Huffpost Brazil
Grasielle Castro Headshot

Fernando Holiday: 'Cotas incentivam o racismo, são prejudiciais para o Estado e para os negros'

Publicado: Atualizado:
FERNANDO HOLIDAY
Para Fernando Holiday, MBL está acima do DEM, partido ao qual é filiado | Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil
Imprimir

Um dos principais apoiadores do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o Movimento Brasil Livre (MBL) se lançou como apartidário e rejeitou a presença de políticos nos protestos contra o PT. Mas o mundo deu voltas.

Agora, com uma de suas principais figuras na Câmara Municipal de São Paulo, o estudante Fernando Holiday, de 20 anos, a ideia é levar as discussões do movimento para dentro do Legislativo e se expandir na política.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, o vereador eleito com mais de 48 mil votos foi claro ao se defender das críticas de propostas como a revogação do Dia da Consciência Negra e das cotas para negros no serviço público:

"Não estou fazendo nada mais que trazer as ideias para dentro da Câmara. Uma das minhas propostas, não a principal, mas uma das que pretendo propor ao longo do próximo ano, é a revogação das cotas raciais nos concursos públicos municipais. Acredito que acaba incentivando o racismo. (…) Acredito que é uma medida prejudicial para o estado de São Paulo e prejudicial, inclusive, para os próprios negros.”

O novo vereador sabe que não vai ser fácil, mas diz estar preparado para o debate. “Mesmo que não passe, somente a discussão de algo desse tipo já é um grande avanço, já que hoje no Brasil [política de cotas] é tido como um consenso e pouco se discute.”

Alta fidelidade

Holiday explica que as ideias do MBL estão bem acima da ideologia do DEM, partido ao qual é filiado. A expectativa é que apenas as propostas que tenham aval dentro do movimento sejam exploradas por ele na Câmara de São Paulo.

Se estivesse em discussão as ocupações nas escolas, estaria claro que, independentemente do que pensam o DEM ou o prefeito eleito João Doria, Holiday já teria uma opinião.

"O MBL é totalmente contrário.(…) Estudar é um direito garantido e não é por meia dúzia de alunos que sequer sabem contra o que estão protestando.”

Já se o assunto fosse teto de gastos públicos, o MBL tem uma posição firme a favor da medida e das reformas previdenciária e trabalhistas defendidas pelo presidente Michel Temer.

Leia a íntegra da entrevista:

HuffPost Brasil: Qual a proposta do II Congresso Nacional do MBL que será realizado nos dias 19 e 20?

Fernando Holiday: O nosso último congresso tinha a questão das candidaturas, foi quando a gente decidiu os candidatos [das eleições deste ano] e tudo mais. Nesse, a gente só vai fazer um balanço do movimento e ver dos palestrantes o que eles acharam do ano de 2016 e do próximo resultado do MBL. Entre os palestrantes estão Gilmar Mendes, Janaína Paschoal, o prefeito eleito de Porto Alegre, Nelson Marchezan, Reinaldo Azevedo e o ministro da Educação, Mendonça Filho.

Qual a avaliação do movimento sobre o resultado das eleições?

O MBL, das iniciativas liberais que vieram, foi o que mais elegeu. Dos 45 candidatos, nove foram eleitos. Foi um sucesso, tendo em vista que outras iniciativas não elegeram tanto quanto a gente, e a gente tem tido um excelente balanço, contando até com os suplentes, que são sete e provavelmente vão assumir mandato. Mostra que nossa estrutura suprapartidária de fato está funcionando.

Faz parte dos seus planos integrar a base aliada do prefeito eleito João Doria?

A princípio sim, mas acima de tudo, eu tenho uma fidelidade, mais até que com o Democratas, meu partido, com o Movimento Brasil Livre. Se algum momento tiver alguma proposta que vá contra os nossos preceitos, nossos ideais, terei que votar contra, mas a princípio concordo com a maioria das ideias dele [Doria]. Ele fez um jantar no dia 24 de outubro com todos os vereadores que foram eleitos dessa coligação da qual eu participei. E, pelas propostas que ele tem apresentado, que foram as de campanha, de privatização, redução da máquina pública, em todas essas a gente converge... Vou trabalhar para que se tornem realidade.

O senhor se sente preparado para levar adiante propostas polêmicas como a revogação do Dia da Consciência Negra e a extinção das cotas raciais em concursos públicos?

Essas minhas posições já eram conhecidas antes das eleições. Não estou fazendo nada mais que trazer as ideias para dentro da Câmara. Uma das minhas propostas, não a principal, mas uma das que pretendo propor ao longo do próximo ano, é a revogação das cotas raciais nos concursos públicos municipais. Acredito que acaba incentivando o racismo, como dizem alguns autores pelo mundo — eu me baseio principalmente em Thomas Sowell. Acredito que é uma medida prejudicial para o Estado de São Paulo e prejudicial, inclusive, para os próprios negros. Além disso, pretendo propor uma revisão para o Dia da Consciência Negra. Primeiro porque a data homenageia uma figura um tanto quanto controversa, como foi Zumbi dos Palmares. Há historiadores que dizem que o próprio Zumbi e seus quilombos tiveram escravos. Acredito que é uma figura que não deve ser homenageada. Vou propor isso na Câmara. Essas duas revogações. Não vai ser fácil, vai gerar muita polêmica, mas estou preparado para o debate.

Acredita que terá apoio para esses projetos na Câmara de Vereadores?

Acredito que são projetos que precisam ser discutidos, os argumentos precisam ser apresentados com maior clareza. Inclusive é preciso trazer a sociedade civil para esse debate. As pessoas que me seguem na internet, acredito, vão querer participar desse debate, por meio de audiências públicas ou outros tipos de discussões dentro da Câmara. Acredito que mesmo que não passem, somente a discussão de algo desse tipo já é um grande avanço, já que hoje no Brasil [política de cotas] é tido como um consenso e pouco se discute.

O MBL teve um papel importante no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Vocês estão satisfeitos com o governo do presidente Michel Temer?

O movimento tem algumas críticas ao governo. Nós chegamos a cobrar o afastamento do então ministro do Planejamento Romero Jucá, quando vieram as primeiras acusações. Também cobramos que qualquer ministro denunciado ou citado em qualquer tipo de delação seja imediatamente afastado porque o Brasil precisa viver uma nova fase. Mas o governo Temer tem seu lado positivo. Acredito que as primeiras medidas econômicas, a própria PEC do Teto, são apoiadas pelo Movimento Brasil Livre. Esperamos que a reforma da Previdência venha a ser pauta neste governo, além da reforma trabalhista e uma reforma política.

Como vocês se sentem com o senador Romero Jucá na liderança do governo Temer?

Não achamos que seja o ideal, mas aí já é uma composição que o próprio Senado infelizmente acaba criando. O MBL não apoia.

E sobre as ocupações...

O MBL é totalmente contrário. Tivemos uma equipe no Paraná que esteve com pais e alunos que queriam estudar protestando para que essa escolas fossem desocupadas. Estudar é um direito garantido e não é por meia dúzia de alunos que sequer sabem contra o que estão protestando.

Uma das bandeiras do MBL é o combate à corrupção. Vocês concordam com as medidas propostas pelo Ministério Público em análise no Congresso Nacional?

Nós somos a favor das 10 medidas... É preciso uma pequena revisão em alguns tópicos controversos. O texto de fidelidade, de honestidade (que consiste em simular uma oferta de propina para ver se o servidor público é honesto ou não), não é algo que ao nosso ver seria um consenso no Ministério Público e sobre como funcionaria.

E a movimentação no Congresso para anistiar o caixa 2?

Somos totalmente contrários, mas estamos vendo qual a melhor forma, se protesto nas ruas, como fizemos pelo impeachment, ou se cobrança nas redes sociais, ou ligando nos telefones dos gabinetes dos deputados. Ainda não temos clara a estratégia, mas vamos agir contrários a isso.

Qual a estratégia do movimento para crescer pós-impeachment?

Além de focar nos nossos candidatos que foram eleitos ou vão assumir como suplentes, vamos focar nas reformas. Agora estamos empenhados para que a PEC do Teto ande. Vamos focar nas reformas da Previdência e também na trabalhista para que cada uma delas se tornem uma realidade. Nosso papel agora é fazer que as reformas andem e os senadores votem a favor.

Fernando Holiday e Kim Kataguiri no dia da votação do impeachment no Senado

Há planos de candidaturas do MBL para 2018?

Já temos alguns desenhos. Em São Paulo, nosso candidato a deputado federal deve ser o Kim [Kataguiri], mas ele ainda não escolheu partido. Estão surgindo outros nomes em outras cidades, mas nada definido. Tem partidos que podem abarcar essa candidatura do Kim, como o DEM, o PSDB e o PSC, mas nada definido ainda.

LEIA TAMBÉM:

- Vereador eleito em SP, Holiday quer acabar com cotas raciais e revogar Dia da Consciência Negra

- Fernando Holiday diz que programa de Haddad contra crack é 'verdadeiro desastre'

- Grupo que se dizia apartidário, MBL elege pelo menos 8 políticos no País

Mais no HuffPost Brasil:

Close
Impeachment de Dilma Rousseff
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual

Sugira uma correção