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A internet deixa a nossa relação com o sexo melhor, ou acaba piorando?

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sexo do futuro

É muito provável que você conheça alguém que já marcou encontros pela internet. Hoje em dia, esse tipo de corte é tão comum quanto os dotes do passado.

E esses novos rituais são mais libertadores que as convenções que vieram a substituir – certo?

Talvez você esteja com um drink na mão antes de arrastar aquela pessoa para a direita no Tinder, impressionado com um perfil que não tem fotos de ninguém pulando de pára-quedas.

Talvez a falta de informações pessoais dê um ar de mistério ao processo, um quê de espontaneidade romântica, ainda que a ação, se interpretada literalmente, não passa de uma conexão através de uma tela de vidro.

Talvez você prefira o sistema à moda antiga de sites como Match.com ou OKCupid, nos quais interesses mútuos são considerados precursores para a atração. Muitas vezes – se a experiência minha e dos meus amigos pode ser considerada padrão – as duas coisas não têm muita relação.

Três ou quatro jantares castos com fãs de punk e obcecados por ficção científica foram suficientes para me fazer perder o interesse por esse tipo de procura – mas antes conheci meu namorado atual. O fato de termos nos encontrado online pareceu um golpe de sorte incrível, como se tivéssemos trocado olhares numa sala lotada de gente.

Emily Witt, autora de Future Sex (sexo do futuro, em tradução livre), um olhar novo e completo sobre as mudanças nos relacionamentos românticos e sexuais nas últimas duas décadas, teve uma experiência similar com o OKCupid.

Ela criou um perfil depois do fim de uma parceria na qual ela depositava muitas esperanças, esperando entrar rapidamente em outra relação monogâmica. Mas ela achava que as conversas ao vivo eram muito menos interessantes que as que ela travava pela internet.

Witt suspeitou que isso tivesse a ver com a ideia errônea de que química e compatibilidade prática se confundem. Ela não tinha problemas com casos que começassem pessoalmente – com homens sobre os quais ela sabia muito pouco. Mas, quando a ideia era buscar um relacionamento mais sério, as coisas mudaram.

No fim das contas, ela se propôs uma espécie de desafio: comprometer-se com o celibato até encontrar um relacionamento como o que ela tinha antes.

Não que ela fosse por princípio contrária à não-monogamia; apenas não se identificava assim. As pessoas apresentadas por amigos e as que ela conhecia online não estavam dando muito certo, mas ela também não estava pronta para tentar as alternativas.

Uma doença sexualmente transmissível a deixou com medo de experimentar ativamente, o que parecia ir de encontro ao seu desejo por compromisso. Mesmo assim, ela estava curiosa, por motivos pessoais e jornalísticos, sobre as mudanças no sexo e no romance nessa era de aplicativos.

A internet com certeza derrubou tabus sobre certos tipos de sexo – gay, transexual, grupal, BDSM. “No Google, todas as palavras foram criadas iguais, assim como todas as maneiras de viver sua vida são iguais”, escreve Witt. “O Google confundiu as distinções entre o normal e o anormal.”

É tentador argumentar que esse admirável mundo novo da sexualidade – introduzido pela ambivalência dos mecanismos de busca, pela proliferação da pornografia online e pelo anonimato garantido pelas salas de chat e sites de relacionamentos – é algo necessariamente bom.

Uma das virtudes de Witt é que ela evita fazer julgamentos de valor. É tentador argumentar que esse admirável mundo novo da sexualidade – introduzido pela ambivalência dos mecanismos de busca, pela proliferação da pornografia online e pelo anonimato garantido pelas salas de chat e sites de relacionamentos – seja algo necessariamente bom para nossa sociedade sexualmente reprimida.

Mas a abordagem de Witt em relação a tudo isso permanece aberta e ao mesmo tempo cética. Ela admite ter vivenciado vários mundos diferentes de experiências sexuais como voyeur, pelo menos inicialmente. Seu objetivo era descobrir quem ficou deixado para trás nessas nossas explorações sexuais do século 21.

“A liberdade sexual agora se estende a pessoas que nunca quiseram se livrar das antigas instituições, exceto para demonstrar solidariedade com amigos que o fizeram”, escreve ela no capítulo inicial. “Não estava buscando tantas escolhas para mim e, quando me vi com total liberdade sexual, fiquei infeliz.”

