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Filho viaja por 75 países para realizar sonho do pai de conhecer o mundo

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arun narayan sabnis
Arun Narayan Sabnis no spa geotérmico Lagoa Azul, na Islândia, em julho de 2015

No verão de 1963, um homem de 24 anos estava folheando a coleção de brochuras de viagens de seu pai, um tesouro que ele havia descoberto apenas um ano antes na casa da família em Nashik, cidade da Índia, quando encontrou um livro com fotos em preto e branco da cidade italiana de Pompeia.

“Meu pai era um rigoroso disciplinador e nunca teve uma conversa comigo, exceto quando me viu mexendo nessas brochuras”, lembra Arun Narayan Sabnis, agora com 77 anos.

O pai de Sabnis disse a ele que sempre quis viajar, mas nunca teve dinheiro, já que tinha de sustentar a família com cinco filhos bem como seus irmãos. “Aquilo tocou as fibras do meu coração.”

Morando em Mumbai, a morte repentina de seu pai trouxe Sabnis de volta ao lar para apoiar a mãe, forçando-o a abandonar o sonho de fazer um doutorado.

Naquela conversa num dia de verão, Sabnis havia decidido encontrar uma maneira de viajar o mundo, como uma homenagem ao pai. “Deixá-lo ver o mundo através de meus olhos caso ele não pudesse quando estivesse vivo”, disse. “Aquela foi a semente.

Deixá-lo ver o mundo através de meus olhos caso ele não pudesse quando estivesse vivo, disse. Aquela foi a semente.

No entanto, no começo parecia que não era para ser. Com pós-graduação em psicologia pela Universidade de Mumbai, Sabnis havia sido admitido em uma faculdade nos Estados Unidos.

Mas, sem dinheiro para viajar e pagar a matrícula, teve de deixar os planos de lado. Nesse meio tempo, conheceu sua futura esposa, Manjiri, e começou a trabalhar na Índia.

Sete anos depois, foi admitido em outra universidade norte-americana, desta vez com uma bolsa de estudos do governo indiano, mas seu visado foi recusado por motivos de saúde.

Na terceira vez, teve sorte. Então, em 1973, uma década depois de ter feito a promessa de conhecer o mundo, Sabnis embarcou em um avião da Air India rumo à Inglaterra com uma bolsa de estudos da Fundação Ford. Foi fazer um curso em estudos urbanos na University College, em Londres.

Sua esposa ficou na Índia cuidando da filha, Supriya Pilgaonkar, agora um nome bem conhecido no mundo do entretenimento nos idiomas marathi e hindi, e do filho, Sumit Sabnis, que pilota o jato privado do magnata indiano Mukesh Ambani.

“Havia conseguido quebrar a maldição e fui o primeiro da minha família a viajar para o exterior”, disse. “Aquele foi o começo.”

No ano seguinte, viajou pela Europa. Foi “educacional”, lembra Sabnis.

“Tive contato com uma cultura totalmente diferente, e o efeito foi chocante”, disse. Ele não havia tido muito contato com a cultura ocidental antes de sua viagem ao exterior, e o rapaz, de então 34 anos, achou a experiência “emocionante”.

Aprendeu muito com seus amigos no exterior, o que o ajudou a ampliar seus horizontes, mudar sua atitude e “despertou um desejo insaciável de ver e experimentar mais e mais”.

“Olhando para trás, fico surpreendido ao ver as mudanças enriquecedoras em mim mesmo”, disse o septuagenário.

“Além da tremenda variedade e contrastes nas culturas das pessoas em todo o mundo, encontrei incríveis e impressionantes semelhanças em seu modo de pensar e ações, mesmo quando estavam a milhares de quilômetros de distância e sem nenhuma intercomunicação. Isso realmente nos une como raça humana!”.

Ele também notou o que descreveu como “lacunas cada vez maiores e perturbadoras entre as pessoas em nome da religião, cor, idioma”. Sabnis viajou pela Europa, Austrália, Estados Unidos, Canadá, Groelândia e África.

se divertindo

Uma de suas viagens mais memoráveis foi à Antártida, o único continente ao qual ele ainda não havia estado até então. Em 2011, na época com 72 anos, comprou uma passagem em um dos cruzeiros mais perigosos do mundo.

Em companhia de 84 passageiros em um pequeno navio, atravessou a passagem de Drake entre a América do Sul e as Ilhas Shetlands do Sul, na Antártida.

“A estranha sensação de que você está visitando uma parte do mundo, que é praticamente como era há milhões de anos e na qual muito poucos indianos pisaram até o momento”, diz Sabnis, “me proporcionou um imenso estímulo e emoção”.

Quando atravessou o Canal Lemaire, um estreito de 11 quilômetros de comprimento na Antártida, Sabnis experimentou uma espécie de “silêncio eterno”, que foi uma experiência única. Lá, entre montanhas brancas e icebergs, viu colônias de pinguins e focas descansando sobre o gelo.

Um contraste direto com essa emoção idílica foi o retorno de 60 horas. Como os ventos sopravam a 100 quilômetros por hora, as ondas lançaram seu navio entre 7 e 9 metros acima do mar, fazendo com que o barco desviasse lateralmente da rota em quase 45 degraus, disse Sabnis.

A maioria dos passageiros sentiu náuseas, e Sabnis tinha certeza de que iria morrer.

“Tive pesadelos durante toda a noite, com todo mundo procurando por meu cadáver no oceano!”, disse. “Essa provação de 60 horas foi a parte mais terrível da minha jornada.”

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“Firme e forte para desfrutar de tudo isso” — Arun na Antártida, em 2012.

Mas aquilo não o impediu de viajar cada vez mais. E em 2015, aos 76 anos, Sabnis percebeu que viajara para quase o mesmo número de países, ainda que não tenha começado a viajar com esse objetivo específico.

“Foi quando observei o fato e me deu a impressão de que poderia ser a declaração de missão da minha apaixonante ‘Wanderlust’[desejo de viajar]”, disse Sabnis.

Ele escolheu a Islândia (Iceland em inglês ou “terra do gelo”) para esse especial 75o tour por um país. “Foi o nome que me atraiu”, explicou, brincando que era um termo impróprio e que Groelândia (Greenland em inglês ou “terra verde”) e Islândia deveriam fazer um intercâmbio de nomes.

Embora Manjiri, sua esposa, normalmente não o acompanhe nessas viagens — ela odeia o frio, disse Sabnis, e não tenha tido disposição para viajar para muitos países, Manjiri viajou para a Inglaterra com ele naquele ano para comemorar seus 50 anos de casamento.

Logo depois, quando ela retornou para a Índia, Sabnis partiu para o norte para se banhar nas piscinas islandesas. A neta de Sabnis, Shriya Pilgaonkar (que estreou em Bollywood este ano com o filme Fan), fez companhia ao avô desta vez.

Sabnis ficou surpreso ao aprender sobre a atividade geotérmica do país. “Tinha vontade de ir lá porque queria ver um país que ainda estava em grande parte em uma fase de pré-industrialização”, disse, “onde a natureza e sua presença são muito impressionantes e, devido a essa natureza imprevisível, as pessoas a reverenciam e se ajustam de acordo com as circunstâncias sem prejudicá-la.”

Que Sabnis ama viajar é um eufemismo. Mas, ao contrário de muitos outros viajantes que preferem conhecer o mundo sozinhos e se enfurnam em albergues da juventude, ele gosta de facilidades.

“Não sou um jovem que possa pegar carona de mochila. Faço minhas viagens da maneira mais segura e relaxada possível”, disse, explicando como reserva excursões guiadas. “Tudo o que você precisa é de boa saúde, muito interesse pelo mundo ao redor, suficiente estamina, desfazer malas quase todos os dias, continuar se movimentando e curtindo e se ajustando à natureza.”

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Arun na Capadócia, Turquia, em 2011

Ele recomenda viajar frequentemente, fazendo pequenas pausas, esticar os fins de semana prolongados ao máximo e descobrir os melhores lugares para viajar de acordo com a época do ano.

“Eu costumava pegar meu calendário e marcar todas as folgas curtas e feriados prolongados no começo do ano”, disse. “Depois, de acordo com as estações e locais, eu decidia visitar lugares de tal maneira que o feriado começasse já no último dia de trabalho para maximizar o passeio e minimizar o tempo de viagem.”

Apesar de ser vegetariano — o que pode ser difícil em viagens internacionais onde as opções de dieta podem ser escassas —, Sabnis não se importa em se alimentar apenas com pão com manteiga quando não há escolha. “Se você reclamar, não será capaz de mergulhar nas experiências”, disse. “É necessário maleabilidade com todos os tipos de pessoas e experiências.”

Embora Sabnis tenha de ficar de repouso até outubro devido a recomendações médicas, já está planejando suas próximas férias. Quer ir para a Sibéria e Mongólia.

“Lembro do meu pai, uma pessoa de classe média baixa, e posso imaginar o aperto que deve ter sentido por não ter realizado seus sonhos”, disse. “Ele deve estar vendo através dos meus olhos, provavelmente.”
Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost IN e traduzido do inglês.

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