Huffpost Brazil

A vitória de Donald Trump coloca em xeque o poder da imprensa

Publicado: Atualizado:
TRUMP
Os jornalistas detalharam por que Trump não tem condições de ser presidente. Milhões de americanos não ligaram | AP
Imprimir

Em alguns dias, Donald Trump parecia estar concorrendo mais com a mídia que com Hillary Clinton.

Uma era “desonesta”, ele dizia, e a outra era “trapaceira”. E nenhuma das duas, ele argumentava, estava do lado dos americanos.

“O tão falado poder da mídia não é mais aquele”, declarou Brit Hume, âncora da Fox News, durante a noite, enquanto os resultados apontavam para a vitória de Trump na eleição de 2016.

Os analistas que descartaram as chances de Trump depois de cada um de seus ultrajes mais recentes e os especialistas que até a tarde de terça-feira (8) ainda previam uma vitória de Hillary Clinton terão muito o que explicar nas autópsias da mídia que vêm pela frente.

A história não vai perdoar a mídia noticiosa por sua obsessão acrítica com Trump no início da campanha. Durante tempo demais Trump foi tratado como astro da TV-realidade e vendedor de empreendimentos na TV, ao invés de candidato ao cargo de maior poder no mundo.

Os jornalistas que tinham acesso a Trump e oportunidades de contestá-lo em muitos casos não fizeram seu trabalho a contento, e Trump explorou as prioridades dos executivos de organizações de mídia, motivados pelos números da audiência ou de leitores.

As redes de televisão, mais notavelmente, escoraram a candidatura de Trump nas primárias republicanas, dando ao candidato uma atenção enorme e desproporcional, demonstrando tolerância inusitada por ele e submetendo-o a poucas verificações, enquanto ele dizia falsidades nas entrevistas e em comícios noturnos transmitidos ao vivo como acontecimentos de últimas notícias.

Apresentadores não questionaram o histórico fraco de Trump como empresário, e executivos das redes trataram sua atitude de preconceito e intolerância como apenas mais uma posição política a ser discutida entre comentaristas.

Mas organizações noticiosas importantes como The New York Times e The Washington Post investigaram as transações comerciais escusas de Trump e sua filantropia fajuta. O NYT divulgou a demagogia de Trump e seu discurso voltado a semear o medo; o fez antes que a maioria dos outros órgãos de mídia e, mais tarde, revelou como o empresário sonegou impostos.

Enquanto órgãos impressos e digitais respeitados como BuzzFeed e The Daily Beast pareciam fazer uma cobertura mais agressiva que as emissoras de televisão, houve uma mudança quando Trump chegou mais perto de ser escolhido o candidato republicano.

Editores de órgãos de mídia não partidários, muitas vezes relutantes em descrever uma mentira como uma mentira, começaram a fazê-lo em suas primeiras páginas. Jornalistas especializados em verificar informações passaram a fazer hora extra para cobrir a desonestidade ousada, aberta e sem precedentes de Trump. E, ao longo de toda a campanha, os jornalistas enfrentaram a difusão galopante de desinformação nas redes sociais.

Ao longo da campanha, Trump demonstrou desdém sem precedentes pela imprensa, tendo inclusive colocado quase uma dúzia de órgãos de mídia numa lista negra. Em seus eventos, ele vilipendiava jornalistas, enquanto seus seguidores ensandecidos reagiam com vaias e xingamentos.

Agora que ele se dirige à Casa Branca, esses ataques e atitudes não assinalam nada de positivo.

O preconceito e a misoginia de Trump não ficaram escondidos do povo americano.
Suas declarações ofensivas, como quando chamou imigrantes mexicanos de “estupradores” e narcotraficantes, foram cobertas pela mídia desde o início.

A mídia deu destaque aos apelos de Trump para inflamar queixas racistas, algo que empoderou os nacionalistas brancos, e ao fato de o candidato republicano empregar argumentos antissemitas para sugerir que as elites nos bancos, na mídia e no governo estariam conspirando contra a população americana.

As organizações noticiosas cobriram a misoginia de Trump em reportagens extensas e aprofundadas e destacaram as alegações de assédio sexual ou conduta sexual inapropriada feitas por uma dúzia de mulheres.

As redes de televisão transmitiram o vídeo do Access Hollywood repetidas vezes. Mesmo assim, milhões de americanos parecem não ter se incomodado com o comportamento de Trump.

Quase todos os grandes jornais americanos endossaram Hillary Clinton em editoriais, incluindo alguns conselhos editoriais conservadores que deram seu apoio a uma candidata democrata pela primeira vez em mais de um século.

Os editores detalharam minuciosamente as razões por que Trump é impróprio para a Presidência e por que ele representa um perigo grave não apenas ao país, mas ao mundo inteiro.

Mas, no final, mais americanos em Estados suficientes decidiram que, mesmo confrontados com evidências avassaladoras e com milhares de páginas de cobertura crítica, a Presidência devia ser entregue a Donald Trump.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- Donald Trump, o agente de mudanças que venceu prometendo barrar mudanças

- Donald Trump vence eleição e se torna o 45º presidente dos EUA

- Mundo acorda em choque com vitória de Donald Trump

TAMBÉM NO HUFFPOST BRASIL:

Close
Donald Trump em campanha
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção