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Uso de contraceptivos hormonais pode estar associado ao risco de depressão

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DEPRESSO
Adolescentes que usaram adesivo ou DIU apresentaram maior risco | MAX-KEGFIRE VIA GETTY IMAGES
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Se você estiver se sentido um pouco “diferente” desde que começou a usar controle de natalidade baseado em hormônios, não deixe essa observação passar batida.

Um novo estudo de longo prazo com mais de 1 milhão de mulheres na Dinamarca indica que alguns anticoncepcionais hormonais estão associados a um risco pequeno, mas claramente mais alto, de depressão. Além disso, essa ligação entre risco mais alto de depressão e uso de anticoncepcionais é especialmente forte entre as adolescentes.

O estudo acrescenta uma evidência robusta a uma área de estudos que, até agora, tem apresentado resultados mistos.

Algumas pesquisas prévias sugeriram esta associação, mas um estudo indicou que contraceptivos hormonais não resultam em mudança de humor, enquanto outros indicam que anticoncepcionais hormonais na realidade melhoram o humor de algumas mulheres.

Embora muitas mulheres não tenham depressão clínica ou necessitem de antidepressivos logo depois de começar a tomar anticoncepcionais, especialistas afirmam que os resultados sugerem que os médicos que prescrevem contraceptivos para mulheres que os tomam pela primeira vez precisam estar atentos para potenciais mudanças de humor nos primeiros meses.

Trata-se também de um lembrete para as mulheres que começam qualquer tipo de tratamento hormonal, ou iniciam o uso de qualquer outro tipo de remédio: mudanças – boas ou ruins, físicas ou mentais – devem ser discutidas com o médico.

Diferentes métodos anticoncepcionais representam diferentes riscos de depressão

De 2000 a 2013, pesquisadores da Universidade de Copenhague acompanharam mais de 1 milhão de mulheres entre 15 e 34 anos.

Eles anotaram os remédios receitados e os diagnósticos, usando uma base nacional de prescrições médicas e um registro psiquiátrico nacional. Isso permitiu que os pesquisadores observassem quem recebeu e usou anticoncepcionais hormonais e também tomou antidepressivos ou recebeu diagnósticos de depressão.

Eles descobriram que 55% das mulheres e adolescentes ou eram usuárias há mais tempo ou tinham acabado de adotar anticoncepcionais hormonais, incluindo pílula, adesivo, anel vaginal ou DIUs hormonal. Entre essas mulheres, os pesquisadores descobriram que o uso de antidepressivos e o risco de diagnóstico de depressão variava de acordo com a idade e o método contraceptivo, em comparação com não-usuárias.

Em comparação com mulheres que não usam contraceptivos hormonais…

Mulheres que usaram a pílula combinada, uma mistura de estrogênio e progestina, tinham um risco relativo 1,23 vez maior de receber receitas para antidepressivos pela primeira vez. Mulheres tomando pílulas somente de progesterona tinham um risco 1,34 vez maior.

A contracepção hormonal com dispositivos pareceu levar a um risco mais alto que a pílula. Mulheres que usaram adesivos tinham um risco relativo dobrado, enquanto as que usaram aneis vaginais tinham um risco relativo 1,6 vez maior, e as mulheres com DIUs hormonais apresentaram risco relativo 1,4 vez maior.

anticoncepcionais
Fonte: JAMA Psychiatry

Divididas por idade, adolescentes de 15 a 19 anos apresentaram risco ainda mais alto de receberem receitas de antidepressivos. As que usaram pílula combinada tinham um risco relativo 1,8 vez maior, enquanto as que tomaram pílula somente de progestina tinham um risco relativo duas vezes maior. Finalmente, adolescentes que usaram formas não-orais de contraceptivos hormonais tinham um risco relativo cerca de três vezes maior.

adolescentes
Fonte: JAMA Psychiatry

Com relação aos diagnósticos de depressão, os pesquisadores encontraram estimativas similares ou ligeiramente mais baixas do que as receitas de antidepressivos.

Os pesquisadores excluíram da análise todas as mulheres diagnosticadas com depressão ou que tinham usado antidepressivos antes de completar 15 anos ou antes do início do estudo, assim como mulheres que tinham recebido diagnósticos psiquiátricos relevantes.

Mulheres com câncer, trombose venosa ou que passaram por tratamentos de fertilidade antes do estudo também foram desconsideradas, pois isso as impede de usar contraceptivos hormonais. Mulheres que engravidaram foram temporariamente excluídas da análise entre a gestação e os primeiros seis meses depois do parto, para levar em conta os potenciais efeitos da depressão pós-parto.

