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'A Garota no Trem': Filme pode empolgar mesmo quem já leu o livro e sabe o fim da história

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THE GIRL ON THE TRAIN
Universal Pictures
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Este texto contém SPOILERS do filme.

O livro A Garota no Trem, de Paula Hawkins, vendeu mais de dois milhões de cópias nos primeiros três meses depois da publicação, batendo todo tipo de recorde. E isso foi antes do hype antes da adaptação para o cinema, prometendo ainda mais leitores para o thriller.

Então era razoável esperar que Tate Taylor, diretor do filme, soubesse que muitos dos espectadores já tinham conhecimento do que iria acontecer. Três mulheres – Rachel, Megan e Anna – contam suas histórias sobre um assassinato não esclarecido.

Rachel, a personagem do título, acha que encontra provas de um caso entre Megan e seu marido, um casal em que ela repara no trem que toma todos os dias saindo de Nova York. Confirmar a relação a ajudaria a descobrir o autor do crime, mas ela vai questionar sua própria percepção da realidade, questionando sua capacidade de manter-se sóbria tempo suficiente para refletir sobre o que ela acha que testemunhou.

Megan, por sua vez, é uma narradora nada confiável. Ela mistura as histórias do passado e ao mesmo tempo tenta seduzir um terapeuta.

E Anna, a nova mulher do ex-marido de Rachel, reclama da segurança dos seus filhos. As três tramas convergem para um final explosivo, antes que tudo volte a uma certa normalidade.

Como, então, os espectadores vão se manter interessados em um filme que depende basicamente do suspense? É simplesmente o prazer de saber o que vai acontecer? Ou os diretores esperam que o público acrescente algo às adaptações – seja uma conclusão moral, um final diferente ou a atmosfera melancólica?

No caso da visão de Taylor para o livro de Hawkins, é uma combinação das três coisas. (Não vou me conter: a arma do crime é o saca-rolhas. Um homem é assassinado com um saca-rolhas.)

Os diretores esperam que o público acrescente algo às adaptações – seja uma conclusão moral, um final diferente ou a atmosfera melancólica?

A Garota no Trem é um thriller, mas um thriller com propósito. Como Gillian Flynn, Paula Hawkins uniu um livro de suspense com uma conclusão política. Enquanto Garota Exemplar usou o formato do thriller doméstico para explorar o mito da “menina cool”, A Garota no Trem mantém os leitores achando que tudo não passa de um thriller tradicional até o fim, quando se revela que a heroína foi vítima de abuso psicológico pelo ex-marido, um manipulador que a leva a duvidar de suas próprias percepções.

Como a surpresa acontece bem no final, não seria justo chamar A Garota no Trem um livro – ou um filme – sobre esse tipo de manipulação psicológica. Mas a vida da história além das páginas e das cenas na tela, o espaço que ela ocupa na cabeça dos leitores, é devotada a esse conceito. Por que as mulheres gostam de thrillers e histórias de crime? Porque, diz implicitamente o livro, elas reproduzem fielmente as aflições delas: serem alvo de assobios, de cantadas, de manipulações.

No filme, a manipulação é revelada por meio de uma personagem que não está no livro; uma mulher, interpretada por Lisa Kudrow, que conhece o ex-marido de Rachel do trabalho. O ex dela diz para Rachel foi demitido por ter se comportado mal em uma festa do trabalho; mas Rachel descobre por meio dessa mulher que ele foi demitido por manter casos com mulheres.

Essa diferença alimenta as tradicionais comparações entre o livro e o filme – e é uma bela maneira de manter a tensão dos espectadores. Até os créditos finais, queremos saber o que foi alterado.

Mas quem gostou do livro por causa da mensagem pode se irritar com a mudança. A inclusão da personagem parece conveniente demais, e a volta à sanidade de Rachel é pouco realista. Essas manipulações psicológicas podem provocar danos psicológicos de longo prazo – não é um encanto que se desfaz com algumas poucas palavras mágicas.

De qualquer modo, a inclusão do tema tem seu valor se os espectadores saírem do cinema pensando, e conversando, sobre esse tipo de abuso emocional.

E a angústia de Rachel é tratada de maneira diferente e sutil, o que pode encontrar eco junto ao público. O filme é composto quase inteiramente de closes do rosto de Emily Blunt, da parte de trás da cabeça dela e dos vários ambientes em que ela está. A câmera não treme tanto quanto em “Cloverfield” – seria muita distração em uma história que já é complicada graças a duas narradoras pouco confiáveis. Mas os enquadramentos claustrofóbicos criam o sentimento de que a experiência – a confusão de Rachel – é algo difícil de escapar.

Dito isso, o filme pode parecer sufocante. Não há muitos momentos de leveza nem de humor para aliviar o clima. A tensão faz alguns momentos sem graça – como quando Rachel é flagrada acariciando o bebê de Anna do lado de fora da nova casa dela – parecerem muito engraçados.

Como espectadora, isso é inquietante; a manipulação psicológica não é piada. Mas algumas cenas são tão surreais e simbólicas (Rachel derrota seu agressor literalmente com a ferramenta que a ajuda a ser infeliz) que elas ficam melhor nas páginas do que na tela.

Ainda assim, só quando assistimos a uma história podemos ter a sensação de imersão completa em um clima sombrio, uma experiência que tem o objetivo de manipular nossas percepções.

A Garota no Trem estreia no Brasil em 27 de outubro.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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