Ao longo do livro, ela se compara a mulheres que encontraram a felicidade em situações sexuais não-convencionais: uma amiga que tem um processo quase profissional para escolher casos fortuitos, uma artista que não só consente como tem prazer em ser tratada de forma degradante, física e verbalmente.

Witt enxerga essas mulheres com o que só pode ser descrito como reverência. Ela aprecia a capacidade de identificar e priorizar necessidades físicas, sejam elas tabu ou não, mas não consegue se imaginar fazendo o mesmo.

O livro a levou a San Francisco, berço do amor livre nos anos 1960 e onde as brasas do movimento ainda queimam. Em vez de comunidades, as pessoas comprometidas com o não-compromisso podem ser encontradas em organizações com o lustro e o vigor das startups.

No OneTaste, grupo fundado na crença do poder da Meditação Orgásmica (MO) – uma prática menos vaga do que possa parecer --, o foco é em consentimento, empoderamento, saúde e limpeza.

A MO envolve um parceiro estimulando o clítoris da mulher metodicamente, durante 15 minutos, em um ambiente confortável em que ela seja incentivada a se liberar de expectativas de compromisso, tornando a transação algo físico, não emocional.

Depois de uma orientação e várias entrevistas, Witt experimentou a MO – mas sentiu-se vazia, como depois de um encontro malsucedido.

Ela já estava questionando o valor da MO quando um homem com hálito de álcool a encarou de forma insistente durante uma atividade matinal que tinha como objetivo quebrar o gelo.

Ela também não gostou da retórica do OneTaste. Um dos líderes da prática afirmou que as mulheres “adoram trepar”, dando a entender que o propósito do sexo é o prazer do homem. Essa declaração não pareceu certa para Witt; significa dizer que a expressão sexual da mulher é um convite para a participação dos homens.

Qualquer mulher que já tenha ouvido assobios na rua – ou seja, basicamente qualquer mulher que já tenha andado na rua – vai te dizer que isso já acontecia muito antes da internet, mas a facilidade de comunicação entre estranhos torna o problema mais prevalente.

Qualquer mulher que já tenha ouvido assobios na rua – ou seja, basicamente qualquer mulher que já tenha andado na rua – vai te dizer que isso já acontecia muito antes da internet, mas a facilidade de comunicação entre estranhos torna o problema mais prevalente. Se uma mulher expressa sua sexualidade, é porque ela deseja qualquer homem que esteja interessado em se relacionar sexualmente com ela, ou pelo menos é assim que pensa muita gente.

Mas, como argumenta Witt, “queria ter mais controle sobre as pessoas com quem vou me envolver sexualmente”.

Como, então, as mulheres podem ter mais controle sobre seus corpos e ao mesmo tempo se abrir para a exploração sexual? A internet, muitas vezes considerada “suja” quando se trata de sexo, é um dos lugares para começar, escreve Witt.

Witt delineia a oposição das feministas ao pornô e à performance, que ela considera limitados. Mulheres que gostam de pornografia, diz o argumento feminista, aderem às visões patriarcais de prazer e não descobrem o que lhes dá prazer genuíno.

Mas em suas primeiras aventuras em sites como o PornHub Witt se sente liberada, apesar de si mesma. Ela tem problema com categorias degradantes – por que MILF em vez de mulheres de mais de 30? --, mas acha que a variedade de prazeres é reconfortante.

Ela conclui que sempre alguém vai querer transar com ela, apesar da narrativa dominante sobre “mulheres que estão ficando velhas”. Nos sites pornô, “mamilos inchados” são um termo desejável, assim como “gordinha”, “mais velha”, “clítoris grande”, “peitos pequenos” e “grávida de nove meses”.

Os aspectos femininos escondidos pelas revistas femininas e pela publicidade são celebrados aqui. Para Witt, perceber isso foi um passo em direção a livrar-se das expectativas sexuais, a descobrir suas próprias preferências.

