Huffpost Brazil

Estamos a um passo do anticoncepcional masculino

Publicado: Atualizado:
Imprimir

anticoncepcional masculino
A contracepção hormonal para homens está um passo mais perto de virar realidade.

Um ensaio clínico global para testar a eficácia do anticoncepcional masculino injetável constatou que as injeções suprimiram a produção de espermatozoides de quase 96% dos homens que completaram o estudo. Quando a pesquisa terminou, mais de 75% dos participantes disseram que se disporiam a continuar a receber as injeções como seu principal método anticoncepcional.

Mas, pelo fato de os participantes terem relatado alto número de reações adversas (em sua maioria brandas) às injeções, especialmente as feitas a partir de um único centro de estudos na Indonésia, os cientistas podem precisar reformular as injeções ou experimentar um protocolo de injeções diferente antes de voltar a testar o anticoncepcional, conforme explica o principal autor do estudo, o Dr. Mario Philip Reyes Festino, da Organização Mundial de Saúde.

“São necessários mais estudos para fazer esse conceito avançar ao ponto em que possa ser amplamente disponibilizado aos homens como método contraceptivo. Embora as injeções tenham se mostrado eficazes em reduzir o índice de gravidez, a combinação de hormônios precisa ser estudada mais a fundo para chegar a um bom equilíbrio entre eficácia e segurança.”

No momento, as únicas opções contraceptivas sob o controle direto dos homens são o coito interrompido, camisinha e vasectomia. Festin observa em seu estudo que há décadas pesquisadores vêm fazendo ensaios de contraceptivos hormonais reversíveis para homens, mas que nunca foi desenvolvido um produto seguro e confiável.

Embora esta injeção em particular possa ainda precisar ser aperfeiçoada, está claro que a necessidade de um anticoncepcional hormonal masculino é grande.

Uma pesquisa conduzida em 1999 por 1.300 homens na África do Sul, China e Escócia revelou que a maioria seria muito receptiva a um novo anticoncepcional hormonal masculino, mas acharia uma pílula mais aceitável que uma injeção. Uma pesquisa correspondente realizada com 1.900 mulheres nos mesmos países verificou que quase dois terços das entrevistadas acha que a responsabilidade pela contracepção pesa demais sobre a mulher.

A maioria delas disse também que confiaria em seus parceiros para tomarem um anticoncepcional, como uma “pílula masculina”.

Os resultados do ensaio: impressionantes, e talvez culturalmente influenciados

Para o ensaio foram recrutados 320 homens saudáveis da Austrália, Alemanha, Reino Unido, Chile, Índia, Indonésia e Itália, com idades entre 18 e 45 anos, que estavam em relações monógamas estáveis e de longo prazo com mulheres saudáveis.

Os casais não queriam engravidar nos dois anos que o ensaio duraria, mas estavam dispostos a aceitar um risco baixo, porém desconhecido, de gravidez, pelo fato de participarem do ensaio.

Os pesquisadores primeiro checaram se os homens tinham níveis normais de espermatozoides e depois suprimiram esses níveis com uma injeção de hormônios aplicada a cada oito semanas ao longo de 26 semanas.

A partir do momento em que os homens alcançavam certo nível de baixa concentração de espermatozoides, os casais podiam parar de usar métodos anticoncepcionais de backup e usar a injeção como método primário. A cada oito semanas o participante recebia injeções de anticoncepcional, pelo máximo de sete vezes, o que resultou em um total de mais ou menos um ano.

Nesse momento os casais concordavam em depender unicamente das injeções para fazer sua contracepção. Quando acabou a pesquisa, os homens ingressaram em uma fase de recuperação, durante a qual ficavam sob observação médica para verificar se seus números de espermatozoides retornariam ao nível normal.

Dos 320 homens recrutados inicialmente para o estudo, 274 obtiveram supressão de espermatozoides suficiente para funcionar como método de contracepção confiável. Desses, 266 continuaram envolvidos no estudo, usando a injeção como seu método anticoncepcional.

Ao término do estudo, quatro deles tinham engravidado suas parceiras, apesar de terem alcançado a supressão de espermatozoides – um índice de eficácia de 2,2 gravidezes por cem mulheres que usaram o método por um ano. A título de comparação, casais que usam camisinhas cuidadosamente apresentam índice de três a cinco gravidezes por cem mulheres que usam esse método por um ano.

Os homens relataram efeitos colaterais como depressão, outros transtornos emocionais, acne, dor muscular, dor no local da injeção e libido aumentada, mas, fato interessante, a maioria dos efeitos colaterais envolvendo transtornos emocionais, dor muscular e no local da injeção e libido aumentada veio de um único centro de estudos na Indonésia.

Esse fato, explicou a Dra. Cynthia Harper, professora de obstetrícia, ginecologia e ciências reprodutivas na Universidade da Califórnia em San Francisco, sugere que influências culturais podem ter exercido um papel em como os participantes apreenderam suas reações às injeções. Contrastando com isso, os participantes da Índia relataram muito poucos efeitos adversos. Os relatos de acne foram distribuídos por centros em todo o mundo.

Concluído o estudo, a maioria dos participantes recuperou seu número normal de espermatozoides, apesar de que oito homens tenham levado mais de um ano para recuperá-lo. Dois desses homens se negaram a ser acompanhados posteriormente, mas cinco dos oito recuperaram níveis plenamente normais após 74 semanas. Um participante não voltou a produzir níveis normais de espermatozoides mesmo quatro anos após sua última injeção.

Enquanto isso, anticoncepcionais hormonais femininos, como a pílula, levam uma semana para começar a funcionar plenamente, para poderem ser usados como contracepção, e o retorno à fertilidade leva apenas entre um e três meses.

Como o anticoncepcional masculino pode mudar o cenário da contracepção

O anticoncepcional masculino injetável não demonstrou o mesmo grau de eficácia que o anticoncepcional injetável feminino ou outras formas de anticoncepcional hormonal feminino. O Depo-provera, um anticoncepcional hormonal injetável para mulheres, tem grau de eficácia de 0,3 gravidezes a cada cem mulheres que o utilizam por um ano.

Mas, se esta combinação de hormônios ou outro produto comparável acabar passando nos ensaios clínicos e chegando ao mercado, Harper prevê uma mudança profunda no modo como os EUA enxergam e tratam a contracepção.

No momento a contracepção hormonal carrega forte bagagem cultural ligada ao papel da mulher no mundo e a política do aborto, tornando-a alvo de empresas religiosas que não querem pagar por contracepção para seus funcionários e de políticos para os quais os planos de saúde não deveriam pagar por contracepção.

Mas as opções masculinas de contraceptivo hormonal podem ampliar a aceitação cultural dos anticoncepcionais em todo o país, disse Harper, levando ao apoio universal à proposta de que os planos de saúde cubram qualquer tipo de método
anticoncepcional.

“A cobertura pelos planos é tão difícil de conseguir e é tão contestada por questão de princípio. Me pergunto se, no caso de haver um método anticoncepcional masculino, a ideia da contracepção seria menos controversa”, disse Harper.

Para os casais individuais, dispor de mais opções também significa que mulheres que não reagem bem à contracepção hormonal poderiam deixar a cargo de seu parceiro lidar com a medicação, ao mesmo tempo tendo o mesmo nível de confiança na eficácia da contracepção.

“Boa parte das razões por que as mulheres não usam métodos de contracepção eficazes neste país é que elas se preocupam com os hormônios, mas talvez estejam com um parceiro para quem os hormônios não sejam problema, de modo que o casal possa empregar um método hormonal”, disse Harper. “É uma oportunidade fantástica de ampliar nossas opções e contarmos com mais variações individuais.”

Os resultados do estudo foram publicados no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- Uso de contraceptivos hormonais pode estar associado ao risco de depressão

- Cientistas da Universidade de Osaka estão perto de criar o anticoncepcional masculino

- Pílulas anticoncepcionais mais recentes quadruplicam risco de trombose

TAMBÉM NO HUFFPOST BRASIL:

Close
15 fotos íntimas de mulheres na cama com seus métodos contraceptivos
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção