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Os EUA preferiram um homem que disse 'agarre-as pela b....a' a ter a 1ª presidente mulher

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DONALD TRUMP
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Donald Trump se gabou abertamente de usar seu status de celebridade para agredir mulheres sexualmente. E várias mulheres o acusaram de agredi-las sexualmente, de fato.

Ele se disse a favor de proibir pessoas de entrarem nos Estados Unidos com base em sua religião.

Ele considera que mulheres que ele acha fisicamente pouco atraentes ou acima do peso são pessoas de valor menor.

Ele acha que muitos imigrantes mexicanos são estupradores.

Ele zombou de pessoas com deficiências físicas.

Ele incentivou a violência contra manifestantes em seus comícios.

Durante anos ele foi a pessoa mais célebre a difundir a teoria conspiratória segundo a qual o primeiro presidente negro do país seria ilegítimo porque, supostamente, não teria nascido nos Estados Unidos.

E agora Donald Trump será o 45º presidente dos Estados Unidos – um cargo de poder e prestígio, que deveria servir de exemplo para crianças de todo o país e oferecer o melhor do melhor para o resto do mundo.

Os democratas e os republicanos que não conseguiam engolir a ideia de Trump não estavam preparados para este resultado. Enquanto as pesquisas de intenção de voto indicavam uma disputa cada vez mais apertada entre os dois candidatos, os democratas, falando em público ou reservadamente, sentiam confiança em sua vitória. De jeito algum Trump seria eleito.

A vitória de Trump também significa que a América perdeu a oportunidade de fazer história ao eleger sua primeira presidente mulher. Hillary Clinton esteve sob o olhar público como funcionária do Capitólio, como ativista, primeira-dama, senadora e secretária de Estado. Ela já foi capa da revista Time 30 vezes, e pesquisas do Instituto Gallup a apontaram pelo número recorde de 20 vezes como sendo a mulher mais admirada da América.


À medida que foi ficando mais claro que Clinton não ia ganhar, alguns de seus partidários começaram a chorar e abandonar aquela que se pensava que seria a festa da vitória no Javits Center, em Nova York.

“Eu trouxe minha filha de 12 anos aqui para ser testemunha da história”, falou Sarah Alexander, saindo do Javits Center com expressão atônita. Sua filha, Natalie, estava chorando. Elas tinham ido para Nova York de Washington, onde Alexander passara os últimos 14 meses trabalhando na campanha de Hillary.

“Estamos em choque total. Tudo o que Trump representa são coisas com que eu discordo”, disse Sarah Alexander, enquanto sua filha ouvia com olhos tristes, cheios de lágrimas.

Houve cenas semelhantes nas ruas das proximidades, com um fluxo constante de pessoas saindo de bares com as mãos dadas, com lágrimas nos olhos e bandeiras americanas enfiadas nos bolsos. Muitas disseram que estavam consternadas demais para conseguir comentar o que estava acontecendo.

“Não entendo o que é que Hillary projeta que as pessoas acham tão odioso”, falou Benjamin Morse, 45, com os olhos se enchendo de lágrimas.

Ao longo dos anos, Hillary Cllinton tem sido sob muitos aspectos um estudo de caso do sexismo na política e um reflexo da mudança do papel desempenhado pela mulher na sociedade moderna. Ela sempre sofreu patrulhamento intenso pelo tipo de mulher que é: seus penteados, suas roupas, suas escolhas de estilo de vida, o som de sua voz, se é simpática ou não.

Sua candidatura mobilizou muitas mulheres, tanto democratas quanto republicanas, que já enfrentaram suas próprias barreiras profissionais em função de serem mulheres.

Para os partidários de Hillary, ela sempre teve que trabalhar mais arduamente e sempre foi obrigada a seguir padrões que não eram exigidos de seus colegas homens. Por isso, foi especialmente enfurecedor para eles o fato de ela ter sido derrotada por um homem que fez tantos comentários machistas ao longo dos anos e que uma parte tão grande da campanha tenha focado essas questões.

Mas, como candidata presidencial, Hillary não entusiasmou muitos eleitores, que disseram que simplesmente não confiavam completamente nela.

Trump agora é o rosto do Partido Republicano, quer os membros do establishment republicano gostem disso, quer não. Muitos parlamentares republicanos não queriam se aproximar demais dele, mas a maioria continuou a endossá-lo, mesmo assim. Essa posição desagradou a muitas mulheres republicanas, que disseram ter passado anos defendendo seu partido contra as acusações de democratas de que os republicanos travavam uma “guerra às mulheres”, apenas para ver essas acusações serem substanciadas.

Trump contrariou todas as regras: ele não divulgou sua declaração de imposto de renda, ele mentiu o tempo todo, sugeriu que colocaria sua adversária na cadeia e encorajou um país estrangeiro a interferir no processo eleitoral.

Pelo fato de ele ter vencido, agora mais candidatos também vão se dispor a infringir essas regras. E eles podem chegar à conclusão de que provocar o repúdio de grandes setores da população não tem problema.

“A razão por que estou tão aflita é que tenho consciência das consequências que uma Presidência como essa terá para gente como nós, que fazemos parte de minorias”, falou Moani, 25 anos, que também estava na planejada festa de rua de partidários de Hillary e começou a chorar enquanto falava. “Pensávamos que estávamos ganhando força com Obama, mas agora estamos sendo empurrados oito anos para trás. É duro assistir a isso.”

*Com reportagem de Emma Gray, Emily Peck e Alanna Vagianos, de Nova York.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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