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As diferenças entre meninas e meninos na área de exatas começam na infância

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MATEMTICA
Um novo estudo indica que a disparidade entre os gêneros em matemática não mudou muito entre as crianças que entraram no jardim-da-infância em 1998 e em 2010 | MONKEY BUSINESS IMAGES/STOCKBROKER VIA GETTY IMAGE
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A disparidade em matemática observada entre os gêneros pode começar no jardim-da-infância – e os professores da pré-escola podem ter parte da responsabilidade, mesmo que não tenham a intenção.

Um estudo publicado em outubro na AERA Open, uma revista científica da Associação Americana de Pesquisas Educacionais, mostra que é no jardim-da-infância que começa a surgir a disparidade de performance entre meninos e meninas.

Os pesquisadores acompanharam mais de 5 000 crianças que entraram no jardim-da-infância em 1998 e outro grupo de mais de 7 500 crianças em 2010. Eles observaram que a diferença nas habilidades matemáticas não mudou muito entre os dois grupos, que entraram na pré-escola separados por 12 anos.

Inicialmente, meninas e meninos tinham habilidades matemáticas iguais. Mas a disparidade logo começou a ser identificada, e a partir da metade do ano havia mais meninos que meninas no grupo de alunos com melhor desempenho. Chegando na terceira série, a diferença era generalizada, particularmente entre as crianças com melhor desempenho escolar. Essa conclusão é especialmente perturbadora, dizem os pesquisadores.

“Estudantes que se dedicam às carreiras CTEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemática) têm maior probabilidade de vir do grupo de alunos com melhor desempenho. É por isso que é tão preocupante ver um número tão pequeno de meninas de alto desempenho”, disse Emily Miller, professora assistente do Departamento de Matemática da Universidade West Chester e co-autora do estudo.

“Além disso, observamos o mesmo em uma amostra nacional dos alunos que começaram o jardim-da-infância em 2010, mais de uma década depois do grupo analisado em 1998.”

As diferenças persistem apesar de muitas mudanças no cenário educacional desde 1998, tais como a aprovação da lei No Child Left Behind (nenhuma criança deixada para trás), em 2001, e outras iniciativas que deveriam ter aumentado a atenção em relação à disparidade entre os gêneros.

Outra descoberta marcante do estudo foi a responsabilidade dos professores, que teriam expectativas diferentes em relação às meninas. Joseph Robinson Cimpian, professor da Universidade de Nova York, diz que quando ele e seus colegas começaram a estudar o porquê das diferenças, a ideia era examinar a relação entre o viés negativo dos professores em relação às meninas e a habilidade real das estudantes. Eles reuniram um grupo de professores para ouvir suas opiniões.

Uma delas apresentou as notas que deu numa prova como demonstração de que os pesquisadores estavam enganados.

“Ela meio que nos interrompeu logo no começo e disse: ‘Não sei por que você estão estudando esse tópico da disparidade de gêneros em matemática. Trouxe as notas que dei numa prova, e vocês podem ver que as meninas foram tão bem quanto os meninos’”, diz Cimpian.

E então a professora completou: “As meninas podem ir tão bem quanto os meninos, se se esforçarem”.

Cimpian diz que os pesquisadores ficaram chocados com o comentário. “E de repente ela percebeu: ‘Meu Deus! Fiz exatamente o que vocês estão descrevendo. OK, desculpe, retiro o que disse’”, afirma Cimpian.

De fato, o estudo mostra que os professores consistentemente consideram o desempenho das meninas inferior ao dos meninos, mesmo que eles tenha notas idênticas (que os professores desconhecem) em testes do Departamento de Educação.

Em outras palavras, a equipe encontrou evidências de viés implícito por parte dos professores, o que poderia ter influência na inclinação das meninas em seguir carreiras relacionadas à matemática.

Temos de pensar no treinamento dos nossos professores e conscientizá-los sobre o potencial do viés implícito.

Joseph Robinson Cimpian, professor associado de economia e política educacional da Universidade de Nova York

Esse viés pode ser não-intencional e implícito. A avaliação dos alunos é coletada de maneira que eles nunca têm de comparar meninos e meninas – as avaliações são relacionadas a habilidades específicas, tais como a capacidade de somar ou subtrair números de dois dígitos.

O viés negativo em relação às meninas reflete atitudes culturais da sociedade como um todo, algo que contribui para a menor representação das mulheres em carreiras CTEM.

Ainda assim, os primeiros professores podem ter influência essencial na trajetória futura das crianças.

“Os professores têm efeito desmedido nas gerações futuras, por causa do tempo que passam em contato com elas”, diz Cimpian.

As expectativas mais baixas dos professores em relação às meninas podem influenciar suas habilidades futuras de várias maneiras. Pesquisas que remontam a pelo menos à década de 1960 mostram que as pessoas atingem expectativas e têm melhor desempenho simplesmente se isso é o que se espera delas. Quando a expectativas são menores, ocorre o oposto.

Além disso, quando as próprias professoras têm ansiedade em relação a matemática, podem passar sinais errados para as meninas, segundo um estudo (http://www.pnas.org/content/107/5/1860.long) de 2009 de Sian Beilock, professora da Universidade de Chicago.

“As professoras da primeira série que têm mais fobia de matemática transmitiam essa fobia para as alunas”, disse Cimpian. Talvez as meninas fossem mais aptas a perceber essa ansiedade, ou então elas enxergam a professora como exemplo.

Reduzir esse viés poderia ter conseqüências significativas. O trabalho anterior de Cimpian sugeriu que, se os professores não pensassem que as meninas fossem menos capazes, a diferença de gênero se desenvolveria apenas pela metade.

“Temos de pensar no treinamento dos nossos professores e conscientizá-los sobre o potencial do viés implícito”, diz ele. “Temos de nos concentrar na educação dos professores antes e durante o exercício da profissão.”

Sarah Lubienski, professora da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign e co-autora do estudo, disse que os professores podem incentivar as meninas a desenvolver habilidades de resolução de problemas e habilidades espaciais, com o objetivo de reduzir esse viés.

“Os professores deveriam elogiar as meninas por inventarem novas estratégias para resolver problemas, em vez de elogiar métodos convencionais e respostas corretas”, disse ela.

Os pais também têm influência sobre as crianças, é claro. E eles podem tomar medidas para neutralizar preconceitos implícitos contra as meninas.

“As meninas não deveriam ouvir suas mães dizerem que ‘nunca foram boas em matemática’”, disse Lubiensky. “As mães devem moldar a confiança das suas filhas em relação à matemática.

Além disso, os pais devem expor as meninas a livros e jogos que envolvam padrões matemáticos, elogiando as meninas por tentar novas estratégias de resolução de problemas.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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