesma semana, o texto original de Tarântula, em inglês, havia chegado para a editora.

“Esse livro é uma piração absoluta”, diz Cozer. “Dylan escreveu esse livro nos anos 1960 e o guardou, após desistir de publicar. Aí começaram a circular versões ‘piratas’.”

“O Diário da Geórgia começou a publicar trechos, cópias em xerox circulavam por aí e ele ficava nessa dúvida, se publicava ou não, aí os advogados dele entraram na justiça.”

Cozar conta que, ao ser comercializado, a crítica “destruiu” a piração literária de Dylan. Um dos poucos críticos que elogiaram o livro foi Mark Spitzer – ele disse que “poucos” entenderam a obra.

Crônicas ganhará uma nova capa, com a icônica foto de Dylan da edição original.

bob dylan chronicles

“[No livro] Ele fala das influências literárias dele. Fica muito claro que ele estava buscando uma maneira literária e nova de escrever músicas de protestos”, diz. Trata-se das influências que moldaram a obra do artista.

“Fala sobre como Nova York era quando ele chegou por lá, os lugares aos quais ele foi, pessoas que conheceu.”

Dylan tinha a intenção de lançar três volumes de suas memórias, mas apenas chegou a ver a luz do Sol. “Eu, pessoalmente, acho que ele não vai escrevê-los”, opina a editora.

Cozer garante que Tarântula terá uma edição especial, para apetecer os fãs mais apaixonados.

Trechos

A Tusquets compartilhou com o HuffPost alguns trechos de Crônicas. Leia-os abaixo.

“Lou Levy, o chefão da Leeds Music Publishing, levou-me de táxi até o Pythian Temple, na West 70th Street, para me mostrar o minúsculo estúdio onde Bill Haley e Seus Cometas haviam gravado Rock Around The Clock — e dali para o restaurante de Jack Dempsey na 58th com Broadway, onde sentamos em uma cabine forrada de couro vermelho que dava para a janela da frente.

Lou me apresentou a Jack Dempsey, o grande boxeador. Jack brandiu o punho na minha direção.

‘Você parece leve demais para um peso-pesado, vai ter de ganhar uns quilos. Vai ter de se vestir um pouco melhor, ficar um pouco mais na moda — não que vá precisar de muita coisa em termos de roupa quando estiver no ringue; não tenha medo de bater forte demais em ninguém.’

‘Ele não é um boxeador, Jack, ele é um compositor e vamos lançar suas canções.’

‘Oh, sim, bem, espero ouvi-las um dia desses. Boa sorte para você, garoto.’

Lá fora o vento soprava, dispersando nuvens esfarrapadas, a neve rodopiava nas ruas de luzes avermelhadas, tipos urbanos se arrastavam por ali entrouxados — vendedores com orelheiras de pele de coelho que pareciam aqueles troços de falcoaria, vendedores ambulantes de castanha, o vapor subindo dos bueiros.

Nada daquilo parecia importante. Eu tinha acabado de assinar um contrato com a Leeds Music dando a eles o direito de publicar minhas canções — não que houvesse muito para se alardear. Eu ainda não havia escrito muita coisa. Lou me adiantara cem dólares dos futuros royalties para assinar o documento, e para mim estava bom.

John Hammond, que me trouxera para a Columbia Records, tinha me levado até Lou e pedido a ele para que tomasse conta de mim. Hammond tinha ouvido apenas duas das minhas composições originais, mas teve a premonição de que haveria mais.

De volta ao escritório de Lou, abri o estojo do violão, tirei-o e comecei a dedilhar as cordas. A sala era uma desordem: caixas com partituras empilhadas, datas de gravação de artistas afixadas em quadros de aviso, discos pretos, acetatos com selos bran-cos amontoados, fotos assinadas de artistas, retratos vistosos — Jerry Vale, Al Martino, The Andrews Sisters (Lou era casado com uma delas), Nat King Cole, Patti Page, The Crew Cuts —, dois gravadores de rolo, uma mesa grande de madeira castanho-escura cheia de bugigangas. Lou havia colocado um microfone em cima da mesa à minha frente e ligado o fio em um dos gravadores, mascando um charutão exótico o tempo todo.

‘John tem grandes esperanças em você’, disse Lou.

