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Por que Luke Cage é um dos mais importantes super-heróis da Marvel

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Desde que Luke Cage estreou na Netflix, a série tem dominado as discussões no universo da cultura pop.

Elogiada pela crítica principalmente por mostrar a dimensão política da negritude, a trilha sonora repleta de hip-hop, R&B e soul, e se inspirar no cinema blaxploitation dos anos 1970, Luke Cage foi criada com base no personagem homônimo dos quadrinhos da Marvel.

luke cage hero for hire

O “super-herói de aluguel” do Harlem se destacou como parte do universo Marvel em séries exibidas pela Netflix – ele apareceu pela primeira vez em Jessica Jones, lançada em 2015, já interpretado por Mike Colter –, mas Luke Cage, em sua origem nos quadrinhos, já era uma estrela: ele destruiu diversas barreiras de representatividade negra ao estrear em 1972.

Para você ter uma ideia, ele é um ícone pop, mais um exemplo de como a Marvel tem a diversidade como fundamento para contar histórias – e, claro, vender os mais variados produtos – e é um dos primeiros personagens negros de peso da editora.

Para entender mais as raízes do personagem, o HuffPost Brasil conversou com o jornalista Sean Howe, autor do livro Marvel Comics: A História Secreta (LeYa, 2013), um glorioso catatau de 560 páginas que investiga profundamente a história da editora de Homem-Aranha, X-Men e Vingadores, entre incontáveis outros personagens.

Injustiça, negritude à prova de balas e protagonismo

“Luke Cage foi o primeiro super-herói negro a estrelar o próprio quadrinho”, explica Howe. “O que por si só já é um marco.”

Isso aconteceu em 1º de junho de 1972, quando Luke Cage, Hero for Hire #1 chegou às bancas.

Criado por Archie Goodwin, John Romita e George Tuska, o herói de aluguel surgiu no ápice da cultura blaxploitation (subgênero de cinema no qual, basicamente, negros são protagonistas e retratados em cenários urbanos, com bastante ação e malandragem).

luke cage

O personagem, nascido Carl Lucas, cresceu no bairro nova-iorquino do Harlem, onde ele fez parte de uma gangue com a qual cometeu pequenos delitos, participou de confrontos com outras gangues locais e serviu a um grande criminoso.

Já adulto, ele se torna policial para se desviar da vida no crime. No entanto, ele é condenado e preso injustamente após drogas serem plantadas em seu apartamento.

Na prisão, ele se voluntaria a um experimento científico para ter, em troca, a pena reduzida. Um erro fatal no experimento faz com que o personagem ganhe força descomunal e pele invulnerável.

“Um nova-iorquino negro não poderia existir fora do contexto da política dos Estados Unidos”, diz Howe. “A origem de Luke Cage é política. Ele é vítima de autoridades racistas.”

Após a cutucada no racismo institucional na Justiça e no sistema prisional norte-americanos, o próximo passo que o personagem dá em sua vida também é simbólico.

luke cage

Ele escapa da prisão e passa a usar o nome Luke Cage. Agora um homem negro literalmente à prova de balas, ele se torna um herói de aluguel para os nova-iorquinos.

O que traz a ele, claro, inimigos para combater – mas amigos para acompanhá-lo também. Ele se alia aos Vingadores, Homem-Aranha, Quarteto Fantástico e Defensores em várias aventuras.

Os personagens coadjuvantes das histórias do “Poderoso” – apelido do protagonista nas HQs – também são significativos. Sejam eles heróis ou vilões, ou estejam entre os tons de cinza entre ambos os títulos, também refletem a vira dura na periferia.

Misty Knight é um exemplo. A dedicada detetive da polícia de NY, famosa pelo black power e pelo braço biônico, tanto já perseguiu quanto ajudou Cage. Conhecedora das ruas, ela prende bandidos baseando-se em um senso de justiça singular.

Tendência de mercado e diversidade

Entre o fim dos anos 1960 e início dos 1970, a Marvel buscava atrair leitores de minorias a seus gibis. Em Vingadores, o feminismo já havia começado a ser discutido e Capitão América e Falcão trazia na mesma revista o super-herói e seu parceiro de aventuras negro, que falava sobre racismo nas histórias.

O interesse da editora, entretanto, não era apenas social: era econômico também.

“A circulação dos quadrinhos da Marvel estava caindo constantemente, junto dos de todas as outras editoras”, conta Howe. “Então, a companhia procurou por tendências fora dos quadrinhos das quais eles poderiam capitalizar.”

Naquela época, o Motoqueiro Fantasma surgiu na esteira da fama de Evel Knievel, antológico dublê de motociclistas. Os filmes blaxploitation, como Shaft (1971), estavam em alta. Surge então Luke Cage, para conquistar, com a ajuda de Falcão e Pantera Negra, leitores negros para a Casa das Ideias.

A série

Disponível na Netflix desde 30 de setembro, o seriado criado por Cheo Hodari Coker abraça com vontade as raízes do personagem.

A maior parte do elenco é formada por atores negros, a negritude do Harlem – o bairro, cheio de vida, histórias e estilo é tão personagem quanto o próprio protagonista – é celebrada e o enredo sinaliza que Luke Cage é uma empreitada feita com preocupação social.

O personagem caminha pelas ruas usando um moletom com capuz e, em um episódio, é parado pela polícia por apenas usar o capuz, em uma referência ao movimento Black Lives Matter.

Nada mais simbólico que um herói negro invulnerável.

Luke Cage tem 13 episódios, com uma hora de duração cada. No elenco, também estão Mahershala Ali (Cottonmouth), Simone Missick (Misty Knight), Alfre Woodard (Black Mariah), Theo Rossi (Shades), Erik LaRay Harvey (Kid Cascavél), Rosario Dawson (Claire Temple) e Sonia Braga (Soledad Temple).

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