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Em novo livro, Margaret Atwood atualiza 'A Tempestade', clássico de Shakespeare sobre amor e vingança

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MARGARET ATWOOD
Atwood em entrevista à editora Random House, em Toronto, julho de 2014 | Marta Iwanek via Getty Images
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A mais recente obra do projeto Hogarth, dedicado a releituras das peças de Shakespeare escritas por aclamados autores, é uma competição realizada em um céu distópico (se tal coisa pudesse existir).

Margaret Atwood, a escritora canadense por trás da grande ficção especulativa ecológica, como a trilogia MaddAddam, vai de encontro ao drama de Shakespeare mais obcecado com o clima: A Tempestade.

Claro que Atwood não adota o óbvio ângulo do tempestuoso.

Em vez disso, sua obra Hag-Seed (algo como "semente de bruxa", em português) utiliza elementos de teatralidade e desilusão em A Tempestade, contando a história de Felix, um diretor artístico outrora ambicioso que está vivendo em profundo isolamento, desde que seu braço-direito o traiu e assumiu o Festival de Teatro Makeshiweg em seu lugar.

hagseed margaret atwood

Sua maior produção, A Tempestade, na qual ele interpretaria Próspero, foi cancelada. Humilhado, ele se afasta da sociedade. Sozinho em uma minúscula cabana, ele chora a perda da filhinha, Miranda, que morre pouco antes dele ter sido expulso de seu cargo, e também planeja sua vingança contra seu substituto, Tony Price.

Depois de anos praticamente em exílio, Felix começa a trabalhar sob um pseudônimo em uma escola de teatro de uma prisão. Ele faz com que os atores da Fletcher Correctional interpretem personagens violentos, machistas de Shakespeare — Júlio César, Macbeth — e, à medida que as temporadas passam, ganha a confiança dos presos, dos agentes penitenciários e de Estelle, a professora que criou o programa.

Assim como o planejado.

Na verdade, ele tem um plano desonesto para usar seu cargo como professor de teatro na penitenciária e se vingar de Tony e Sal O’Nally, antes ministro do Patrimônio, que ajudou Tony a tomar o lugar de Felix.

Os dois, ambos ministros de gabinete agora, planejam assistir à performance do programa, que completa quatro anos — a perfeita oportunidade para Felix finalmente encenar sua Tempestade e conseguir a recompensa com sua vingança barroca, que envolve drogar os ministros durante a apresentação.

Se isso soa um pouco exagerado, implausível e desnecessariamente complicado, é porque é. Como não poderia ser? A Tempestade traz inúmeros naufrágios de conveniência, um mago que comanda espíritos da ilha e um intenso caso de amor entre os únicos dois jovens à vista.

A formidável habilidade de Atwood como artesã de palavras e contadora de histórias faz de Hag-Seed um conto envolvente e uma verdadeira atualização de A Tempestade, mas está muito amarrado em minúcias vingativas para se destacar como um romance distintamente valioso por seus próprios méritos.

Ainda assim, Felix, o Próspero do romance, vale a pena ser examinado. Com um olhar cada vez mais perspicaz, Atwood cutuca o ridículo do herói — sua certeza presunçosa de que Estelle tem uma queda por ele, mesmo diante do fato de que ele passa a maioria dos dias se limpando com lencinhos, mordiscando biscoitos na hora do jantar; sua obsessão em pesquisar informações na Internet sobre o homem que o prejudicou uma década atrás.

Ela cuidadosamente alfineta seu orgulho de autossatisfação ao ajudar os presidiários que, na verdade, ele está explorando para seus fins egoístas. O talento e licença poética mostradas por alguns de seus alunos, ela sugere, são mais significativos do que os dons de Felix, embora ele os utilize para sua própria vantagem.

Em um dado momento, um membro do elenco surge com um interlúdio de rap para Antonio, o irmão malvado de Próspero; Felix tem de esmagar sua inveja pelo fato de que seus próprios alunos possam brilhar mais do que ele durante a produção.

Estranhamente, os versos de hip-hop dos internos e, depois, a prisão da criatura Caliban deixam um pouco do mesmo gosto desagradável que eles deixam no mundo do teatro — o trabalho e talento de alunos marginalizados é usado como fachada para a história do homem branco ofendido, Felix, que mantém o crédito e controle.

Como seria um romance que invertesse o roteiro, em vez de simplesmente desarrumá-lo? Recorrer à narrativa de alguém em vez do protagonismo de Próspero pode ser um bom começo.

Conclusão:

Hag-Seed, a releitura de Margaret Atwood baseada em A Tempestade, utiliza elementos de teatralidade e desilusão.

A opinião de outros críticos:

The New York Times: “O romance, até certo ponto, é uma prosa magnífica ainda que curta, a serviço de uma história que é completamente dolorosa, mas alfinetada com humor, com uma narrativa que conserva uma sutileza considerável mesmo com o enredo original se encaixando perfeitamente. Mas a produção na prisão de A Tempestade leva a alguns dos momentos mais estranhos do livro.

The Guardian: “Há tanta exuberância e coração e imaginação neste romance que a única coisa que quero agora é que Atwood rescreva toda a obra de Shakespeare. (Não se sinta ofendido, Will).

Quem escreveu?

Margaret Atwood é a aclamada escritora de clássicos modernos como O Conto da Aia e O Assassino Cego. Seu romance mais recente, The Heart Goes Last, ainda não foi publicado no Brasil.

Quem vai lê-lo?

Fãs de Shakespeare, fãs de Atwood e fãs de vingança.

Falas iniciais:

“Felix escova os dentes. Então, escova seus outros dentes, os falsos, e os desliza para dentro da boca. Apesar da camada de adesivo pink aplicada, não se encaixam bem; talvez sua boca esteja encolhendo. Ele sorri: a ilusão de um sorriso. Pretensão, fingimento, mas, quem vai saber?

Passagem notável:

“No final ‘Ah!’, todos olham para Felix. Ele conhece aquele olhar. Me ame, não me rejeite, diga que fui aprovado!

‘O que você achou?’, pergunta SnakeEye. Ele saiu correndo acelerado, está respirando forte.

‘Tem algo mais’, diz Felix, que, na verdade, gostaria de estrangulá-lo. Ladrão de cena! Mas ele sufoca aquela sensação: o show é deles; se repreende.

Hag-Seed

Margaret Atwood

Hogarth
Importado
Preço: Cerca de R$ 60,00

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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