Huffpost Brazil

Economistas vencedores do Nobel preveem 'recessão global' com presidência Trump

Publicado: Atualizado:
TRUMP MARKET
Kai Pfaffenbach / Reuters
Imprimir

No começo de novembro, um grupo de 370 economistas divulgou uma carta aberta recomendando que os americanos não votassem em Donald Trump.

Assinada por renomados economistas e 8 vencedores do Prêmio Nobel de Economia, a carta lista os problemas do então candidato, muitos relacionados ao seu discurso de que a manufatura americana está em queda por causa do comércio internacional. O documento também diz que Trump tem uma ignorância profunda sobre assuntos econômicos e não ouve experts da área. "Donald Trump é uma escolha perigosa e destrutiva para o país."

Na madrugada da última quarta-feira (9), no entanto, Trump foi eleito o novo presidente dos Estados Unidos, derrotando a favorita Hillary Clinton. A notícia pegou de surpresa o mercado e as bolsas em todo o mundo desabaram, inclusive no Brasil.

As incertezas sobre o novo presidente, assim como suas propostas protecionistas e anti-globalização, podem deteriorar a economia dos Estados Unidos -- levando até a recessão.

Essa foi a previsão de Paul Krugman, Nobel de Economia. Em uma coluna no jornal americano The New York Times, poucas horas depois do resultado da eleição, o economista escreveu as previsões econômicas para os próximos anos. "O desastre para a América e para o mundo tem tantos aspectos que as ramificações econômicas caíram na minha lista de coisas a temer."

"Ainda assim, eu acho que pessoas querem uma resposta: se a questão é quando o mercado vai se recuperar, a minha primeira resposta é nunca."

Krugman diz que colocar a mais forte economia do mundo nas mãos de um homem "irresponsável e ignorante" foi uma má decisão. "O que torna isso especialmente ruim neste momento, no entanto, é o estado frágil que o mundo se encontra, oito anos depois da grande crise financeira."

Ele admite que os empregos e a economia dos EUA vêm apresentando bons números, mas lembra que a recuperação só veio junto com a taxas de juros que estão extremamente baixas (proximas de zero). "Não há nada de errado nisso, mas o que acontece se algo de ruim acontecer e a economia precisar de um gás? O Fed [Banco Central americano] basicamente não tem para onde correr e tem pouca habilidade para responder a esses eventos adversos."

A principal fonte destes efeitos adversos seria, segundo Krugman, justamente o regime 'ignorante' de política econômica e uma posição hostil para com o mercado global. "O Fed terá um apoio fiscal? Sem chance. Na verdade, você pode apostar que o Fed perderá sua independência e será intimidado por marionetes [do governo]."

Ele termina seu texto dizendo que isso pode causar um grande problema econômico não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.

"Então, provavelmente, estamos olhando para uma recessão global, sem fim à vista. Eu suponho que nós tenhamos sorte de algum jeito. Mas não na economia, como em qualquer outra coisa, algo terrível acabou de acontecer."

Krugman não é o único que expressou preocupação com a vitória de Trump. O Nobel Joseph Stiglitz, professor de economia na Columbia University, também acredita em uma deterioração da economia com Trump no comando dos EUA.

Durante uma reunião organizada pelo Credit Suisse no início de novembro, o economista afirma que as políticas de isolamento de Trump pode ter "efeitos adversos" em mercados emergentes. Em sua opinião, o tumulto gerado pela vitória de Trump pode induzir o Fed a não aumentar as taxas de juros, o que provavelmente aconteceria em dezembro deste ano.

A opinião é compartilhada pelo economista-chefe do HSBC americano, Kevin Logan. Em nota aos clientes na última quarta, o economista disse que as políticas econômicas de Trump "pode colocar a economia em recessão depois de um ou dois anos".

Já a imprensa internacional foi menos prudente. "Como o presidente Donald Trump vai quebrar a economia mundial", era o título do jornal britânico The Independent. "Bem-vindo à recessão de Trump", estampava a manchete do jornal americano 24/7 Wall St.

E como fica o Brasil?

Executivos e autoridades brasileiras avaliam que a vitória de Trump pode esfriar acordos bilaterais que envolvem os Estados Unidos, uma vez que o novo presidente é contra o livre comércio e acusa o Brasil, assim como a China, Índia e Japão, de "roubar" empregos dos americanos.

“Os mega acordos comerciais que estão pendentes de aprovação, como a Parceria Transpacífico e o acordo em negociação com a União Europeia, talvez tenham um certo esfriamento, já que as questões internas nos Estados Unidos devem dominar a agenda do novo presidente”, avaliou a CEO da Amcham (Câmara Americana de Comércio Brasil-Estados Unidos), Deborah Vieitas.

Thomaz Zanoto, diretor titular de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), porém, afirma que os impactos no Brasil da eleição de Trump devem ser limitados porque o comércio entre os países é feito com a participação de multinacionais americanas instaladas no Brasil, no chamado "intra company trade". “É a própria multinacional americana, que tem presença forte no Brasil, que transaciona ou com clientes ou com a matriz nos Estados Unidos. É um processo interno das companhias”, destacou.

Zanoto acrescenta que, apesar dos países serem próximos, um acordo de livre comércio não deverá ocorrer. “Se nós tivéssemos nesse momento negociando um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, em estágio avançado, seria uma pena, porque talvez o acordo não se concretizasse. Mas isso não está ocorrendo. O trabalho que temos com muita intensidade com os Estados Unidos é um trabalho muito de nível técnico, a chamada convergência regulatória”, concluiu.

LEIA MAIS:

- Parceria comercial, turismo e imigração: O que significa a vitória de Trump para a economia brasileira?

Também no HuffPost Brasil

Close
De que o mundo mais tem medo em Donald Trump
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção