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Com Karnal e Pondé, o conhecimento foi o centro do debate no 'Roda Viva'

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pondé e karnal

Em uma época de supervalorização da informação, o conhecimento e o pensamento crítico ficaram no centro do debate durante o programa Roda Viva da última segunda-feira (31), exibido ao vivo pela TV Cultura.

O historiador Leandro Karnal e o filósofo Luiz Felipe Pondé foram entrevistados pelos influenciadores digitais Hugo Gloss, PC Siqueira (Mas Poxa Vida), Dani Noce e Paulo Cuenca (Danielle Noce), Taty Ferreira (Acidez Feminina) e Cauê Moura (Desce a Letra). O debate foi ilustrado por Carlos Ruas, criador do blog de tirinhas Um Sábado Qualquer.

Karnal e Pondé são co-autores do livro Verdades e Mentiras: Ética e Democracia no Brasil (Papirus, 2016), e são conhecidos por difundir conhecimento com acessibilidade. Suas ideais e falas bem-humoradas frequentemente contextualizam os pensamentos de autores da História, da Filosofia, da Sociologia, da Psicanálise e da Arte.

Com uma notória facilidade para se comunicar com seus públicos - são milhões de seguidores em áreas como moda, gastronomia e humor - os youtubers representavam as novas gerações e foram convidados para discutir com os entrevistados dilemas contemporâneos, como o efeito das redes sociais nos comportamentos, a exposição do eu, a busca pela felicidade, a polarização de opiniões, a produção autoral e as angústias da vida.

O debate enfatizou principalmente questões ligadas ao eu, como as consequências da exposição da vida íntima nas redes sociais e as ofensas trocadas digitalmente.

As perguntas acabaram concentrando seu interesse em um mundo pós-internet, sem referências ao mundo anterior à revolução digital, e as respostas de Karnal e Pondé sinalizaram que algumas das ideias bastante ditas pelo senso comum, como "os relacionamentos ficaram líquidos por causa das redes sociais" e "o conflito na democracia deriva das tensões provocadas na internet" são questionáveis.

Reunimos algumas das melhores discussões trazidas no Roda Viva de ontem, válidas não só para as novas gerações, mas para todos que se interessam pelas relações humanas:

A internet deu voz aos idiotas? - Willian Corrêa, que apresentou o programa ontem

"Acho que o que ele [Umberto Eco, autor da afirmação] disse é verdade em termos de quantidade. O Nelson Rodrigues falava uma coisa semelhante sobre a democracia, que quando você amplia a base das manifestações, acontece tudo. O que eu acho interessante num é tanto a fala do Umberto Eco, nem à do Nelson, que se referia à democracia de forma semelhante, mas como isso gera uma comoção gigantesca porque a gente vive uma época em que as pessoas se ofendem com tudo e eu acho que isso tem a ver também com o grau de comunicação muito amplo que a gente tem hoje. Todo mundo se ofende, todo mundo quer ser reconhecido por aquilo que lhe caracteriza. Então muita gente ficou ofendida com a fala do Umberto Eco, mas ao mesmo tempo é uma fala que denota um certo mal-estar no processo de democratização dos meios de comunicação, típico de intelectuais e acadêmicos. E intelectual e acadêmico normalmente não gostam muito do povo, apesar de dizer que gostam."
Luiz Felipe Pondé

"A primeira vertente da fala do Eco é matematicamente correta: A ampliação de qualquer processo implica incluir todo mundo, e todo mundo inclui idiotas, brilhantes, medianos, originais, medíocres, racistas, preconceituosos, gente que odeia e assim por diante. A segunda, complementando o que o Pondé iniciou, é que há uma certa resistência de grandes intelectuais, como o Umberto Eco, de que o conhecimento não pertença mais a um grupo e que ele tenha se democratizado, no sentido positivo e negativo da palavra. Se há 60, 70, 80 anos apenas intelectuais de peso podiam emitir opinião, hoje, ao alcance de um toque, todos podem emitir opinião. Isso, para nossa desgraça e nossa glória, é o mundo contemporâneo."
Leandro Karnal

roda viva

Sobre o compartilhamento de crueldades da realidade - Hugo Gloss

"No século 15, as pessoas levavam os filhos pra assistir pessoas serem queimadas na fogueira, que nem passeio no Ibirapuera. Eu tenho a impressão de que a gente, nos últimos 200 anos, transferiu uma certa expectativa de santidade alocada em Deus para o ser humano, uma espécie de humanismo como religião. A humanidade é assim mesmo. A gente partilha coisas ruins e coisas feias que teoricamente não deveria partilhar. A espécie aprendeu a falar mais pra poder fazer mais fofoca e falar mal dos outros do que falar coisa séria. A idealização da espécie humana, muito comum nos últimos 200 anos, causa em nós uma expectativa de que estamos todos nós reunidos aqui pra fazer com que o ser humano e a realidade sejam melhores. Esse gostinho pelo sangue, pela fofoca, ajuda a passar o tempo. E as redes sociais tornam isso mais transparente. Por isso não acho que elas sejam culpadas por isso daí."
Pondé

