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Karol Conká: 'Poderiam ter muitos mais negros na passarela, não apenas uma cotinha'

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KAROL CONKA
Karol Conka no SPFW | Reprodução/Murilo Yamanaka
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Karol Conka já está virando figurinha conhecida dos concorridos desfiles de Reinaldo Lourenço.

Enquanto fãs do estilista faziam fila à espera de algum convite remanescente do lado de fora, a cantora foi a celebridade mais entrevistada, usando um conjuntinho de calça, blusa e colete da última coleção do Rei.

Apesar de preto e branco, o look não tinha nada de discreto e combinou muito com o estilo "tombativo" que a cantora gosta de ostentar.

"Eu sempre trabalhei com o que eu tinha, gostava de ser original. Lembro que na época de escola, pegava o corretivo e fazia umas pinturas na calça, ficava horrível, mas eu achava que aquilo era Karol Conka", contou à ELLE. "Conforme eu fui conhecendo a internet, comecei a pesquisar em inglês sobre mulheres negras e descobri o AfroPunk, aquele festival maravilhoso. Aí fui lapidando algumas coisas, conheci o trabalho de styling e vi que era algo muito louco, que só melhorava o meu estilo".

Uma das integrantes da campanha da LAB, marca que estreia no São Paulo Fashion Week na segunda-feira (24) sob o comando de Emicida e Evando Fióti, Karol não vai conseguir assistir à apresentação por causa de um show, mas diz ser fã do projeto.

"É muito importante o que está acontecendo para o rap nacional. É importante que um selo de música de repente se transforme em um movimento, e a LAB fantasma é um movimento. É a moda da rua, do rap, da periferia dentro de um bagulho que a gente achou que nunca ia acontecer, o SPFW. É um orgulho".

E faz todo sentido que a LAB tenha decidido apostar em um casting 90% negro para este momento. Apesar dos avanços, ainda é notório que a maioria das modelos continua correspondendo a um padrão europeu. "Olhamos para as passarelas brasileiras e parece que estamos olhando para a Suécia", disse Emicida no backstage.

"Eu acho que estamos passando por uma fase de reeducação cultural, eu comento sempre que as pessoas não sabem onde erram, só sabem quando apontam. Não é que eles falam "não vamos colocar negros porque a gente não quer negros aqui", não é isso. É uma questão estrutural, cultural que foi passando, mas a consequência é que realmente não tem" continua Karol.

"Eu não estou aqui porque eu sou negra, eu estou aqui porque eu chamei atenção de certa forma da elite. Poderiam ter muitos mais negros na passarela, não apenas uma cotinha, de um ou dois. Qual é o problema de colocar mais pessoas negras? Cadê os artistas? Por que ninguém convidou esses artistas negros? O que acontece? Tem que ir atrás, e se não sabe, procurar alguém que saiba".

Ainda sobre representatividade na moda, ela aponta que a falta de mulheres que tenham outros tipos de corpos fez com que muita gente se afastasse da moda, por pensar que ela é algo inacessível. "Eu acho que precisavam ter pessoas que também se parecessem mais com aquelas que vemos no dia a dia. Isso já não tem, o que faz com que automaticamente as pessoas achem que a moda é algo muito distante, só para o universo magro, fit".

Mas Karol é otimista e acredita que não só esse cenário ainda pode mudar, como o da valorização da mulher em um contexto mais amplo.

Não à toa, ela lançou há poucas semanas a música 100% Feminista, com MC Carol, e falou que nem sempre se definiu como uma.

"O feminismo chegou pra mim há pouco tempo porque eu não sabia o que era, isso nunca foi trabalhado nas escolas, na cabeça das crianças. Esse meu posicionamento eu sempre tive por causa da minha vó, mas eu soube que eu era feminista quando lancei um álbum e começaram a me chamar assim", relembra. "Aí eu fiquei "mas o que é o feminismo?", até então tinham me ensinado que era uma coisa chata, mas aí eu vi que era todo esse tempo o que eu canto. Que é a menina ser alegre, beber uns drinks, sair pra dar uns rolês, isso também é feminismo. Eu sempre fui feminista, mas eu me descobri feminista há pouco tempo", finaliza.

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