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Por falta de opções, mais pacientes psiquiátricos acabam indo ao pronto-socorro

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A escassez de psiquiatras nos Estados Unidos pode estar onerando os departamentos de emergências hospitalares do país.

O setor de urgências de hospitais é um último e brutal recurso para pessoas com doenças mentais, mas muitas acabam ali porque não têm mais a quem recorrer.

E, segundo pesquisa nova apresentada na reunião de outubro da Escola Americana de Medicina de Urgência, a superlotação dos setores de emergência prejudica tanto os pacientes de saúde mental quanto os de saúde física, que competem pelo mesmo atendimento.

A nova pesquisa, que ainda não foi publicada em um periódico científico revisto por pares (foram publicados resumos no Annals of Emergency Medicine), constatou que 20% dos pacientes psiquiátricos que comparecem a setores de emergência acabam sendo internados no hospital, contra 13% dos pacientes com problemas físicos.

Também é desproporcionalmente grande a tendência de pacientes de saúde mental permanecerem no departamento de urgências por seis, 12 ou 24 horas depois de chegar, indicando que, diferentemente dos pacientes que passam por uma emergência física, os pacientes de saúde mental não recebem a assistência de que precisam para poderem ter alta.

Por que isso está acontecendo? Uma razão importante é o encolhimento dos serviços de saúde mental. Nas décadas entre os anos 1970 e 2010, o número de leitos psiquiátricos hospitalares caiu de 500 mil para 113.500. O resultado disso é que pacientes psiquiátricos vão para a sala de emergências por estarem com problemas mentais agudos e muitas vezes continuam ali enquanto aguardam o atendimento adequado.

Os PSs hospitalares são os ‘depósitos de lixo’ onde se deixam pacientes psiquiátricos.

Dra. Renee Hsia, diretora de estudos de políticas de saúde na Universidade da Califórnia em San Francisco

“Os PSs hospitalares são os ‘depósitos de lixo’ onde se largam pacientes psiquiátricos”, disse ao Huffington Post a médica Renee Hsia, co-autora de um estudo semelhante publicado na Health Affairs em setembro. Na realidade, 80% dos setores de emergência hospitalares acolhem pacientes de saúde mental, cifra que Hsia citou em seu estudo.

Além de onerar os provedores de assistência médica e gerar atrasos no atendimento, uma sala de emergências lotada pode ser seriamente prejudicial a um paciente psiquiátrico gravemente doente.

“Acho que a maioria de nós entende intuitivamente que um ambiente caótico, muitas vezes sem janelas, não é benéfico para esses pacientes”, disse ao Huffington Post a Dra. Suzanne Lippert, autora principal da pesquisa ainda inédita e professora clínica assistente de medicina de urgência na Universidade Stanford.

“Precisamos urgentemente de mais recursos para poder cobrir o atendimento a pacientes internados e prestar um atendimento mais robusto a pacientes ambulatoriais.”

Tudo isso faz parte de uma crise maior e crescente na saúde mental

A situação é ainda mais grave quando envolve crianças. De acordo com a Academia Americana de Psiquiatria Infantil e Adolescente, existem apenas 8.300 psiquiatras praticantes que atendem crianças e adolescentes nos Estados Unidos, sendo que existem mais de 15 milhões de pacientes nessa faixa etária. E, como muitos desses profissionais se concentram em áreas urbanas e de alta renda, crianças que vivem na zona rural ou regiões de baixa renda têm chances ainda menores de ter acesso à saúde.

A não ser que você viva numa área urbana grande, é altamente improvável que encontre um psiquiatra pediátrico.”

Dr. Steven Schlozman, psiquiatra pesquisador da Escola de Medicina Harvard

“É uma loteria”, falou o Dr. Steven Schlozman, psiquiatra pesquisador na Escola de Medicina Harvard e diretor adjunto do Centro Clay para Mentes Jovens Saudáveis do Hospital Geral de Massachusetts. Ele estava falando à Kaiser Health News e não teve ligação com a pesquisa recente.

“A não ser que você more numa área urbana grande, é altamente improvável que encontre um psiquiatra pediátrico.”

À medida que os psiquiatras ativos hoje forem se aposentando, a situação só vai se agravar

A escassez de psiquiatras nos EUA pode se agravar no futuro próximo, à medida que os profissionais de saúde começam a se aposentar. De acordo com a Associação de Faculdades de Medicina dos EUA, quase 60% dos psiquiatras no país têm 55 anos ou mais.

E, infelizmente, os profissionais que se aposentam não estão sendo substituídos em número suficiente por psiquiatras jovens. Alguns estudantes de medicina receiam se especializar em psiquiatria, em parte porque a remuneração tende a ser mais baixa que em outras disciplinas médicas, mas também por achar que o campo não tem o mesmo prestígio que cirurgia ou neurociência, por exemplo.

Veja abaixo a extensão da escassez de provedores de assistência à saúde mental nos Estados Unidos:

profissionais

“Ainda existe um estigma cercando os transtornos mentais”, disse à Associated Press o Dr. Darrell Kirch, psiquiatra e presidente da Associação de Faculdades de Medicina dos EUA.

“Quem sofre mais com isso são os pacientes, mas ainda vemos casos em que a psiquiatria é desvalorizada por alguns profissionais médicos.”

Ainda vemos casos em que a psiquiatria é desvalorizada por alguns profissionais médicos.”

Dr. Darrell Kirch, presidente da Associação de Faculdades de Medicina dos EUA

Sem profissionais graduados suficientes para atender os doentes mentais, alguns americanos buscam ajuda junto a seus médicos de clínica geral, que podem não estar suficientemente equipados para lidar com casos complexos de saúde mental.

Outros vão para os setores de emergência hospitalar. E muitos não estão recebendo o atendimento de que necessitam. Segundo a SAMHSA (o ramo do Departamento de Saúde americano que lida com doença mental e dependência de drogas), em 2014 11,8 milhões de americanos relataram não ter recebido o atendimento de que necessitavam dos serviços de saúde mental.

E, mais uma vez, a falta de atendimento atinge especialmente as crianças e os adolescentes. Em um estudo de 2015 publicado no Community Mental Health Journal, pesquisadores no Ohio telefonaram para 140 setores de saúde psiquiátrica, escolhidos aleatoriamente, procurando atendimento para um paciente hipotético de 14 anos.

O tempo médio de espera para uma consulta: 50 dias.

Para muitos pacientes, isso é tempo demais.

ESCLARECIMENTO: foi acrescentada a informação de que a pesquisa recente da Dra. Suzanne Lippert ainda não foi publicada na íntegra, mas que resumos dela foram publicados no Annals of Emergency Medicine.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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