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O problemático histórico de Hollywood de abordagem da escravidão

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Quando o primeiro trailer de O Nascimento de uma Nação, dirigido por Nate Parker, foi exibido em junho deste ano nos Estados Unidos, foi como se um raio tivesse caído sobre a representação no cinema. Aqui temos um filme escrito, dirigido, produzido e estrelado por um cineasta negro.

Um filme não apenas sobre os horrores e injustiças causados pela escravidão, mas também sobre a luta contra o trabalho forçado, representada pela famosa rebelião de escravos liderada por Nat Turner nos EUA, em 1831.

A história de Turner nunca havia sido contada no cinema, e, certamente, nunca desta forma — a partir da perspectiva do próprio Turner, totalmente de acordo com suas motivações e ações violentas.

Então, veio a polêmica. Depois de uma recepção estelar no Festival de Sundance — onde o filme foi comprado pela Fox Searchlight por um valor recorde de US$ 17 milhões de dólares (cerca de 53 milhões de reais), surgiram relatos de que o cineasta Parker havia sido acusado de ter estuprado e assediado uma jovem em 1999, quando era estudante universitário na Universidade Estadual da Pensilvânia.

Ele foi absolvido, mas os detalhes do caso (que também envolvem o corroterista de Parker, Jean Celestin, que foi acusado mas depois recorreu da decisão) lançaram uma sombra sobre O Nascimento de uma Nação, um filme que inclui duas cenas de estupro.

Ao longo do escrutínio ao qual foi submetido, Parker se manteve inflexível, dizendo que seu passado não deve desencorajar os cinéfilos que queiram ver o filme. O Nascimento de uma Nação, disse, é uma história muito importante para a comunidade negra e uma oportunidade muito importante para que o país tenha um debate real sobre a questão racial.

cena

O Nascimento de uma Nação é a cinebiografia da vida de Nat Turner

Parker afirmou que seu filme levará as pessoas a ver a escravidão com “lentes diferentes”, quando comparado com representações passadas na tela. Mas, como o cinema moldou nossas percepções sobre a escravidão, especialmente os que receberam uma versão higienizada da escravatura nas aulas de história?

Talvez, o filme mais importante do século 20 seja uma produção de 1915 com o mesmo título, O Nascimento de uma Nação, este dirigido por D.W. Griffith e baseado no romance sobre a Ku Klux Klan, The Clansman, publicado em 1905, mas ainda inédito no Brasil. De muitas maneiras, o filme de Parker, desde seu título até seu protagonista rebelde, é uma resposta ao filme de Griffith.

Como explica o ativista e cineasta Andre Robert Lee, o filme de Griffith “apresentou a escravidão como algo que a América perdeu”, em vez do pecado que realmente foi. A produção, embora revolucionária em termos de filmagem, estabeleceu um tom racista sobre como Hollywood iria abordar a realidade da escravidão nos anos seguintes.

Apresentou uma história revisionista da escravidão nos EUA, lamentando o fim da escravidão no “Velho Sul” e celebrando a ascensão da Ku Klux Klan.

poster

Poster do filme O Nascimento de uma Nação, de D.W. Griffith

Juntamente com filmes populares que vieram em seguida, como E o Vento Levou (1939) e Tamango (1959), destacou-se a conveniente ilusão de que a maioria dos escravos era feliz e aceitava seu destino, e que os negros livres, especialmente os homens, eram coniventes, sexualmente agressivos, preguiçosos e violentos.

Essa era a época em Hollywood onde uma pessoa negra no cinema, muito provavelmente, estaria interpretando um escravo jovial ou uma empregada; uma era quando as atrocidades da escravidão eram mantidas escondidas dos olhos e da mente; onde a escravidão operava na periferia de heróis brancos irrepreensíveis.

No final dos anos 60 e na década de 70, houve uma mudança na maneira pela qual a escravidão era retratada em filmes. Era a época do “Blaxpoitation” [junção de “black” e “exploitation”, ou exploração, gênero direcionado ao público negro] e de filmes como Slaves! (1969), A Lenda do Negro Charley (1972), Mandingo – O Fruto da Vingança (1975) e Mandingo II – A Revolta dos Escravos (1976), todos sobre histórias de vingança contra senhores malvados de escravos que estrelavam protagonistas negros musculosos.

Esses filmes foram revolucionários em sua época, mas ainda perpetuavam inadvertidamente estereótipos de homens negros como hiperssexualizados e violentos e apresentavam esboços da vida de um escravo, em vez de retratos completos.

A estreia da série Raízes, em 1977, produzida pela rede de TV norte-americana ABC, marcou uma tentativa de explorar mais profundamente a história e as atrocidades do tráfico de escravos. A minissérie de oito capítulos foi um evento televisivo e um divisor de águas em como os norte-americanos falavam sobre escravidão e raça. Pela primeira vez, a imagem de um homem negro sendo chicoteado a ponto de perder a vida preencheu as telas dos televisores de 130 milhões de americanos.

cena de raizes

Raízes ,estrelando Levar Burton, como Kunta Kinte

Raízes marcou o início da era do "Black Pride" ("orgulho negro", em tradução literal), filmes e minisséries de televisão que focaram nas histórias pessoais de escravos e de seus descendentes e que tentaram revelar o opressor e longo impacto da instituição racista. Entre essas produções podem ser citadas A Woman Called Moses (1978), “Raízes: As Próximas Gerações” (1979) e o filme A Odisseia de Solomon Northup (1984).

