Huffpost Brazil

O que você precisa saber sobre a relação entre remédios para dormir e suicídio

Publicado: Atualizado:
Imprimir

pills paulo fernandes
Segundo especialistas, evidências mostram que os medicamentos sedativo-hipnóticos (como os comprimidos Ambien e Lunesta) estão relacionados a um aumento do risco de suicídio, mas esse dado ainda não explica totalmente quais pacientes correm maior risco

Comprimidos para dormir são comuns. Cerca de 4% dos adultos nos Estados Unidos — o equivalente a dez milhões de pessoas — tomam esses medicamentos, segundo uma estimativa de 2013 do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA.

Apesar do uso generalizado, esses medicamentos podem causar efeitos colaterais bastante alarmantes. A bula do remédio Ambien, por exemplo, alerta que possíveis efeitos colaterais incluem comportamento agressivo, confusão, depressão, alucinações e “pensamentos ou ações suicidas”.

Diante desse quadro, quem deve tomar medicamentos sedativo-hipnóticos, categoria na qual se enquadram comprimidos como Ambien e Lunesta? E quão frequentemente esses remédios realmente causam esses problemas?

Um novo estudo, publicado pela revista American Journal of Psychiatry, diz que a resposta é um pouco evasiva.

A nova pesquisa revisou estudos médicos anteriores para tentar quantificar exatamente quanto um hipnótico poderia aumentar as chances de alguém apresentar pensamento ou comportamento suicida.

Os pesquisadores confirmaram que os comprimidos para dormir estavam relacionados a um aumento dos casos de suicídio, mas, então, as coisas ficaram mais complicadas: Nenhum dos estudos incluídos na revisão fez uma distinção entre pensamento e comportamento suicida causados por abuso ou uso indevido de medicação e aqueles causados mesmo quando usados corretamente.

Em outras palavras, o alerta sobre o efeito colateral pode estar baseado em casos nos quais o medicamento foi usado abusivamente ou onde havia um problema mental preexistente. Ou não. As pesquisas não deixam isso claro.

Pesquisas sobre a relação entre comprimidos para dormir e suicídio são inconclusivas

O novo estudo analisou todas as pesquisas anteriores publicadas sobre a relação entre suicídio ou pensamentos suicidas e 11 diferentes medicamentos hipnóticos atualmente aprovados pela FDA, agência que regulamenta os setores farmacêutico e de alimentos nos EUA, para o tratamento de insônia.

O estudo também incluiu análises da FDA sobre segurança ou comentários sobre esses 11 comprimidos para insônia, bem como relatórios detalhados da agência sobre suicídios relacionados a hipnóticos desde os anos 70.

Os dados sugerem que o risco de suicídio entre pessoas que tomam hipnóticos era de 2 a 24 vezes maior do que entre os que não ingerem comprimidos para dormir.

O risco de suicídio ou pensamentos suicidas associados aos comprimidos para insônia parecem aumentar nos primeiros dias de medicação que, em alguns casos, são acompanhados por outros comportamentos incomuns, como sonambulismo, confusão, alucinações ou paranoia.

Outra grande questão que os dados não responderam: até que ponto sintomas preexistentes de depressão afetam o risco de alguém manifestar pensamento ou comportamentos suicida?

“Será que o simples fato de tomar remédios para dormir o torna suicida? Ou apenas quando você está ou corre o risco de ter depressão?”, pergunta o coautor do estudo, Peter Rosenquist, vice-presidente do departamento de psiquiatria e comportamento de saúde da Augusta University, na Geórgia (EUA).

“Esta é a maior limitação de quase todos os estudos.”

Será que o simples fato de tomar remédios para dormir o torna suicida? Ou apenas quando você está ou corre o risco de ter depressão? Peter Rosenquist, psiquiatra e coautor do estudo

Vários dos estudos que Rosenquist e seus colegas revisaram para esta pesquisa analisavam os resultados de grupos de indivíduos que tomaram vários desses medicamentos para insônia. No entanto, esses estudos não consideraram se essas pessoas já tinham sintomas depressivos ou ocorrências prévias de abuso de álcool ou drogas.

Rosenquist explicou que outra ressalva é que os estudos que têm sido feitos mostraram que as taxas de suicídio eram maiores em pessoas que tomavam medicação para dormir, mas não necessariamente que esses remédios seriam a causa.

“Todos podemos concordar que é melhor prevenir do que remediar. Mas a associação não prova necessariamente a causalidade”, disse.