Sobre a superexposição nas redes sociais - PC Siqueira

"Acredito que, se você está lutando contra, você está querendo originalidade para ganhar mais likes. No momento em que você diz 'eu não dou bola para tudo isso', você funciona como a pessoa que, diante do espelho, se desarruma cuidadosamente e leva tanto tempo para produzir seu look alternativo como o mauricinho que leva horas. A superexposição é uma maneira de você não expor: Eu coloco muitas fotos das minhas viagens, minhas refeições e da minha família pra que ninguém veja ou pergunte sobre as coisas que realmente importam. Estou falando da minha vida todo o instante porque não tenho nada a dizer sobre ela e eu não quero que as pessoas vejam essa minha vida. É uma questão importante do nosso tempo - ser é publicar, existir é aparecer."
Karnal

Sobre redes sociais e relacionamentos líquidos - Taty Ferreira

"Não acho que as redes sociais causaram as relações líquidas. O Bauman colocou a ideia de líquido em circulação antes do boom das redes sociais. Ele tinha dito que você entra em uma relação hoje como quem olha o mercado. Se eu tô com ela, tem um mercado comprador e eu tô perdendo tempo. Então acho que as redes sociais vão oferecendo formas de você ser mais ágil ainda - ele compara o relacionamento ao mercado de ações. A função líquida é resultado de você ter mais oferta e de o sujeito pensar o relacionamento como consumo, uma espécie de instrumentalização do afeto em que você entra na lógica do custo-benefício. Me parece que as redes sociais vêm otimizar isso.
Pondé

luiz felipe pondé

Luiz Felipe Pomdé

Sobre o gosto por mostrar que "não gostou" ou "odiou" - Cauê Moura

"Eu falei da minha desconfiança da expressão 'ele me representa' ou 'isso não me representa'. 'Ele me representa' significa que eu projetei narcisicamente que o outro é parecido comigo; logo, ele é bom. Esse candidato não pode porque ele fez uma declaração errada sobre os cachorros. Então, o único candidato que poderia seria o meu eu tornado um homem acima dos outros homens. Hoje a opinião é fundamental. Gosto e não gosto. As opiniões livres são fundamentais no exercício da liberdade. Mas nós temos também um passo para aprender a escutar, a ler, e aprender antes de dar opinião."
Karnal

Sobre as redes sociais como direito para comentar - Danielle Noce

"A tolerância é uma palavra difícil, porque significa sofrer em silêncio. É um desafio. Eu digo uma frase com inspiração tanto estoica como de Montaigne que 'eu só me ofendo se eu não me conhecer. Tudo que disserem de mim é verdade ou mentira, e nos dois casos não posso ficar ofendido'. Mas a exigência de hoje é que você não só não me ofenda, como ainda me ame. Nós queremos uma tolerância ativa que você não apenas não grite que eu sou careca, mas que você diga que nunca viu uma careca tão deslumbrante, tão apaixonante, e que você perca tudo e se arrependa de ser uma menina com cabelo tão bonito. Este é o mundo que exige que eu me identifique com tudo, que você não tenha nenhuma crítica a ninguém."
Karnal

karnal

Leandro Karnal

Sobre ver no outro aquilo que te falta - Paulo Cuenca

"A inveja é minha incapacidade de me alegrar com a sua alegria e a minha dor em te ver feliz, o que é diferente da cobiça. Mas a inveja é natural no mundo que expôs tudo e hoje nós temos mais crimes por status do que crimes famélicos. Talvez há 100 anos se roubasse pra comer, hoje é o roubo pra ter o seu iPhone 6 plus e em breve vou te roubar o iPhone 7. Ou seja, é uma capacidade de querer o status que você tem e uma dificuldade em lidar com isso."
Karnal

Assista ao programa na íntegra:

Viver bem é o tipo de desejo tão universal que se tornou um direito. Mas não há fórmula ou mágica que o garanta, o que deixa, para cada um de nós, a difícil tarefa de descobrir e pavimentar o próprio caminho. A newsletter de Equilíbrio vai trazer a você textos e entrevistas sobre saúde mental, angústias, contradições e alegrias da vida. Assine aqui para receber novidades no fim de semana.

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