Assistir pornografia e outros modos de sexo virtual, portanto, poderia ter benefícios na “vida real”, até mesmo para as mulheres. O problema é quando não reconhecemos que muitas dessas comunidades online têm o potencial de perpetuar estruturas de poder opressivas, em vez de desafiá-las.

Para que haja as performances que assistimos e consumimos, tem de haver atores e atrizes – profissionais do pornô e suas versões mais amadoras, as meninas que se exibem nas webcams. Witt conversa com várias dessas mulheres em Future Sex, e o consenso entre elas é que o trabalho é prazeroso, uma maneira de ganhar a vida que ao mesmo tempo oferece uma fuga das convenções ou de relações familiares doentias.

Witt sabiamente não sugere que essas mulheres sejam iludidas ou desempoderadas. Em vez disso, tenta entender melhor a fonte do prazer que elas sentem. Witt visita a filmagem de uma série produzida pelo estúdio Kink, durante a qual a atriz Penny Pax é tocada e estapeada por pessoas da plateia antes de chegar ao orgasmo diante das câmeras, com a ajuda de duas dominatrix.

A série de vídeos conta com uma entrevista com Pax depois da gravação, na qual ela diz: “Foi ótimo, foi incrível”.

Em busca de mais insights, Witt se inscreve no site de webcams ao vivo Chaturbate. Um dos canais mais populares é o de “Edith”, uma menina celibatária de 19 anos que mostra os seios em troca de compras na Amazon e pequenas doações em dinheiro.

Uma reportagem de capa do The New York Observer argumenta que esse tipo de vídeo – na maioria envolvendo meninas se exibindo para homens pagantes – pode melhorar a comunicação dos clientes, em geral pessoas socialmente retraídas no “mundo real”.

Como as duas partes concordam com uma transação em que há pouco em jogo, o relacionamento pode servir como um “teste” antes de um relacionamento real, no qual ambas as partes estão equiparadas.

Mas a reportagem despreza o fato de que a relação envolve pagamento, reforçando a dinâmica de poder segundo a qual o valor da mulher está diretamente ligado ao seu corpo – e o do homem, ao seu dinheiro. O que não quer dizer que esse tipo de relacionamento deva ser punido; ele apenas não é tão revolucionário como sugere o autor da reportagem.

As estruturas de poder do mundo do sexo físico já se enraizaram, tornando o sexo virtual tão complicado de navegar quanto seus predecessores místicos.

Em Future Sex, Witt reconhece isso. Navegando pelo Chaturbate, ela observa que a maioria dos canais femininos envolve uma demonstração de personalidade – “cortando corações de papel para o Dia dos Namorados ou ouvindo músicas de Miley Cyrus” --, enquanto os homens “invariavelmente se posicionam em uma cadeira de escritório preta, junto a uma mesa, com uma iluminação terrível, pau na mão, fazendo os movimentos esperados”.

Até mesmo nesse ambiente supostamente livre, os homens podem praticar sexo de maneira bastante corporal e direta, enquanto das mulheres se espera algo mais próximo de uma experiência. E, como diz Witt, “as performances do Chaturbate têm motivação econômica, além de sexual”.

Muitas das mulheres que ela entrevistou usam o site para ter uma pequena renda, enquanto cuidam de pais doentes e adiam a faculdade, um sonho que esperam estar no horizonte próximo.

No fim das contas, Witt descobre que a pornografia mainstream e os sites de webcam podem ajudar as mulheres a vivenciar o sexo sem risco de doenças, violência ou gravidez indesejada. Mas, para as que fornecem o material – inclusive aquelas que o fazem para se expressar, não por necessidade – ainda há riscos.

Uma mulher disse para Witt que um ex-colega de escola a encontrou no Chaturbate e contou para todas as pessoas do círculo social dela. “O medo de que a conversa seja gravada ou que os dados sejam hackeados perpassam a serenidade do sonho”, escreve Witt.

Parece, portanto, que a internet prometeu paridade sexual, uma fronteira aberta e anônima em que as experiências pudessem se dar sem restrições, com poucos riscos. Mas as estruturas de poder do mundo do sexo físico já se enraizaram, tornando o sexo virtual tão complicado de navegar quanto seus predecessores místicos.

Future Sex foi publicado pela Farrar, Strauss and Giroux.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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