O que isso tudo significa para pessoas que tomam remédios para dormir?

Esses alertas podem soar ameaçadores, mas não significam que os comprimidos para dormir não possam ajudar as pessoas.

Remédios para insônia com prescrição médica podem trazer benefícios reais para algumas pessoas, se usados nas circunstâncias certas, disse Rosenquist. Mas, com base nas evidências disponíveis, é importante que qualquer pessoa considerando a ideia ou já tomando comprimidos para dormir esteja ciente dos riscos e precauções a serem tomadas, disse.

Estas são as coisas que você precisa saber:

1. Se você sofre de depressão, tomar comprimidos para dormir pode ser perigoso.

É bem sabido que a insônia e a depressão têm uma complicada (e frequentemente entrelaçada) relação. E, se você estiver sendo tratado para ambos os problemas, é importante que todos os médicos estejam em sintonia sobre seu tratamento.

Os dados não mostram que ter sintomas preexistentes de depressão aumenta o risco de suicídio caso você esteja tomando hipnóticos, disse W. Vaughn McCall, também coautor do estudo e presidente do departamento de psiquiatria e comportamento de saúde da Faculdade de Medicina da Geórgia da Augusta University, em entrevista ao HuffPost. Mas uma overdose de comprimidos para dormir pode matar.

“A pílula [pode ser usada] como um meio para concluir uma decisão que já foi tomada”, disse.

2. Os primeiros dias da medicação de hipnóticos são os mais perigosos.

Esteja especialmente atento a qualquer efeito colateral, assim que começar a tomar comprimidos para dormir prescritos por seu médico.

“Nossa revisão mostra que o período de maior risco documentado são os primeiros dias de ingestão da medicação”, Rosenquist disse.

Sinais de alerta de que a medicação não está funcionando como deveria incluem sonambulismo, estado depressivo ou se você se sente pior ou com pensamentos suicidas. Caso sinta qualquer um desses sintomas, PARE de tomar o remédio e ligue para seu médico, recomenda Rosenquist.

3. Hipnóticos podem ser mortais combinados com outros remédios (e álcool!).

Mesmo se cada medicamento for ingerido segundo a dose prescrita, os hipnóticos podem ser mortais se você tomá-los ao mesmo tempo com outros remédios (ou álcool). A morte acidental do ator Heath Ledger, em 2008, é um trágico exemplo.

Assegure-se de que seu médico tenha conhecimento sobre qualquer outro medicamento que você esteja tomando caso ele receite um comprimido para dormir — e certifique-se de que seu médico autorize a ingestão desses remédios ao mesmo tempo.

4. Esteja atento às advertências das bulas.

Pode parecer óbvio, mas vale a pena repetir:

Comprimidos para dormir devem ser tomados segundo as recomendações.

NÃO tome mais do que a dose recomendada.

NÃO tome depois de ingerir álcool.

NÃO misture com outros remédios, a menos que seu médico tenha dado o sinal verde.

Vá dormir cerca de 15 minutos após tomar a medicação — e fique na cama pela quantidade de tempo recomendada até que o efeito do remédio passe (tipicamente de sete a oito horas).

Conclusão: Esses remédios são comprimidos potentes. Tome-os apenas segundo recomendado por seu médico e esteja atento às precauções.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 141, para o CVV - Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é gratuito, sigiloso e não é preciso se identificar. O movimento Conte Comigo oferece informações para lidar com a depressão. No exterior, consulte o site da Associação Internacional para Prevenção do Suicídio para acessar uma base de dados com redes de apoio disponíveis. O HuffPost Brasil possui também uma série de reportagens sobre a prevenção do suicídio e a importância de se falar a respeito.

Viver bem é o tipo de desejo tão universal que se tornou um direito. Mas não há fórmula ou mágica que o garanta, o que deixa, para cada um de nós, a difícil tarefa de descobrir e pavimentar o próprio caminho. A newsletter de Equilíbrio vai trazer a você textos e entrevistas sobre saúde mental, angústias, contradições e alegrias da vida. Assine aqui para receber novidades no fim de semana.

LEIA MAIS:

- Quebrando o silêncio em torno do suicídio

- O sono do brasileiro está cada vez pior. O resultado: Ansiedade, obesidade e depressão

- Dormir torna os antidepressivos muito mais eficazes

TAMBÉM NO HUFFPOST BRASIL:

Close
As 10 melhores posturas de ioga para dormir
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção