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'Não é it-girl, é it-favela!': Conheça Tasha e Tracie Okereke

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Tasha e Tracie Okereke, de 21 anos, são as it-garotas da quebrada. “Aqui não é it-girl, é it-favela!”, elas avisam. Gêmeas, e do signo de gêmeos, resumem o próprio estilo como algo “fino, esportivo e chavoso”, uma coisa “bem de rua, nova rica e confortável”. Não entendeu? “É algo que dá para sair correndo, sem deixar de ficar linda”, brincam.

“Ontem mesmo eu estava vestindo uma camiseta meio de lado, como a gente usa quando vai empinar pipa, sabe?”, conta Tasha, mostrando uma foto no seu celular. “E também adoramos um biquíni porque temos essa inspiração na moda dos anos 2000”. Elas selecionaram o beachwear como a chave para enfrentar o calor e frequentar pela primeira vez o SPFW.

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Sempre montadas, com roupas customizadas ou garimpadas em brechós, elas ganham não apenas os olhares do Jardim Peri, na periferia da Zona Norte, onde moram, como também do mundo inteiro. Foram chamadas para a série documental da revista britânica i-D, apresentada por Grace Neutral, em vídeos que exploram a diversidade de beleza no nosso país. Estão no projeto Meio Fio, da Melissa, concorrendo ao prêmio final junto aos amigos de fervo e de moda, como o estilista Apolinário, da marca Cemfreio. E fazem barulho com o movimento Expensive $hit, criado por elas para subir conteúdo de estilo em um blog e que cresceu tanto a ponto de virar uma festa, organizada onde as coisas geralmente não acontecem. “Rola lá no dancehall do morro, mas a ideia é que vire uma coisa itinerante”, conta Tasha.

“Eu geralmente demoro duas horas para sair da minha casa e ir até o centro. Por que ninguém pode se virar para chegar em uma festa no lugar onde eu moro?”, questiona Tracie, aproveitando para explicar todo o conceito da balada das duas. Com pegadas de funk, rap e afrobeat, elas até tocam em pontos mais centrais, como no caso do after da semana de moda, com todos os fashionistas batendo ponto no bairro da República, mas a ideia mesmo é traçar sempre um local pela periferia para “fazer o rolê” acontecer por ali. E as pessoas do centro “colam”, como elas dizem. “Nós achamos ótimo porque a ideia sempre foi mesmo a de fundir pessoas, trazer gente de muitos cantos e proporcionar a elas uma conversa”.

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Entre os ganhos, selecionam não apenas promover a diversão para as pessoas que moram ali – e que não é lá muito fácil de se encontrar -, mas também o aumento na autoestima das garotas. “Mudou muito a forma como as meninas negras se enxergam e como as pessoas passaram a olhar elas. Todos acabam vendo que nós temos orgulho e que nós nos amamos exatamente do jeito que a gente é”, conta Tasha. “E também é uma coisa que faz playboy passar vergonha. Porque fala mal de favelado, mas quando esta lá tem que te tratar com respeito. Se esbarra em você, a pessoa sai correndo para te pedir desculpas. Não é como fazem aqui no centro, onde eles fingem que você nem existe”, arremata a irmã.

Tracey, que trabalhou durante todos os dias na produção do stand da Coca-Cola, subindo posts para as redes sociais da marca, conta que, até então, só tinha visto a semana de moda pela TV. Conseguiu assistir a alguns desfiles, como o da Ratier, entre uma função e outra, e só lamentou mesmo a rapidez de cada show. Entre os destaques, as duas vão direto na segunda-feira, dia em que o cantor Emicida se apresentou ao lado do seu irmão, o parceiro Fióti, com a nova etiqueta LAB, que entrou para o line-up do evento com co-assinatura do estilista João Pimenta e casting composto em sua maioria por pessoas negras.

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“É um marco, na verdade”, afirmam. E Tracey continua: “A gente está no Brasil, onde a maioria da população é negra. O streetwear é uma moda que, como o nome diz, veio da rua. Quem criou o streetwear foi a rua, e a nossa moda não chegava na alta moda. Ou melhor, as referências até chegavam, mas nas mãos de quem nunca foi de rua. É bom a gente ocupar o espaço que é nosso, sabe? Na alta moda também”.

Elas relembram que a LAB começou vendendo CD e fazendo camiseta, geralmente para quem morava no extremo da Zona Norte, e que as coisas tomaram tamanha proporção que a moda independente precisou se fortalecer. Elas enxergam que isso é muito mais valorizado nos dias de hoje, mesmo que muito caminho ainda seja necessário pela frente para aparar algumas questões, como os castings dos desfiles. Em uma semana composta majoritariamente por pessoas brancas, entre modelos, estilistas e convidados, as gêmeas dizem que as marcas ainda têm muito o que correr. “Hoje em dia a gente está muito mais questionador e se eu não me vejo representada eu simplesmente não compro. Melhorou, mas tem muita coisa para mudar”.

A LAB não apenas representou no quesito seleção de modelos, como também apresentou na passarela uma coleção de peso com referências africanas e orientais amarradas em um visual bem urbano. Dentre as peças de destaque, as camisetas e regatas com a estampa “I Love Quebrada” caíram logo no gosto de quem assistiu ao desfile, mas também abriram brecha entre os jornalistas para uma discussão sobre quem poderia ou não usar o item. “As pessoas não enxergam problema em usar uma estampa escrita Brooklin, certo? Por que não podemos escrever Imirim, Boi Malhado?”, perguntam. Elas explicam que a questão aqui está muito mais ligada no orgulho de quem é da quebrada querer falar de onde veio, e muito menos sobre influencers que nunca chegaram perto da periferia e passarão a usar o item por motivos de hype.

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“Muitos dos fãs de rap também questionaram o valor das peças, mas o povo se mata para comprar um item da Supreme, por exemplo”, Tasha aponta. Adeptos do see now, buy now, alguns itens da etiqueta já podem ser encomendados com preços a partir de R$ 60. “As pessoas precisam se informar de todo um aspecto social por trás do trabalho independente”, defendem. “Tem muita roupa barata e até cara que tem trabalho escravo. Eles precisam pagar a mão de obra por trás de tudo isso”.

Sobre os desejos próximos, afirmam que, por enquanto, querem ganhar o projeto da Melissa e expor na galeria da marca, ativar ainda mais o blog e continuar com todas as festas. Em um futuro um pouco mais distante, garantem que a gente pode aguardar, pois elas querem “realmente tudo”. Mas, principalmente, mudar um pouco a vivência das meninas e dos meninos que, assim como elas, moram na periferia mas são apaixonados por moda.

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