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Este documentário pede que os homens questionem masculinidade e lutem pela igualdade de gênero

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MAN CHILD
ONU Mulheres lança documentário sobre igualdade de gênero | Sam Diephuis via Getty Images
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Você já ouviu expressões como “lugar de mulher é na cozinha”, “quem usa roupa curta não se dá ao respeito” ou “mulher não sabe dirigir”? Esses são só alguns poucos exemplos do quanto a cultura machista está presente no cotidiano. Por isso, uma iniciativa da ONU Mulheres e do Papo de Homem, viabilizada pelo Grupo Boticário, criou o documentário Precisamos falar com os homens? Uma jornada pela igualdade de gênero.

Tudo começou pela vontade de trazer os homens para a discussão sobre a necessidade de construir novas relações entre eles e elas, sem atitudes e comportamentos machistas, e de desconstruir estereótipos de gênero nocivos. A produção integra o movimento global ElesPorElas (HeForShe), da ONU Mulheres, que visa a igualdade entre os gêneros, o empoderamento das mulheres e o engajamento de homens e meninos nessas novas relações. Em 2014, Emma Watson fez um discurso emocionante sobre equidade e o vídeo também serviu como inspiração para o projeto.

Partindo do princípio de que é essencial não negar a diferença, mas sim a desigualdade, o documentário não propõe um aprofundamento referente às distintas orientações sexuais ou à questão transgênero e suas lutas e desafios. No entanto, defende que homens e mulheres são diferentes e ressalta como ambos os gêneros são afetados pelo machismo, que é institucional na cultura brasileira. O patriarcado, por sua vez, é constituído por estereótipos de gênero que determinam a forma como as pessoas devem ser e se portar perante a sociedade.

Historicamente, as mulheres são socialmente criadas para beneficiar os homens e agradá-los. Seus principais traços devem ser a pureza (a “mulher para casar” deve ser recatada, não beber, não se exaltar, não usar roupas ou linguagem extravagantes), o cuidado (que deve ser visto como um dom, como se ela nascesse para cuidar do marido, das crianças, dos idosos e das tarefas de casa), a fragilidade (se no ambiente doméstico ela é cuidadosa, no público, ela deve ser frágil) e a beleza (com aspectos idealizados, como o corpo magro, pele e cabelos lisos, limpeza excessiva, traços angelicais, além de calada, pouco expressiva, passiva e emotiva).

Enquanto isso, a construção da identidade masculina também é estereotipada sobre alguns pilares. O da cultura do herói (em que é necessária a perfeição moral e física), a expressão da violência (os homens são fortes e as mulheres, frágeis), a heterossexualidade, a restrição emocional (a não permissão social para sentir e expressar suas emoções cria uma inabilidade em se entender e entender o outro, o que pode gerar um comportamento violento), o sexo (hostilidade sexual que incita dominação de gênero, estupro, incesto e assédio), o trabalho (homens no mercado como maioria nos cargos de direção, culturalmente mais aceitos na esfera pública e com maiores salários) e provedor (obrigação de trabalhar e acumular bens materiais para sustentar a família), entre outros.

Os dados que integram o projeto são de pesquisas feitas com 40 influenciadores e especialistas de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife e, em uma segunda etapa, entrevistas com 20 mil pessoas de todos os cantos do Brasil, a fim de mapear atitudes e crenças do povo brasileiro. De acordo com eles, apenas 3% se encaixam no termo “bastante machista” e 23% acham que fazem parte do grupo “nada machista”, quando questionados sobre suas atitudes do dia a dia. Além disso, existe uma enorme discrepância entre homens que afirmam ter cometido e mulheres que alegam ter sofrido com o machismo. Assim, a violência (emocional, sexual, patrimonial, moral ou física), embora amplamente percebida pelas mulheres, ainda é pouco reconhecida pelos homens.

As pesquisas também contam que 66,5% dos homens não falam com amigos sobre medos e sentimentos e 77% deles se preocupam com aparência, mas não comentam sobre isso. Assim, essa masculinidade baseada no medo, que precisa ser provada a todo momento, estimula a violência, a homofobia, a inabilidade emocional e a obsessão pelo poder, dinheiro e sexo, aponta o estudo.

É claro que o ser homem e o ser mulher exigem cargas pesadas e diferenciadas ao longo da vida, mas é difícil comparar as tensões de cada gênero, tendo em vista que o machismo faz com que as mulheres não sejam vistas como indivíduos que merecem respeito, mas como seres inferiores. Hoje, entre as 500 maiores empresas em receita do mundo, menos de 5% possuem CEOs mulheres. No Brasil, 90% do Congresso Nacional é composto por homens. A remuneração delas ainda é 30% menor que a deles no Brasil e a diferença de salários entre um homem negro e uma mulher negra é ainda maior: elas recebem 61% que eles. Além disso, as mulheres ainda realizam seis vezes mais afazeres domésticos que os homens. Como se não fosse o bastante, no mundo, uma em cada três mulheres sofre violência doméstica ao longo da vida.

“Apesar de o machismo causar danos para todas e todos, os homens ainda se encontram em uma situação vantajosa e, muitas vezes, usufruem de privilégios sem se darem conta disso. Como poder sair na rua sem medo de assédio, não ter seu humor taxado como loucura, não ser objeto de desejo desde a puberdade, não ter sua sexualidade reprimida, não ser cobrados exclusivamente pelo trabalho doméstico e muitos outros…” – trecho do documentário “Precisamos falar com os homens? Uma jornada pela igualdade de gênero”

Dessa forma, a produção aponta os homens como parte do problema e também da solução do machismo. Uma das conclusões da pesquisa é que é preciso incentivar homens a serem mais conscientes de suas limitações e exercícios diários de poder e a ajudarem as mulheres a ampliar sua percepção sobre possibilidades de resistência ante as prováveis tentativas de abuso. Lembrando que as pessoas têm dificuldade em reconhecer em si características que elas recriminam, mostrar a alguém próximo que ele tem atitudes machistas, fazê-lo entender isso e questionar modelos opressores e obsoletos são os primeiros passos de uma longa e paciente jornada de mudanças.

“As mulheres vão seguir lutando, as mulheres vão seguir nas ruas, vão seguir no trabalho, vão seguir nas universidades, mas agora precisamos que os homens façam a sua parte. É um momento para que eles revisem suas masculinidades, apresentam a ser homens de outro jeito. O que é muito bom dessa proposta, que é uma proposta das mulheres, uma proposta feminista, é que essa mudança é uma mudança muito boa pra nós mulheres, mas ainda é muito boa pros homens também. Então, é uma situação em que todo mundo ganha”, finaliza Nadine Gasman, representante da ONU Mulheres Brasil.

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