John era John Hammond, o grande caçador de talentos e descobridor de artistas monumentais, que lançou personalidades da história da música — Billie Holiday, Teddy Wilson, Charlie Christian, Cab Calloway, Benny Goodman, Count Basie, Lionel Hampton. Artistas que criaram a música que ressoa através da vida americana. Ele trouxe tudo isso a público. Hammond tinha até conduzido a última sessão de gravação de Bessie Smith. Era legendário, aristocracia americana pura. Sua mãe era uma Vanderbilt legítima, e John fora criado na alta-roda, no conforto e na comodidade — mas não se sentia satisfeito e então seguiu sua paixão, a música, em especial o ritmo vibrante do hot jazz, spirituals e blues, os quais apoiou e defendeu com a própria vida. Ninguém podia barrar seu caminho, e ele não tinha tempo a perder. Mal pude acreditar que eu estava mesmo acordado quando sentei em seu escritório; ser contratado por ele para a Columbia Records era inacreditável. Parecia um delírio.”


“Eu lia muitas páginas em voz alta e gostava do som das palavras, da linguagem. O poema de protesto de Milton, ‘Massacre no Piemonte’. Um poema político sobre a matança de inocentes pelo duque de Savóia na Itália. Eram como as letras de música folk, só que mais elegantes.

O material russo das prateleiras tinha uma presença especialmente sombria. Havia os poemas políticos de Pushkin, que era considerado revolucionário. Pushkin foi morto em um duelo em 1837. Havia um livro do conde Liev Tolstoi, cuja propriedade eu visitaria mais de vinte anos depois — a propriedade de sua família, que ele usava para educar camponeses. Está localizada fora de Moscou, e foi para lá que ele rumou no fim da vida para rejeitar todos os seus escritos e repudiar todas as formas de guerra. Certo dia, quando estava com 82 anos, ele deixou um bilhete para a família pedindo que o deixassem em paz. Foi para os bosques nevados e alguns dias depois o encontraram morto por pneumonia. Um guia turístico deixou-me andar na bicicleta dele. Dostoievski também teve uma vida triste e dura. O tsar mandou-o para um campo de prisioneiros na Sibéria em 1849. Dostoievski foi acusado de escrever propaganda socialista. Finalmente foi perdoado e escreveu histórias para escapar dos credores. Do mesmo modo que eu escrevi álbuns no começo dos anos 70 para escapar dos meus.

No passado, eu jamais havia sido tão entusiasta por livros e escritores, mas gostava de histórias. Histórias de Edgar Rice Burroughs, que escreveu sobre a África mítica, Luke Short, as narrativas sobre o Oeste mítico, Júlio Verne, H. G. Wells. Esses eram os meus favoritos, mas isso foi antes de eu descobrir os cantores de folk. Eles podiam cantar canções que pareciam um livro inteiro, mas em apenas uns poucos versos. É difícil descrever o que torna valioso um personagem ou um acontecimento de canção folk. Talvez tenha a ver com o fato de o personagem ser justo, honesto e franco. Bravura em um sentido abstrato. Al Capone foi um gângster bem-sucedido e conquistou aprovação para mandar no submundo de Chicago, mas ninguém escreve canções sobre ele. Ele não é interessante ou heroico sob nenhum aspecto. É frio. Um peixe-piolho, parece um homem que jamais deu uma volta sozinho pela natureza por um minuto de sua vida. Surge como um bandido ou fanfarrão, como na canção... ‘looking for that bully of the town’. Não é digno sequer de ter nome — aparece como um vampiro sem coração. Pretty Boy Floyd, de outro lado, incita um espírito aventureiro. Até mesmo o nome dele significa algo. Há um quê de indômito e não congelado na baboseira a respeito dele. Ele jamais mandará em cidade alguma, não pode manipular a máquina ou dobrar as pessoas a seu gosto; contudo, ele é real, de carne e osso, representa a humanidade em geral e dá a ela uma impressão de poder. Pelo menos antes de o capturarem no seu fim de mundo.”

bob dylan
Dylan em apresentação no Hop Festival in Paddock Wood, em Kent, EUA, junho de 2012

Crônicas – Volume Um chega às lojas brasileiras pela Planeta ainda em novembro, e Tarântula, em 2017. A Companhia tem previsão de lançar The Lyrics também em 2017.

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