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Bebê passa por cirurgia dentro do útero para retirar tumor. Entenda como isso é possível

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LYNLEE BOEMER
Paul V. Kuntz/Texas Children's Hospital
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Imagine como seria a sua reação se durante a gravidez você recebesse a notícia de que a sua filha tem um tumor e que, para salvá-la, seria preciso realizar uma cirurgia fetal. A mamãe Margaret Boemer, de Lewisville, no estado do Texas, nos Estados Unidos, passou por isso.

Quando ela estava na 16ª semana de gestação, um exame rotineiro de ultrassom, feito em todo pré-natal, revelou que havia algo errado com o bebê, que foi detectado com um teratoma sacrococcígeo. “Esse é um tumor que se desenvolve na região sacral e na maioria das vezes não há indicação de operar antes do nascimento. A necessidade cirúrgica com o bebê ainda dentro do útero é muito pequena – só ocorre em alguns casos específicos”, explica Antônio Moron, Coordenador do Departamento de Medicina Fetal do Hospital e Maternidade Santa Joana, de São Paulo.

Entretanto, o quadro da pequena Lynlee Boemer foi considerado grave pelos médicos, pois o tumor era tão grande que estava competindo por sangue – o que poderia causar insuficiência cardíaca. Como era necessário agir rapidamente, a recomendação foi que a criança passasse por uma cirurgia fetal.

O obstetra Antônio Moron, referência em medicina fetal no Brasil, esclarece como esse tipo de procedimento, conhecido como “cirurgia a céu aberto”, é realizado: “É feita anestesia geral e um corte – como o de uma cesárea, mas um pouco maior – no abdômen. Retira-se o útero do corpo da mãe e, por meio de ultrassom, é mapeado onde está o bebê, a placenta e, no caso relatado, o tumor. Então, é realizada uma abertura no útero no local estratégico em que os cirurgiões irão agir”.

lynlee

Além de teratoma sacrococcígeo, essa intervenção é indicada para tratar outros problemas, como mielomeningocele cervical, encefalocele, tumores de pulmão e quadros de obstrução de traqueia – que podem lesar o pulmão e o coração da criança. Por ocorrer durante a gestação, a técnica pode surpreender, tanto que virou notícia no Brasil e no mundo, mas na verdade ela já realizada há alguns anos – só no Hospital Santa Joana, na capital paulista, por exemplo, a cirurgia a céu aberto é praticada desde 2011 e, atualmente, cerca de 5 a 6 bebês ainda na barriga da mãe são operados mensalmente.

E como qualquer procedimento cirúrgico, esse tipo também apresenta alguns perigos para a gestante e para a criança em desenvolvimento. De acordo com Moron, os riscos variam de impacto prematuro, rompimento da bolsa, infecção, hemorragia e até complicações anestésicas. No entanto, mesmo sabendo das possíveis consequências, Margaret não quis interromper a gravidez – como lhe foi recomendado a princípio – e decidiu se submeter à cirurgia quando estava com 23 semanas e 5 dias de gestação.

O cirurgião responsável pelo caso, Darell Cass – codiretor do Centro Fetal Infantil do Texas e professor de cirurgia, pediatria e obstetrícia do Baylor College Medicine – contou em entrevista ao hospital onde a intervenção foi feita que o momento mais difícil foi abrir o útero. “A parte do feto foi muito, muito rápida. Mais ou menos 20 minutos sobre o feto”, revelou. Cass também explicou que, por causa do tamanho do tumor, foi necessário fazer uma enorme incisão no útero para retirá-lo. O médico relatou, ainda, que em determinado momento os batimentos de Lynlee ficaram incrivelmente baixos: “Ele (o coração) basicamente parou”. Felizmente, a situação foi revertida com medicação e inserção de soro, que refez o volume perdido de líquido amniótico. Depois disso tudo, o útero foi costurado e recolocado na barriga da mãe. No caso da garotinha do Texas, o procedimento durou cerca de 5 horas e foi bem-sucedido: a maior parte do tumor foi removido.

Já a mamãe, Margaret, passou 12 semanas em repouso total e, no dia 6 de junho de 2016, Lynlee finalmente veio ao mundo pesando 2,4 kg, por meio de uma cesárea. Segundo o médico brasileiro Antônio Moron, essa é a via de nascimento mais indicada depois de uma cirurgia a céu aberto pois, no parto normal, há o risco de rotura uterina, além do fato do bebê poder se machucar na hora da descida pelo canal ósseo. Por fim, após 8 dias de vida, a menininha precisou passar por mais uma operação, para remover o restante do tumor e, hoje, com 4 meses, passa bem! Só vale lembrar que, ao contrário do que foi noticiado, a pequena não “nasceu duas vezes”: “Não é certo dizer isso porque na primeira vez ela não ‘nasceu’. Só foi colocada a mão na criança durante a cirurgia, mas ela continuou no cantinho dela junto com a mãe, com a placenta, dentro do útero. A gente só expõe a região que vai operar”, opina Moron.

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