As emoções da adolescência e outras explicações alternativas

Os resultados levantam questões sobre os efeitos potenciais dos hormônios nas mulheres, especialmente no cérebro em desenvolvimento dos adolescentes, diz Anna Glezer, psiquiatra especializada em saúde reprodutiva da Universidade da Califórnia em São Francisco e fundadora do site educacional Mind Body Pregnancy.

A pesquisa não estabelece de forma definitiva que medicações hormonais causem depressão. Mas alguma forma associação deve ser provável, dado o grande número de mulheres estudadas, as medidas objetivas (como dados reais sobre a compra de remédios, em vez da memória das participantes) e as várias análises usadas para aumentar a precisão dos dados.

Os pesquisadores dinamarqueses teorizam que a progestina, versão sintética da progesterona usada em muitos anticoncepcionais, pode ter parte da responsabilidade no desenvolvimento da depressão. Mas eles ainda não sabem como nem por quê.

Mas uma teoria alternativa sugere que o primeiro uso do anticoncepcional provavelmente coincida com o primeiro relacionamento sério, o que aumentaria o risco de desilusões amorosas e depressão para as adolescentes, afirma Catherine Monk, professora associada de psiquiatria, obstetrícia e ginecologia do Centro Médico da Universidade Columbia.

“É muito importante a possibilidade de que essa associação entre amor, sexo (contracepção) e sentimentos de depressão seja reforçada pelo fato de que a ligação entre contracepção e depressão é mais forte em adolescentes, que estão numa fase de desenvolvimento e procuram um par romântico”, disse Monk. Como Glezer, ela não esteve envolvida na realização do estudo, mas o analisou.

Os autores não dão muita ênfase a essa interpretação, pois a maioria dos adolescentes dinamarqueses usa camisinha em vez de métodos anticoncepcionais hormonais nas suas experiências sexuais.

Também é importante notar que a contracepção hormonal costuma ser prescrita para tratar problemas de humor ligados ao ciclo menstrual, como transtorno disfórico pré-menstrual, diz Monk. Isso pode significar que tanto os anticoncepcionais como os antidepressivos tenham sido prescritos para tratar problemas pré-existentes das mulheres. Mas essa teoria também tem falhas.

“Os dados mostram que os remédios hormonais vieram primeiro, depois vieram os sinais de depressão evidenciados pelas receitas de remédios psiquiátricos e/ou hospitalização. Isso vai contra [essa teoria]”, observa Monk.

Você deveria usar contraceptivos hormonais, então?

Embora os números possam parecer alarmantes, é importante observar que os índices de desenvolvimento de depressão ou de uso de antidepressivos foram muito baixos, no geral. Uma minoria muito pequena das mulheres acabou tendo de tomar antidepressivos ou foi diagnosticada com depressão, tenha ou não usado contraceptivos hormonais.

De qualquer maneira, os resultados servem como um aviso para adolescentes e usuárias de primeira viagem. Todas as mulheres que consideram medicações hormonais deveriam ter cautela e observar suas variações de humor com atenção, diz Monk.

“Para algumas mulheres, esses métodos contraceptivos funcionam muito bem, mas, para outras, talvez não seja o caso”, afirma ela. “Este estudo sugere que é possível que os contraceptivos hormonais possam ser associados a um maior risco de depressão, portanto esse risco deve ser levado em conta.”

Para os médicos, isso significa discussões detidas com as mulheres sobre os potenciais efeitos colaterais dos remédios, que podem incluir mudanças de humor positivas ou negativas, diz Glezer.

Os médicos também deveriam marcar uma consulta de acompanhamento mais cedo do que o normal – especialmente para adolescentes ou mulheres que estão usando esses contraceptivos pela primeira vez --, para analisar o efeito da medicação e eventualmente fazer ajustes.

“Se forem ligeiras mudanças [de humor], eu falaria sobre maneiras de lidar com elas – talvez um período curto de psicoterapia, exercício ou outras mudanças de hábito que possam ajudar a melhorar o humor”, diz Glezer. “Se não houver melhora entre três e seis meses, pode ser necessário mudar a formulação dos hormônios ou então buscar um outro método contraceptivo.”

Glezer também indica que o controle de natalidade hormonal ajuda as mulheres a evitar a gravidez não planejada, que em si está associada a vários outros riscos, incluindo o de depressão pós-parto.

As mulheres também não devem menosprezar suas próprias observações a respeito de mudanças de humor e comportamento como algo “que está só na cabeça”, afirma Monk.

“Estamos na era da medicina personalizada – o tratamento certo, na hora certa, para o paciente certo”, diz ela. “Não existe um tratamento que sirva para todos.”

A pesquisa foi publicada na revista JAMA Psychiatry.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV - Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é gratuito, sigiloso e não é preciso se identificar. O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar uma base de dados com redes de apoio disponíveis. O HuffPost Brasil possui também uma série de reportagens sobre a prevenção do suicídio e a importância de se falar a respeito.

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