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Parceria comercial, turismo e imigração: O que significa a vitória de Trump para a economia brasileira?

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Ato de apoio à presidência de Donald Trump, em São Paulo | Paulo Whitaker / Reuters
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O Brasil -- e o mundo -- acordaram em choque com o resultado da eleição norte-americana nesta quarta-feira (9). Em vez da favorita democrata, Hillary Clinton, o bilionário e extravagante Donald Trump venceu a disputa presidencial e estará à frente da maior potência econômica mundial nos próximos quatro anos.

A surpresa, no primeiro momento, derrubou os mercados financeiros em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil. As incertezas do novo governo americano impulsionaram uma corrida para ativos mais seguros, como ouro e o dólar, e consequentemente, investidores "fugiram" de mercados mais voláteis e considerados menos seguros, como é o caso da economia brasileira.

Passado o susto e a instabilidade, o mercado tende a se ajustar. Mas, como ficam as relações brasileiras e norte-americanas com a entrada de Trump na Casa Branca?

Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Já foi o parceiro número um, mas hoje deu espaço para outro gigante econômico, a China -- que, inclusive, está na mira do republicano. E é aí que mora o problema.

Historicamente, o Partido Republicano defende o livre comércio e se opõe a medidas protecionistas. As práticas, que são típicas de governos de esquerda, têm objetivo de proteger a indústria e emprego local.

Como republicano, Trump deveria, em tese, ampliar a abertura comercial, o que daria margem para o Brasil aumentar as exportações para os EUA. Em vez disso, porém, o novo presidente defende medidas mais duras para a importação de produtos de países como China, como aumentar taxas e impostos.

Durante a corrida presidencial, inclusive, Trump chegou a dizer que os brasileiros roubavam os empregos dos americanos. Em entrevista ao canal CBS em novembro de 2015, o então candidato colocou o País entre os responsáveis pela “exportação de postos de trabalho” gerada pela abertura comercial americana, na mesma lista da China, Japão e Índia.

São nestes pontos que as incertezas sobre as relações do País com os Estados Unidos se sobressaem. Segundo Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM, o Brasil tentava retomar, desde março deste ano, negociações sobre comércio e atração de investimentos. Tais negociações, porém, devem perder força. Ela participou de uma Live no HuffPost Brasil na manhã desta quarta-feira (9).

Na avaliação de Holzhacker, o impacto do resultado da eleição ainda é incerto não só para o Brasil, mas também para toda a América Latina. A região passou batida nos discursos de Trump enquanto candidato, exceto o México. Trump fez duras críticas sobre o país e prometeu em campanha construir um muro entre os países com o dinheiro dos mexicanos que estão ilegais na América.

"Trump coloca os mexicanos como responsáveis pela insegurança dos EUA e chegou a chamar todos os mexicanos de traficantes. A América Latina, como um todo, não passou na campanha, nem de um lado, nem de outro. Então tudo ainda é incerto."

Na política externa, a professora de Relações Internacionais vê efeitos negativos, mesmo não atingindo o Brasil diretamente. Acontece que a China, maior parceiro comercial do Brasil, poderá sofrer aumento de taxação de produtos para exportar para os Estados Unidos. "O que impacta a China, impacta a nossa economia", afirmou.

Ela cita outros efeitos menor impacto, como um possível confronto do presidente dos EUA com Nicolás Maduro, presidente da Venezuela.

Por outro lado, Trump precisa manter aliados para fazer com que a "América volte a ser grande", como prometia seu slogan de campanha. "A diplomacia brasileira pode conseguir essa aproximação e veremos como o Brasil vai reagir. Como o governo Lula já enfatizava, a gente tem tanta diversidade de parceiros. Os EUA são importantes, mas não são mais cruciais como eram décadas atrás", disse Denilde Holzhacker.

Autoridades brasileiras já parabenizaram a vitória de Trump e tentaram acalmar os investidores pela manhã. "O Brasil e os Estados Unidos são duas grandes democracias que compartilham valores e mantêm, historicamente, fortes relações nos mais diferentes domínios", disse o presidente Michel Temer, em comunicado oficial para felicitar Donald Trump. "Estou certo de que trabalharemos, juntos, para estreitar ainda mais os laços de amizade e cooperação que unem nossos povos."

O Ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, por meio de nota enviada à imprensa, também afirmou que o Brasil "está preparado para lidar com qualquer volatilidade dos mercados resultante das eleições presidenciais nos Estados Unidos" e que acompanham a evolução dos indicadores econômicos. "Estamos acompanhando o possível impacto na projeção de cenários e dos efeitos para o crescimento, particularmente nas projeções para 2017.”

O ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Pereira, afirmou que as relações entre os países não deverão mudar.

"São relações históricas, de longa data, e queremos crer que não deverá ter grandes alterações. É preciso que, dada a campanha que se teve nos EUA, a gente aguarde um pouco. Estamos na fase de observação", disse Pereira, após evento de lançamento do programa Brasil Mais Produtivo, na sede da Federação das Indústrias do Rio (Firjan).

Questionado sobre as medidas protecionistas de Trump, o ministro admitiu que é "uma preocupação", mas o tema será debatido com organismos internacionais, como a OMC, no Brics e no G-20. "Acredito que a gente tem condições de avançar. São dois grandes países, que têm maturidade para discutir as suas relações e espero muito que a gente consiga avançar e não retroceder", acrescentou Pereira.

Imigração e vistos

Defensor das fronteiras e expulsão dos milhares de imigrantes ilegais que hoje vivem nos Estados Unidos, Donald Trump é visto como ameaça para latinos, refugiados e muçulmanos.

A campanha do novo presidente prometeu o endurecimento das leis de imigração e revisão dos vistos de trabalho, o que afetaria não só os imigrantes ilegais, mas aqueles que foram aos EUA para trabalhar.

"Porém, há grande pressão dos setores, principalmente tecnológico e de instituições de ensino, de que isso não aconteça. As pressões desses grupos vão mobilizar os favoráveis e contrários [à deportação dos imigrantes]", explica a professora da ESPM, Denilde Holzhacker.

Na parte administrativa, Holzhacker acredita que Trump tem poder para aumentar o controle de quem entra e sai do país e de acompanhar a fiscalização, apreensão e de deportação. "O atual presidente dos EUA, Barack Obama, já havia endurecido regras nesta área nos últimos anos, mas certamente Trump vai deixar ainda as coisas mais difíceis para imigrantes ilegais."

Mas, deportação em massa de mais de 11 milhões de imigrantes é difícil, na avaliação da professora, ainda mais na visão econômica.

"Uma das áreas que mais emprega imigrantes ilegais é justamente a área de Construção CIvil, que Trump conhece bem a realidade."

A professora da ESPM acredita que as medidas serão mais duras, mas elas não afetarão, num primeiro momento, quem está legalmente nos Estados Unidos, muito menos brasileiros ou viajantes de outras nacionalidades que estão no país a turismo. "Não acho que ele [turista] possa ser atingido de alguma forma. Mas aqueles que estão pensando em imigrar, vão ter mais dificuldades."

Por outro lado, as negociações para a liberação de visto para visitar os EUA, que estavam em andamento antes da corrida presidencial, devem esfriar. "Vamos continuar não tendo esse avanço", concluiu a professora.

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