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'Escola ideal é a que forma cidadãos preocupados com o País', diz Ana Julia

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ana julia

Veio de Curitiba, a capital brasileira que está nas manchetes há tempos por conta da Lava Jato, a grande personagem até aqui do movimento estudantil contrário à PEC 241, a chamada "PEC do Teto".

Ana Júlia Ribeiro, 16 anos, aluna do segundo ano do ensino médio do Colégio Estadual Senador Manuel Alencar Guimarães (Cesmag), chamou a atenção para as reivindicações dos estudantes ao falar com clareza rara na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep).

"De quem é a escola? A quem a escola pertence? É um insulto a nós, que estamos lá, nos dedicando, procurando motivação todos os dias, sermos chamados de doutrinados. É um insulto aos estudantes, aos professores", afirmou aos parlamentares.

Da tribuna, Ana Júlia afirmou que o projeto Escola Sem Partido “humilha” os estudantes e a PEC 241 “é uma afronta” à Constituição Cidadã de 88. "A gente sabe que a gente precisa de uma reforma do Ensino Médio. Mas a gente precisa de uma reforma que seja estudada. Que precisa ser feita com os profissionais da educação".

Em entrevista ao HuffPost Brasil nesta sexta-feira (28), Ana Júlia falou sobre a rotina das ocupações, criticou a PEC 241 e as propostas de reforma para o Ensino Médio.

"É complicada essa questão do professor por notório saber. Você percebe que a pessoa tem um conhecimento básico. Se você faz uma pergunta um pouco mais complicada, eles podem não saber. E o professor precisa ter um embasamento bom daquilo que está falando", disse ao Huff.

De acordo com balanço divulgado pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), são 1.117 unidades ocupadas. Estudantes têm feito denúncias de ações violentas para reprimir as manifestações. Uma dessas mais dessas ocupações todas deve estar feliz como nenhuma outra.

Ana, que está em sua primeira ocupação, surgiu como porta-voz meio ao acaso - seu colégio não tem nem Grêmio Estudantil -, mas suas palavras fizeram bem aos colegas de ocupação. "Os alunos se sentiram representados e isso é o que mais me importa. Eles gostaram da fala como um todo. Tudo que eu falei a gente já tinha conversado aqui, já tinha discutido em assembleia".

No dia a dia, os trabalhos são divididos entre os estudantes. A hierarquia, tão presente nas salas de aula, é deixada um pouco de lado. "Vai seguindo conforme a organização: Hoje vou fazer a comida. Mas faço de tudo, como todos os alunos. Participo do grupo da comida, da limpeza. Do que precisar. Tudo mundo se ajuda", conta.

Para ela, se pudesse sozinha mudar sua escola, a primeira alteração seria na grade curricular. "Na minha escola, no primeiro e no terceiro do ensino médio têm aulas de História. Mas não temos no segundo ano. Artes a gente estuda no segundo ano, mas não tem no terceiro. É complicado e é uma série de fatores que não depende da escola. Não depende só do professor", comenta.

A preocupação surge quando o assunto é violência. Segundo ela, como já aconteceu em outros colégios, há tentativas de retirar os alunos. Ana conta a noite de quinta para esta sexta foi tensa. "A atuação da polícia não tem sido agressiva aqui no Paraná e até agora ela não está nos prejudicando. Mas é algo para ficar atento. Na realidade, a gente teve um movimento de madrugada. Mas é difícil falar sobre eles. A gente não sabe direito, mas parece que um grupo de estudantes independentes que tentou invadir".

Contra quase tudo e quase todos, como ela mesma disse em discurso na Alep, segue o ideal de mudar a educação no País. Mas como chegar lá? Qual é escola ideal? "A escola ideal é sair dela como cidadãos comprometidos com o futuro do nosso País. Mas a gente precisa estudar as necessidades, conversar como todos para entender o que surge daí". Falou tudo, Ana Júlia.

Confira o depoimento de Ana Júlia aos deputados na íntegra:

O que é a PEC

Chamada de "PEC da desigualdade", "PEC da maldade" ou "PEC da morte" por seus opositores, o texto é criticado devido ao possível impacto negativo nas áreas sociais.

De acordo com a proposta, os recursos para saúde e educação vão se manter em 2017 seguindo as aplicações mínimas previstas na Constituição. A partir de 2018, serão corrigidos pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), publicado pelo IBGE.

De acordo com o novo regime fiscal, as despesas gerais da União serão limitadas com base no valor do ano anterior somado à inflação medida pelo principal indicador de inflação. Apenas a partir do décimo ano de vigência, a proposta poderá ser alterada pelo presidente em exercício.

Protestos

Durante a votação em segundo turno da PEC, parlamentares fizeram um ato para entregar a Maia uma petição da Avaaz contrária à medida, com mais de 332 mil assinaturas.

Senado

Apesar da rejeição popular, a proposta tem apoio dos parlamentares. No segundo turno na Câmara foi a PEC 241 teve 359 votos a favor, 116 contra e duas abstenções. Foram sete votos favoráveis a menos que na votação em 1º turno. Eram necessários 308 para a medida passar.

No Senado, o texto será submetido à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde começará a tramitar para ser votado em plenário. Pelo calendário definido com Renan e líderes partidários, a votação em primeiro turno está prevista para 29 de novembro e o segundo turno, para o dia 13 de dezembro.

Líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE) foi escolhido relator da medida. Ele já sinalizou que não fará mudanças à proposta - o que obrigaria que o texto voltasse à Câmara - a fim de permitir a aprovação ainda neste assim, conforme vontade do Palácio do Planalto.

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