Desde então, o realismo tem se tornado um tema e um objetivo de muitas obras sobre a escravidão. Parte desse realismo, parece, tem focado na violência visceral contra os escravos. Filmes como Amistad (1997), Bem-Amada (1998), Jornada pela Liberdade (2006), Vênus Negra (2010) e Django Livre (2012) recorreram a imagens que nos levam aos extremos da escravidão — linchamento, espancamento, fome, estupro e os danos físicos do trabalho escravo em si.

Há mais filmes sobre negros escravizados no passado do que sobre negros vivendo no presente.

Mais recentemente, vimos uma espécie de ressurgimento ou renascimento das histórias sobre escravidão em Hollywood. Muitos consideraram 2013 “o ano do cinema sobre a escravidão” — sete filmes sobre o tema produzidos por grandes estúdios e também por selos independentes foram lançados, dois deles estrelando o ator britânico Chiwitel Ejiofor.

O mais comentado e mais prolífico do lote foi 12 Anos de Escravidão, com Chiwitel Ejiofor interpretando Solomon Northup, um negro livre do estado de Nova York que foi sequestrado e escravizado na Carolina do Sul.

12 Anos de Escravidão transformou a degradação e brutalidade da escravidão que havíamos visto antes em arte. O filme foi elogiado tanto por sua direção e cinematografia quanto por forçar os espectadores a ver cenas de corpos de negros sendo marcados, esfolados, enforcados e arrebentados de maneiras indizíveis.

Quando Parker, de O Nascimento de uma Nação, fala sobre as “lentes” através das quais a escravidão é vista atualmente, talvez fale sobre o foco que a maioria dos filmes atuais e programas de TV dá à escravidão, particularmente à dor dos negros, à violência contra seus corpos.

E, nas vezes em que esses personagens conseguem transcender suas circunstâncias, essa redenção frequentemente vem na forma de um salvador branco.

Em janeiro, Kara Brown, jornalista do blog Jezebel, publicou um ensaio apaixonante intitulado I’m So Damn Tired of Slave Movies ("estou tão cansada de filmes sobre a escravidão"), em resposta à atenção que O Nascimento de uma Nação recebeu inicialmente depois da estreia em Sundance.

Para Brown, a preocupação de Hollywood em produzir e recompensar filmes como 12 Anos de Escravidão e O Nascimento de uma Nação é prova de que “tem um problema em apenas prestar atenção em pessoas não brancas quando estas estão interpretando um estereótipo”.

lupita

Lupita Nyong’o como Patsey, em 12 Anos de Escravidão

Nos últimos 20 anos, houve mais filmes sobre negros escravizados e sobre a luta por direitos civis no passado do que sobre negros vivendo no presente (sem falar no futuro — o gênero de ficção científica tem sido sempre notoriamente branco).

Mas, embora alguns estejam cansados de ver os negros retratados nessas histórias, outras pessoas, como a jornalista The Root, Demetria Lucas D’oyley, argumentam que precisamos de mais filmes sobre escravidão, e não menos.

“Quero dizer, foi um período de 397 anos da história americana”, D’oyley escreveu em janeiro. “Apenas agora temos um filme ‘mainstream’ [de amplo alcance] sobre Nat Turner.

Queremos jogar a toalha antes de termos um lançamento dramatúrgico sobre Harriet Tubman ou sobre a revolução haitiana? ”.

Os filmes sobre escravidão devem ser artísticos, educativos ou ambas as coisas?

Nesta semana, O Nascimento de uma Nação estreou nos cinemas brasileiros. As primeiras críticas nos EUA sugerem que não é uma obra-prima, ao utilizar muitas metáforas familiares e imagens já estabelecidas e construídas em filmes anteriores sobre escravidão.

Mas, de acordo com Parker e seus simpatizantes, o que torna o filme tão importante é sua qualidade educativa — é apresentar a história “real” de Nat Turner para muitas pessoas.

E, olhando para os 100 anos de filmes sobre a escravidão e seu impacto, a pergunta é: são suficientes? Os filmes sobre escravidão devem ser artísticos, educativos ou ambas as coisas? Ou deveriam ser mais palpáveis, menos polêmicos? E o sério tema da escravidão torna válido o apoio a O Nascimento de uma Nação e, portanto, a seu problemático diretor?

Deve haver uma razão pela qual retornamos, seguidamente, à instituição da escravidão quando contamos histórias sobre negros no cinema. Talvez o retorno constante seja um sintoma de que nunca tenhamos abordado a realidade da escravidão nos EUA como nação, bem como suas complexas e amplas ramificações.

Talvez, com cada novo file, estejamos tentando chegar cada vez mais perto da verdade da escravidão e, fazendo isso, da verdade sobre quem faz parte e o que realmente é a América.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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